O Descarte

Especial Anselmo Duarte

O Descarte
Direção: Anselmo Duarte
Brasil, 1973.

Por Vlademir Lazo Correa

Os créditos de abertura de O Descarte começam ao som de uma versão instrumental da clássica canção Mulher, de Custódio Mesquita e Sadi Cabral. O que poderia ser o sinal de um filme que homenageia a força de todas as mulheres se dissipa em pouco tempo, pois não é preciso esperar muito para constatar que estamos diante de um filme realizado exclusivamente para uma só mulher. Em outras palavras, é evidente que O Descarte é feito para Glória Menezes brilhar, o que não ajuda nem ao filme, tampouco à própria atriz, porque Glória definitivamente não é uma atriz de cinema (não é à toa que a intérprete nunca conseguiu emplacar como estrela de cinema, apenas de televisão). O seu estilo de interpretação e repertório de gestos e expressões é demasiado carregado e melodramático, o que combina mais com as produções destinadas para a televisão.

Produzido pelo astro Tarcísio Meira (grande amigo e de certa forma sucessor de Anselmo Duarte como principal galã no imaginário feminino nacional), que aqui não participa como ator, e com financiamento da Embrafilme (não saberia dizer se Anselmo sofreu interferências em sua liberdade no processo criativo de O Descarte), o filme tem algo próximo de uma estrutura de novela das oito. Glória Menezes é Cláudia Land, uma viúva rica e bela que conhece Bruno, bem mais moço do que ela, encarnado por um jovem Ronnie Von fazendo pose como bad boy com seus trajes escuros e sua motocicleta. Um sujeito que não conta nada do seu passado, que não revela de onde vem. O relacionamento que se desenvolve entre os dois pode fazer a mulher finalmente superar a morte do antigo marido, do qual estava presente no acidente de automóvel que o tirou a vida, entretanto ela passa a receber cartas ameaçadoras no casarão em que vive recolhida.

É uma obra pontilhada também pela loucura. Cláudia vive neuroticamente em virtude do trauma de ter presenciado a morte do ente querido, enquanto sua irmã permanece confinada no alto da casa. As cartas anônimas pedem para que ela deixe o país sob pena de colocar em risco sua vida, e, além de Bruno, a personagem de Glória Menezes pode contar com a ajuda apenas de um detetive (Mauro Mendonça) que só acredita no óbvio e de um médico mal-intencionado (Fernando Torres), que logo descobrimos ser um personagem no qual não se pode confiar.

Em muitos momentos, Anselmo Duarte parece tentar salvar o filme do material que tem em mãos, porém O Descarte é um arremedo e um amontoado de situações e clichês dos melodramas mais antigos de Hollywood (como os estrelados por Bette Davis), que à época da realização do filme povoavam a grade de programação dos canais de TV brasileiros. O que, de certa maneira, nos faz considerar que Anselmo foi um de nossos cineastas que mais se interessaram em realizar uma carreira bastante influenciada pelo cinema clássico norte-americano (o que está longe de ser um demérito). O Pagador de Promessas, por exemplo, possui algo do populismo de Frank Capra, no sentido de expor um conflito ético, social e político apoiado em luta quase individual, quixotesca, do personagem principal. Quando bem-sucedido, Anselmo Duarte como diretor conseguiu alcançar belos resultados (especialmente em seus primeiros trabalhos). Mas nem sempre se pode acertar, e O Descarte está mais perto das telenovelas nacionais do que do brilho das produções da Hollywood clássica, das quais parece buscar inspiração.

É um filme que faria mais sucesso se realizado nos dias atuais, visto o padrão cada vez mais televisivo de grande parte de nossa produção cinematográfica recente.