Lucíola, O Anjo Pecador

Dossiê Alfredo Sternheim

Lucíola, O Anjo Pecador
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1975

Por William Alves

O Carlo Mossy putanheiro e bem-humorado de pornochanchadas como Essa Gostosa Brincadeira a Dois e Como É Boa Nossa Empregada convenientemente não dá as caras nesse Lucíola, O Anjo Pecador, baseado na obra de José de Alencar. Aqui ele é Paulo, um nobre de Olinda recém-chegado ao Rio de Janeiro. Antes de aproveitar qualquer tipo de prazer que a cidade oferece, ele se apaixona ao primeiro olhar pela encantadora Lúcia, vulgo Lucíola.

Talvez por vir de uma cidade menor e não estar habituado aos tipos da cidade grande, Paulo não se dá conta, pelo menos não sem ajuda, de que Lucíola é uma prostituta (ou “cortesã”, em termos arcaicos). A atração desmesurada do rapaz pela meretriz logo vira motivo de zombaria por parte de Sá, grande amigo de Paulo e espécie de guia carioca deste. Disposto a investir na paixão, Paulo disfarça o interesse nas rodas sociais grã-finas que freqüenta, mas não tira a bela moça do pensamento.

Mossy é bom ator, e representa bem as duas farsas que lhe cabem. A primeira é a de “enganar” o telespectador que já havia acompanhado o astro nas produções citadas no começo desse texto, francamente diferentes desse Lucíola. Já a segunda é aquela concernente ao filme. Com seus ternos bem cortados, barba impecável e os olhos azuis que lhe conferem uma especial aparência de lorde britânico, ele se ajusta adequadamente ao respeitável Paulo de José de Alencar.

As presenças arrebatadoras de Helena Ramos (como Nina) e Rossana Ghessa (como Lucíola) também concedem credibilidade ao caráter nobiliárquico do filme. Rossana, a protagonista, está especialmente convincente como a impetuosa amante de Paulo. Impetuosa em demasia, inclusive.

Essa impetuosidade acaba por comprometer o longa de Alfredo Sternheim. A personagem é contraditória e instintiva, e suas múltiplas resoluções acabam por atordoar quem está assistindo. Há uma urgência ao redor da personagem, como se ela necessariamente precisasse ser salva dessa condição de prostituta de luxo. A ironia é que, ao exprimir repetidas vezes sua inferioridade moral em relação a Paulo, ela parece não levar a consideração o próprio estilo de vida dele: sempre rodeado por “amigos” ricos, sórdidos e ébrios, cuja única forma de diversão parece ser a orgia e a exploração de figuras tristes como Lucíola.

Na obra literária, não há o acréscimo “Anjo Pecador” no título. Essa adição parece ter o único intuito de ampliar a áurea libidinosa do longa. Com sucesso.

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