O Cangaceiro

Dossiê Vera Cruz

O Cangaceiro
Direção: Lima Barreto
Brasil, 1953.

Por Leandro Caraça, especialmente para a Zingu!*

Lançado pela Vera Cruz em 1953, depois de uma conturbada produção, O Cangaceiro se tornou o maior sucesso de público e bilheteria até então, inclusive se comparado a obras estrangeiras exibidas no país. O projeto pessoal do cineasta Lima Barreto ainda seria honrado com prêmios internacionais: melhor aventura e menção honrosa para a música no Festival de Cannes e melhor filme no Festival de Edimburgo. Completamente endividada, a Vera Cruz venderia os direitos de exibição no exterior para a Columbia por apenas 15 mil contos de réis, sendo que a produção de O Cangaceiro custaria ao todo 19 milhões. A grande ironia é que somente um ano depois do maior sucesso do cinema brasileiro, sua produtora fecharia as portas.

O filme de Lima Barreto possui o mérito de ter inaugurado o gênero do cangaço. Mal visto pela geração de realizadores e críticos que se consolidou a partir do Cinema Novo, por, entre outras coisas, ser “apenas um transplante de fórmulas milhares de vezes utilizadas pelos faroestes americanos, sem nenhuma preocupação mais séria de estudo ou análise do homem nordestino, particularmente do problema do cangaço”, como escreveu Ismail Xavier no jornal O Diário de São Paulo, em 1968, O Cangaceiro não tem a intenção de discutir as mazelas sócio-culturais e políticas do seu tempo, apenas apresentar-se como uma aventura comercial facilmente identificável ao público. O filme toma certos símbolos do faroeste americano para si e consegue uma cara própria graças aos tipos existentes somente no cenário nordestino. Ainda que não totalmente nordestino, pois foi filmado na cidade de Vargem Grande do Sul, interior de São Paulo, consegue que todos os cenários funcionem como deveriam. De qualquer forma, não seria correto dizer que O Cangaceiro representa o cangaço, mas sim um cangaço mitificado. Como era o velho oeste de John Ford, que certa vez ouviu uma história contada por Wyatt Earp e decidiu transformá-la em filme. Um mentiroso contando uma história contada por outro mentiroso. Essa é a tônica do cinema. A preocupação principal de O Cangaceiroé divertir as platéias, nada mais. Nem pode ser chamado de um grande filme. Os atores dizem suas falas com excessiva empostação, onde parecem saídas de algum filme do Roy Rogers. A maioria nem faz muito esforço no sotaque para se passarem por nordestinos. Sem falar do encontro entre o herói Teodoro (Alberto Ruschel) e um índio viajando numa jangada chega a ser quase surreal. As qualidades estão na ótima fotografia de H.E. Fowle e a hábil montagem, com colaboração do alemão Oswald Hafenrichter, na atuação de Milton Ribeiro como Coronel Gaudino e na apresentação dos cangaceiros como bandidos cruéis, capazes de marcar mulheres a ferro em brasa.

A queda da Vera Cruz deixou marcas irreparáveis em Lima Barreto, que depois faria apenas mais um longa-metragem – A Primeira Missa. Mais do que tudo, O Cangaceiro parece ser o exemplo maior da inviabilidade de uma indústria de cinema no país, tendo como principal problema a falta de esquemas de distribuição que funcionem.

*Leandro Caraça é pesquisador de cinema de gênero. Colabora com o blog O Dia da Fúria e mantém o blog Viver e Morrer no Cinema.