Breve 3×4 de um cineasta genial

Especial Luís Sérgio Person

Por Adilson Marcelino

Chamado de grande mestre por cineastas do porte de Carlos Reichenbach, Luis Sérgio Person é dos mais aclamados diretores do cinema brasileiro.

Nascido em São Paulo, no dia 12 de fevereiro de 1936, Person abandonou o curso de direito para ingressar na carreira artística. Ator e diretor de teatro, fundou com Antunes Filho e Flávio Rangel o Teatro Paulista de Câmara, em 1956. Entre as peças que dirigiu estão De Amor Também se Morre e Entre Quatro Paredes. Dirige e escreve também para a TV, em teleteatros na Tupi e na Record. Nessa mesma época, começa a paixão pelo cinema – edita a revista Sequência. E, se o cinema terá lugar especial na sua carreira, não abandonará o teatro, com idas e voltas durante toda sua vida artística.

O primeiro filme que dirige é Um Marido para Três Mulheres, em 1957, também primeiro de Ronald Golias. Mas o longa só chega aos cinemas dez anos depois, com o título Marido Barra-Limpa, com cenas adicionais dirigidas pelo produtor Renato Grecchi, que é creditado como o diretor. Quando Grecchi descobriu a fita, comprou os direitos de exibição e teria chamado Person para filmar 15 minutos extras. O cineasta não quis se envolver e teria pedido que tirassem o nome dele dos créditos. Em Casei-me com um Xavante (1957), dirigido por Alfredo Palácios e produzido pela Maristela, é co-roteirista, com Palácios, e também assistente de direção e ator.

Depois de quase abandonar a carreira artística – foi diretor de empresa de ferramentas da família -, vai para Roma, Itália (1961-63), onde faz curso no Centro Sperimentale de Cinematografia, tendo ampla formação. Lá dirige os curtas L´ottimista Sorridente e Al ladro. Daí a paixão pelo cinema fala mais forte e, de volta ao Brasil, constrói uma das mais fascinantes filmografias do cinema brasileiro.

Em 1965, sacode a cena cinematográfica estreando oficialmente como diretor de longas, depois do imbróglio do primeiro filme, com uma autêntica obra-prima: São Paulo S/A (1965). Protagonizado por Walmor Chagas, São Paulo S/A tem ótimo elenco – Eva Wilma, Ana Esmeralda, Darlene Glória e Otelo Zenoni. No filme, Walmor é Carlos, um funcionário da então nascente indústria automobilística na São Paulo dos anos 60. Ele tem a vida marcada por três mulheres – a inconseqüente Ana (Darlene Glória), a burguesa Luciana (Eva Wilma) e a inquieta Hilda (Ana Esmeralda) – e quanto mais ascende socialmente, mais sua angústia cresce por se sentir engolido pela cidade.

São Paulo S/A tem direção primorosa, e a cidade está especialmente claustrofóbica e fascinante. Person também se revela ótimo diretor de cena e de atores – Darlene Glória, um furacão já no início da carreira, protagoniza duas cenas inesquecíveis: sendo esbofeteada por Carlos e dançando de biquíni sob um jato de mangueira.

No ano seguinte, Person funda com o cineasta Glauco Mirko Laurelli, seu montador em São Paulo S/A, a produtora Lauper Filmes, em 1966. Sediada na Boca do Lixo, em São Paulo, a Lauper produz documentários e comerciais, além dos seus três longas seguintes e de filmes como A Moreninha (1970), de Laurelli.

Depois desse grande filme, Person voltou a causar sensação, dessa vez com O Caso dos Irmãos Naves (1967). Baseado em caso de erro judiciário na cidade mineira Araguari, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, o filme é um poderoso libelo anti-terror em plena ditadura militar. Mais uma vez Person está em pleno domínio de sua arte, como também se reafirma como excelente diretor de atores – Raul Cortez, Juca de Oliveira e Anselmo Duarte estão estupendos.

Nos notáveis filmes seguintes, Person vai se exercitar em gêneros diferentes: o faroeste em Panca de Valente (1968); o terror com entrecho político em Trilogia do Terror (1968) – dirige o episódio A Procissão dos Mortos, sendo os outros O Acordo, de Ozualdo Candeias, e Pesadelo Macabro, de José Mojica Marins; e a comédia com ares de musical de Teatro de Revista, Cassy Jones, O Magnífico Sedutor (1972).

Luis Sérgio Person atuou em filmes de Rubem Biáfora – O Quarto (1968) -, de Francisco Ramalho Jr – Anuska, Manequim e Mulher (1968) -, e de José Mojica Marins – O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968). Foi também professor de cinema na Faculdade São Luis. Seu último filme é o curta Vicente do Rego Monteiro (1974), sobre o pintor.

Luis Sérgio Person faleceu em 7 de janeiro de 1976, aos 39 anos, em um acidente de carro. A morte foi prematura, mas deixou uma filmografia essencial para a história do cinema brasileiro.