Entrevista: Alfredo Sternheim – Parte 5

Dossiê Alfredo Sternheim

Entrevista com Alfredo Sternheim
Parte 5: Pós-Boca

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Por Gabriel Carneiro
Fotos: Dênis Arrepol

Z – Como surgiu o Cinema da Boca – Dicionário de Diretores?

AS – O Rubens [Ewald Filho, coordenador da Coleção Aplauso] me propôs esse livro. Na época, fiquei meio assustado porque ele queria uma análise do Cinema da Boca e um Dicionário de Diretores. Tinha muito medo do meu envolvimento emocional com a Boca. Foi difícil escrever, tentando ser o mais objetivo possível, relatando os fatos, prós e contras. Foi legal ter sido feito o livro – não porque eu fiz -, porque o fato de o livro vir com a chancela da Imprensa Oficial, com introdução do Rubens, virou um divisor de águas na maneira de se encarar o cinema da Boca. Saiu em 2005. Pode ter o livro influenciado ou não, mas acho que induziu as pessoas a encararem o período de outra maneira. Acho que foi a melhor idéia no sentido de resgatar o cinema da Boca. Eu me orgulho muito desse livro. Foi problemático fazê-lo.

Alfredo14-300x225Z – Como fez para achar todas as pessoas? Foi atrás?

AS – Fui atrás, mas acho que errei na metodologia. Confiei numa pessoa que sabia de tudo da Boca, mas não sabia (risos). Quis matar uma pessoa que não estava morta e me ameaçou de processo. Queria quase R$ 200 mil de indenização. Fechamos um acordo de R$ 6 mil, porque as alegações dele eram equivocadas. Paguei do meu bolso. O erro foi meu, que podia ter evitado se tivesse saído mais à rua. Coloquei uma errata. Me chateou para cacete isso. Mas também foram 133 diretores. Tinha alguns que eu ligava: “Queria o telefone do Milton Amaral.” “Ele morreu em 1999”.

Z – Em 2009, você lançou sua autobiografia. Porque você mesmo a escreveu e não fez como se faz tradicionalmente na Aplauso?

AS – Deixei para o Rubens decidir. Falei: “Estou num momento em que minha partida pode chegar logo logo e quero deixar registrado muita coisa.” Ele disse para eu escrever. Topei. Apenas não registrei alguns incidentes de pessoas que já morreram e não poderiam se defender. Só registrei o com o Raul Cortez, pois nesse havia testemunhas. Não sei se saiu bom ou não, mas não me censurei, me entreguei.

Z – O que pensa do cinema brasileiro atual? Tem filmes que gosta?

AS – Meu problema com o cinema brasileiro atual é que, com esse mecenato oficial, de renúncia fiscal e orçamentos superfaturados, nossos cineastas estão se acomodando e parecem ter vergonha de dialogar com o público. Mas temos bons cineastas. Cito como filmes: Estômago, Saneamento Básico, Olhos Azuis, Meu Nome Não é Johnny. Tem outros que detestei: A Festa da Menina Morta – acho abominável enquanto direção e iluminação -, Feliz Natal – mesmo problema de iluminação, que é do mesmo cara. Vão me chamar de acadêmico, de quadrado, mas, enquanto espectador, quero ver a expressão do ator, o rosto, mas a luz está nas laterais ou no fundo e o ator está penumbra. Madame Satã já tinha esse problema, agravado inclusive, porque filmar negros é difícil. Isso aprendi no Pureza Proibida, com o Ruy Santos, que era meu diretor de fotografia, maravilhoso, que trabalhou com o Orson Welles em È Tudo Verdade. Porque você não pode colocar um ator negro contra uma parede escura, é complicado iluminar. Os americanos sabem fazer. Você não perde reação dos atores negros em nenhum filme, desde E O Vento Levou até aqueles com o Denzel Washington matando todo mundo. (risos) Aqui não, em Madame Satã o Lázaro Ramos teve uma atuação excepcional mas tinha momentos em que você não o via direito. No filme do Matheus, tem a Dira Paes e outro ator falando e você se pergunta quem são. Você vê a água do rio brilhando, no sol, e eles na penumbra. Isso por 5, 10 minutos. O que eu faço no cinema? Fico olhando para a lâmpada o tempo todo? Esse desprezo… No Feliz Natal, tem uma hora que o Paulo Guarnieri extravasa com o pai, que é o Lucio Mauro, e ele vai virando a cara e só mostra a nuca. É o cinema da nuca, não da cara. Eu tenho essa bronca. E esses excessos financeiros, como Chatô, e outros, que fazem filmes superfaturados. Gosto muito também de Cidade de Deus, de Central do Brasil.

Z – E do pessoal mais das antigas que ainda filma?

AS – Do Mojica não vi. Bressane, para mim, é um dos piores cineastas brasileiros que existem, chatérrimo. Vi vários filmes dele e não teve um que gostei. Vi um no Festival de Natal, do qual era parte do júri. A sessão começou com 400 pessoas, ao término, só tínhamos nós, do júri. Ninguém agüenta. Ah, gosto muito daquele filme gaúcho, Antes que o Mundo Acabe, acho muito bonito, muito natural. É um dos melhores filmes brasileiros que já vi. Gosto também muito de Tempos de Paz, do Daniel Filho. É teatro filmado, mas super bem filmado. O Daniel Filho, com 70 anos, me deixa com inveja, dirige muito bem. Gosto de Redentor, do Cláudio Torres, também.

Parte 4

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