Cinema Extremo

Por Marcelo Carrard

Maniac
Direção: William Lustig
EUA: 1980

O ano de 1980 foi emblemático para o Horror Cinematográfico. Na Itália, filmes clássicos de zumbis, feitos por Lucio Fulci, causavam polêmica e admiração dos fãs, ao lado de obras inesquecíveis como: Inferno, de Dario Argento, e Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato. Enquanto isso, nos EUA, a onda de slasher movies varria os cinemas com o início das franquias: Sexta-Feira 13 e Hallowenn. Indo em uma direção contrária de seus colegas norte-americanos, um diretor independente lança uma obra que se tornará clássica. O filme: Maniac; o diretor: William Lustig. A trama narra o cotidiano de um serial killer em sua rotina perturbadora de caçar mulheres e arrancar seus escalpos. Encarnando essa personagem sombria e atormentada, um achado: o ator Joe Spinnel, que acabou criando um dos assassinos mais terríveis da História do Cinema de Horror.

Lustig, ao contrário dos outros diretores norte-americanos de sua geração, dentro do Cinema de Gênero, vem de uma formação mais européia, influenciado pelos filmes giallo e por uma série de cultuadas produções exploitation. Em Maniac, o espectador é convidado a testemunhar o cotidiano mórbido do protagonista, sem o contra ponto de um detetive que tenta capturá-lo, como em tantas outras produções do gênero. Por esse detalhe, o filme consegue construir uma atmosfera sufocante de suspense e horror, comparável a outro clássico posterior sobre serial killers: Henry – Retrato de um Assassino. Ao arrancar os escalpos de suas vítimas, o matador de Maniac os prega em cabeças de manequins, como se, de alguma forma, devolvesse suas vidas. O seu olhar sobre as mulheres se mescla nesse fascínio, misturado por seu desejo assassino que não consegue controlar.

Maniac é um filme que vai direto ao assunto. Mostra os assassinatos, um a um, com requinte de detalhes. Seu desejo de observar suas presas já aparece na primeira cena do filme, com uma imagem de um binóculo, em um delírio na praia. Toda a composição do filme tem um requinte que já o coloca diretamente na galeria dos cult movies. O diretor demonstra, antes de tudo, um grande domínio da linguagem cinematográfica, criando um estilo absolutamente singular. A sequência em que um homem, dentro de um carro, tem a cabeça explodida por um tiro, é antológica por sua brutalidade, e por contar com a participação de Tom Savini, o diretor de efeitos especiais do filme, como o dono da tal cabeça que explode. A sequência do assassinato no metrô, também é antológica e construída de maneira brilhante, uma aula de como dirigir uma sequência de suspense. Todo o filme tem essa qualidade muito particular dos clássicos desse gênero: direção precisa, montagem certeira, boa trilha-sonora e uma fotografia regular, homogênea em suas texturas.

Um momento interessante de Maniac é quando o protagonista se sente atraído por uma fotógrafa de moda, que tem um trabalho paralelo mais artístico, em que tenta focar sempre o universo feminino. Ambos tem um olhar especial sobre as mulheres, um mórbido que se acentua com a morte e outro com o registro que, assim como as manequins de plástico, eterniza a imagem feminina. Esse encontro humaniza a figura do maníaco e o conduz a um de seus ataques mais brilhantes na longa e sensacional sequência do apartamento da modelo. A sequência do cemitério inaugura muito da estética cinematográfica dos anos 1980 e cita muitos clássicos europeus, colocando em cena a fantasmagórica presença materna na vida do assassino, mas, mesmo assim, deixando muitas lacunas sobre os motivos de sua psicopatia, fugindo do padrão vigente do cinema norte-americano, que adora explicar tudo. A sequência final de mutilação e canibalismo é extrema e impressionante, conduzindo o espectador a um ritual carnavalizado de morte e libertação. Remete aos extremos estéticos dos filmes italianos de zumbis e canibais e fecha o filme com uma imagem inesquecível em sua composição expressionista.

Maniac foi lançado em VHS no Brasil, passou na televisão, mas, graças ao seu diretor, que é dono do magnífico selo Blue Underground, ganhou edições em DVD e agora em blue Ray, excelentes. Uma obra perturbadora e antológica, aplaudida muito mais pelos críticos europeus do que os americanos, que merece ser descoberta, ou revista sempre.

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