Mulher Desejada

Dossiê Alfredo Sternheim

Mulher Desejada
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1978

Por Sérgio Andrade

Antes de ser diretor, Alfredo Sternheim foi um cinéfilo atuante desde a mais tenra idade e, mais tarde, crítico de cinema do Estadão. Não é surpresa, portanto, que seus filmes tenham referências a obras de cineastas que admira. Dessa forma, Anjo Loiro era tanto uma adaptação do livro de Heinrich Mann como do filme de Von Sternberg com Marlene Dietrich, O Anjo Azul, “Lucíola lembrava alguns dramas de época de William Wyler e Brisas do Amor uma espécie de Grand Hotel, de Greta Garbo, em Mongaguá.

Já neste Mulher Desejada, ele busca inspiração em Luis Buñuel e Louis Malle, e trata também dos casos patológicos que lhe interessam desde o primeiro longa, Paixão na Praia.

Começa com uma epígrafe de Edgar Allan Poe: “Oh! Meu Deus! E não posso retê-los, se os aperto na mão tanto e tanto? Ah, meu Deus! E não posso salvar um ao menos da fúria do mar? O que vejo, o que sou e suponho será apenas um sonho num sonho?”, ao som do Sexteto de Cordas op. 18 de Brahms, o mesmo usado por Malle para sublimar a relação de seus Les Amants.

Luiza (Kate Hansen) é uma famosa atriz de televisão, mas está insatisfeita em seus casos amorosos com um homem casado (Helio Souto) e um colega de profissão. Busca ajuda numa terapia de grupo, mas é hostilizada pelos participantes, e mais tarde terá um sonho no qual é amarrada numa árvore e chicoteada por eles (clara citação ao “Belle de Jour”). Ela vai passar um fim de semana no sítio de uma amiga, Edith (Marlene França), que está hospedando várias pessoas para uma festa noturna. Luiza fica conhecendo Waldo (Eduardo Tornaghi), filho da misteriosa caseira Ana (Elisabeth Hartmann), um rapaz que parece ser atencioso e carinhoso e com quem ela acaba se envolvendo. Mas ele demonstrará não ser exatamente aquilo que aparentava, deixando Luiza em apuros.

Em sua autobiografia, Um Insólito Destino (Coleção Aplauso, 2009), Alfredinho lamenta que a Paris Filmes, distribuidora e co-produtora da fita, tenha eliminado o epílogo nas copias em vídeo, tornando a epígrafe de Poe sem sentido. E realmente na cópia que vimos, na cena final há um corte para um primeiro plano rapidíssimo de Luiza que os mais atentos entenderão, mas que confundirá boa parte dos espectadores.

Felizmente há muito que apreciar neste drama que transita entre sonho e realidade de forma bem interessante, começando pela beleza estonteante de Kate, num de seus maiores momento no cinema, muito bem iluminada pela câmera do grande Antonio Meliande.

Tornaghi surpreende com uma ótima atuação num papel bem difícil, exigindo uma mudança de registro no meio do caminho.
Do resto do elenco há que se exaltar a qualidade de atrizes como Elisabeth, Marlene, Ivete Bonfá, e atores como Hélio, Armando Tiraboschi e Genésio de Carvalho.

Mas é Kate que domina o filme do começo ao fim. Uma pena que sua carreira, assim como de outras musas do cinema dos anos 70, tenha acabado com o domínio dos pornôs.

E é pra lamentar mesmo que a Paris Filmes tenha mutilado a obra. Se o final bolado por Sternheim tivesse sido mantido, o resultado poderia ter sido excepcional.

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