Veneno

Dossiê Vera Cruz

Veneno
Direção: Gianni Pons
Brasil, 1952.

Por Leandro Caraça, especialmente para a Zingu!*

Um ciclo bem explorado pelo cinema brasileiro nos anos 1950, mas pouco documentado pela história oficial, foi a das tramas de mistério e suspense tendo como elemento chave a figura da outra, a segunda mulher que terá que se confrontar com a memória deixada por sua antecessora. Presente na literatura brasileira desde o final do século XIX, o tema gerou controvérsia com o suposto plágio de Daphne Du Maurier com Rebecca – A Mulher Inesquecível (lançado em 1938) em cima de A Sucessora de Carolina Nabuco, publicado quatro anos antes. Mais tarde, a adaptação de Alfred Hitchcock seria uma espécie de influência para obras como Caiçara, Meu Destino é Pecar (este baseado em folhetim de Nelson Rodrigues) e Chamas no Cafezal.

Seguindo por esta trilha, a Vera Cruz lança, em 1952, uma de suas produções mais instigantes. Dirigido pelo italiano Gianni Pons, Veneno tem Anselmo Duarte como Hugo, empregado de uma fábrica de vidros e espelhos que passa a sofrer pesadelos onde mata sua esposa Gina, e depois é interrogado por um delegado. A realidade se confunde com os sonhos quando o mesmo delegado bate na porta de sua casa. Mais tarde, Hugo encontra uma mulher (Diana) com a mesma fisionomia de Gina. Transtornado com visões, pesadelos e as queixas de Gina, Hugo envenena sua esposa e convida Diana a morar com ele, esperançoso de que o seu plano jamais será descoberto. No roteiro, há uma tentativa de relacionar o elemento vidro com as transformações vivídas por Hugo. Primeiro ao entrar numa sala repleta de espelhos (citação explícita a A Dama de Shanghai) e ver outro reflexo que não o seu, Hugo destrói o espelho, marcando o fim de sua sanidade. Depois, ao matar sua esposa, um copo quebrado significará a perda da inocência. Perto da conclusão, com seu desmascaramento, Hugo tentará escapar passando por uma porta com vidros.

Além de Alselmo Duarte e de Leonora Amar em papel duplo, se destaca Paulo Autran como o médico que tanta decifrar os sonhos de Hugo. Um misto de melodrama, filme policial e de mistério, Veneno conta com a fotografia noir de Edgar Brasil (Limite) e trilha à la Hitchcock de Enrico Simonetti e momentos de puro horror, os quais muito se deve à obra de Val Lewton (que por aqui obteve sucesso junto a crítica e ao público da época), como veremos no destino final de Hugo que, fugindo da polícia, terá também que enfrentar a vingança de sua falecida mulher.

*Leandro Caraça é pesquisador de cinema de gênero. Colabora com o blog O Dia da Fúria e mantém o blog Viver e Morrer no Cinema.