Fêmeas que Topam Tudo

Dossie Alfredo Sternheim

Fêmeas que Topam Tudo
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1987

Por Leo Pyrata

Fêmeas que Topam Tudo é um dos filmes da fase explicita do cinema de Alfredo Sternheim que não está entre os prediletos do próprio diretor. Quando eu vi o filme, já ciente dessa informação, a interpretei como um mal presságio. Levando-se em conta que Sterheim é um dos diretores que encarou o momento de forma corajosa, tentando contar histórias livre de preconceito, pois para aqueles que tentaram continuar fazendo cinema o rolo compressor do hardcore (ditado pelos exibidores como nova regra do mercado) era inevitável.

Outras coisas devem ser levadas em consideração. Em 1987, a situação do “explicito” havia piorado bastante. Com a inflação em alta, o fracasso dos planos Cruzado e Bresser, além do não comprimento das leis de reserva de mercado somado com a má fé dos exibidores. era cada vez mais difícil produzir filmes na Boca. Embora naquele ano, Sternheim ainda realizasse o inventivo Corpos Quentes, já pairava no ar o prenúncio do canto do cisne do derradeiro ciclo explícito da Boca. Não sei se seria exagero dizer que existe um pouco de melancolia no Fêmeas que Topam Tudo, embora em nenhum lugar do filme existam evidentemente situações dramáticas que endossem essa impressão. Talvez esteja no quadro de Marlene Dietrich ecoando um anjo loiro. Não sei, mas sinto muito isso.

Ana (interpretada pela belíssima Sandra Midori) e Dora (Marielle Giorgi) organizam uma “festa” no sítio da família da última. Ana passa por uma fase difícil após o término com seu namorado infiel Dino, um ator que sempre retorna dos “ensaios ” às quatro da manhã e tenta espairecer a cabeça na ocasião. Dora é uma moça insaciável que gosta de festas animadas. Os convidados chegam e começa o bacanal, mas sem a participação de Ana, que não é tão entusiasta do sexo coletivo como a amiga e prefere curtir sua fossa na roça sossegada. Então, eis que surge Mauro, um ex-padre que é primo de Dora e que aparece no sítio para repensar a própria vida religiosa num momento de crise vocacional. Existem outros personagens secundários como o musico de boné enfiado na cara e o casal acompanhante que não chegam a ter muito espaço na fita, além das cenas de sexo.

A trama sobre o padre que abandona a batina e surge de sopetão no sítio da prima, e, em seguida, passa a desejar a amiga nissei recatada flagrada nua no chuveiro, vai se esvaziando ao longo do filme num artesanato aquém do talento e da sensibilidade de Sternheim. Destacam-se o uso de elementos inusitados no sexo, como o óleo automotivo na primeira cena de sexo do filme, em que o mecânico Jorge faz uma revisão meia-bomba em Dora; ou ainda quando um pote de maionese é utilizado com a mesma finalidade.

O uso da trilha sonora e a montagem nas cenas de sexo também merecem atenção, como, por exemplo, na seqüência em que o padre Mauro sonha com Ana e com Dora. Algumas falas têm grosseria e obviedade na medida certa: “Você sabe que sempre tive vontade de comer galinha japonesa?”; ou “canta no meu microfone”. Lembram aquela idéia de “filme de sacanagem sobre sacanagem”. Existem momentos onde o desleixo na representação de brigas e conflitos chega a parecer charmoso. Para não dizer um registro involuntariamente engraçado das limitações do elenco levando em conta que nem todos estavam em cena por conta de seus talentos dramáticos.

A impressão final que o filme me deixou, principalmente por seu desfecho, é de um clima de desencanto. Ver o ex-padre falando que rezaria pela prima, asfixia e elimina as potências e possibilidades que o triangulo amoroso de Dora, Mauro e Ana tinha. E uma solução ligeira assim acaba por me intrigar mais que a própria intriga do filme. Sei e sinto que. às vezes, os nossos olhos refletem, vezes mais, outras vezes menos, coisas que as câmeras registram num set de cinema, independente de que as coisas estejam ou não (com o perdão do trocadilho) explícitas.

Leo Pyrata é estudante de cinema, ator do curta Contagem – Prêmio de Melhor Direção para Gabriel Martins e Maurílio Martins no Festival de Brasília -, diretor do curta Retrato em Vão, co-diretor do longa Estado de Sítio, e vocalista da banda Grupo Porco de Grindcore Interpretativo.

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