Garotas Sacanas

Dossie Alfredo Sternheim

Garotas Sacanas
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1988

Por Vébis Junior

Memórias e lembranças de questões mal resolvidas infestam os pensamentos dos personagens de Garotas Sacanas, filme de Alfredo Sternheim, de 1988, produzido por Juan Bajon, da produtora Galápagos, especialista em filmes de sexo na segunda metade da década de 1980.

No filme, Dionízio com Z, como ele mesmo se auto-entitula, é um psicólogo que, apoiado pelos fundos universitários, tenta realizar suas taras antigas de ludibriar duas atrizes eróticas do passado, interpretadas por Sandra Midori e Sandra Morelli.

A melhor forma de enganar as ex-atrizes seria simular uma entrevista tímida e moralista, em que aos poucos revela ser um bom entendedor das nomenclaturas pornográficas, enquanto as atrizes apenas assumem terem entrado no ramo por necessidade.

Em alguns momentos, o roteiro chega a se auto-explicar, fazendo um mea culpa das situações financeiramente carentes de algumas atrizes do passado. Mas que Sternheim salva da má impressão nas cenas de sexo, que são muitas pra um filme relativamente curto – pouco mais de 60 minutos.

A primeira atriz, a oriental (Midori), chega acompanhada de seu namorado, um ex-ator pornô. Após ser hostilizada pelo entrevistador, o marido tem de ficar do lado de fora, enquanto a oriental continua suas confissões ao suposto pesquisador. Começam aí as narrativas paralelas entre confissões e cenas de sexo.

Sternheim, não é apenas um diretor de filme de sexo, sabe inserir sensibilidade nos planos, para que sintamos a diferença clara no sexo feito da ex-atendente de karaokê com outros atores que passaram pela sua vida e seus filmes, e com aquele que se tornou seu grande amor.

A garota acerca-se de um tom carregado de ternura e muita compreensão com seu caminho no universo de filmes eróticos, sem qualquer tipo de culpa pelo passado. Em alguns momentos, a entrevista nos remete a Lilian M – Relatório confidencial, de Carlos Reichenbach, que retrata as confissões de uma garota de programa. Porém, uma decupagem apurada para cenas de sexo nos faz lembrar a fase de filmes eróticos de Joe D’amato, que, como poucos, soube captar penetração e banhos de sêmem.

A cada lembrança da atriz em sua jornada até seu recente amor, uma nova cena de sexo. O mesmo ocorre lá fora, enquanto o marido a espera e relembra da mesma casa em que tudo se iniciou. Mas como a pornochanchada necessita de um pouco de sacanagem, é a nós, espectadores, que o namorado demonstra omitir as lembranças de outra garota que o balançou.

A entrevista é interrompida pela falta de controle do psicólogo, que, nitidamente, perderia sua compostura por ouvir os depoimentos com tanta veracidade e despudor.

O discurso dos personagens toma mais forma com a chegada da já prenunciada antiga atriz (Morelli), que balançou o marido, e que também fora convidada para entrevista. O quadro popular que as pornochanchadas pedem, com o famoso apelo popular, fica nas entrelinhas de tensão criada, quando a garota oriental sente-se ameaçada com fantasmas do passado encarnados numa ex-atriz que é segura de si e com toques de depravação, o que enfraquece a fidelidade de seu marido.

A narrativa inverte os valores com a troca de entrevistadas, pois é com a nova vítima de Dionízio que vamos presenciar a única cena de anal do filme, e ainda uma homenagem ao filme Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens.

Em quase toda filmografia de comédia erótica, os bossais jamais são poupados. E, em meio ao fogo cruzado dos depoimentos de duas ex-atrizes, o entrevistador, que perde peso a cada sequência, termina merecidamente com o castigo recalcado dos que não são espertos o suficiente para levar uma garota para a cama com a mesma facilidade dos cafajestes heróis: declarando o amor às suas mãos companheiras.

Vébis Junior é cineasta e professor de cinema.

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