Corpo Devasso

Dossiê Alfredo Sternheim

Corpo Devasso
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1980

Por Vlademir Lazo

O começo de Corpo Devasso traz David Cardoso num ônibus do interior para a cidade grande, onde cairá na prostituição, o que nos faz pensar em uma versão cabocla do clássico Perdidos na Noite. Surpreendido na cama com a filha ninfomaníaca do patrão (Evelise Olivier), abandona a roça e foge para São Paulo, vai morar em pensão, e à procura de emprego, é rejeitado em lojas, escritórios e construções.

O filme é o seu próprio título, o corpo devasso do seu astro David Cardoso, cujo personagem passa da pureza a devassidão. Até 1980 poucos filmes nacionais exibiram tamanho desfile erótico em igual quantidade (podemos pensar em Giselle, na mesma época), certamente proporcionado pelo abrandamento da censura em plena abertura política no regime militar da época. Sexo grupal, sadomasoquismo, felações, uma cena praticamente explícita de David seviciando uma bezerra na fazenda no prólogo e muita homossexualidade (é um dos filmes com mais cenas gays no cinema brasileiro). “Ele foi corajoso como produtor e ator. Em plena ditadura militar, autorizou e topou fazer cenas gays, algo inédito. E conseguiu liberar o filme sem cortes”, declarou Sternheim sobre David ao Dicionário de Filmes Brasileiros – Longas-Metragens, de Antonio Leão da Silva Neto.

Vivendo do conforto propiciado pelo contato com amantes homens e mulheres, o personagem bissexual (mais por força das circunstâncias) de David Cardoso vai perdendo-os todos a troco de nada, tão facilmente quanto os encontrara: a fotógrafa pervertida (Neide Ribeiro), uma jornalista subversiva (Patrícia Scalvi), o professor e tradutor gay (Arlindo Barreto, que ficaria conhecido como o palhaço Bozo), um outro homossexual que o persegue (Luiz Carlos Braga), uma advogada fazendeira (Meiry Vieira) e sua filha (Nádia Destro) etc… O personagem vai passando de mão em mão, aos pés de quem tem capital para ampará-lo, não por luxúria, mas por necessidade, e nesse processo todo imiscui-se aos prazeres e vícios da metrópole (ou megalópole, como o apresentam a cidade grande), esbaldando-se e se enojando com a própria sexualidade, que controla opressivamente a sua rotina.

Produzido pela DaCar, a empresa de David Cardoso, o filme é um veículo para o ator-produtor, com Alfredo Sternheim assinando também o argumento e a co-autoria do roteiro (com Ody Fraga), além da direção, trabalhando com grande liberdade. O forte de Corpo Devasso é a sua ousadia, entretanto, passados trinta anos de sua realização, depois de já termos visto de tudo em se tratando dos seus assuntos, já não há no filme muito o que impressionar mesmo aos mais impressionáveis. Ainda que a homossexualidade não seja tratada como caricatura nem com pudor algum (as cenas são quase explicitas), não deixa de ser uma visão predominantemente masculina sobre o tema. Um dos gays assumidos termina por se suicidar, outro é um mau-caráter que sai de cena ao levar um soco do protagonista, e o próprio personagem de David só se relaciona com homens por puras necessidades financeiras, como deixa claro a um dos seus amantes, a quem abandona logo que tem a oportunidade de conviver com uma das mulheres que o acolhem. Deve-se considerar que Corpo Devasso não se restringe a essa questão da sexualidade dos personagens, mas no todo é filme que vale mais para a época em que foi produzido do que para a sua posteridade.

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