Carlos Reichenbach – uma obra à vida toda

Dossiê Carlos Reichenbach

Carlos Reichenbach – O cinema como razão de viver, por Marcelo Lyra

Coleção Aplauso Cinema Brasil – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Por Madson Hudson Moares

15 longas-metragens, reconhecido internacionalmente, ganhador de prêmios importantes de cinema, professor, fotógrafo, produtor, crítico, ensaísta, cinéfilo, Carlão é tudo isso e um pouco mais. E esse pouco só descobre-se quando se tem uma prosa com ele. Carlão começou cedo: despertou seu gosto para o cinema aos dez anos de idade. O mais curioso foi que fez o caminho inverso: em vez de um filme, o que o inspirou foi um roteiro cinematográfico (Jovita, de Oswaldo Sampaio, que não chegou a ser filmado). Tendo formação essencialmente literária – o pai era editor de livros – Carlão viu ali a fagulha do cinema. E dele não iria largar até hoje, tornando-se um dos maiores cineastas brasileiros. Mas, sem fugir dos clichês cinematográficos, vamos por parte.

Carlão é Carlos Oscar Reichenbach Filho. Apesar do Oscar no nome, Carlão nunca ganhou um, como se isso mudasse seu prestígio e importância dentro da cinematografia mundial. Carlão é uma daquelas raridades como diretor: pode-se encontrá-lo no meio da rua, abordá-lo diante de uma banca de jornais e, se o assunto for cinema, a conversa vai longe. Uma prosa com Carlão vale por toda uma faculdade de cinema.

Carlão está presente na Coleção Aplauso, publicada pela Imprensa Oficial, exclusivamente dedicada a resgatar nomes importantes dentro do cinema paulista. Não seria bem uma biografia, mas um livro-depoimento, escrito pelo jornalista Marcelo Lyra. A obra, em si, já possui uma história curiosa. Começou a surgir em meados de 2001 quando Hermes Leal, editor da Revista de Cinema, convidou Marcelo para participar de uma coleção de biografias de dez dos principais cineastas tupiniquins. De uma lista, Marcelo logo escolheu Carlão, sem hesitar. A partir de uma intensa pesquisa, foi destrinchando os detalhes da vida de Carlão, seja pelas entrevistas dadas, seja por seus filmes. Infelizmente, no meio do caminho apareceu uma pedra: o patrocinador que iria bancar a coleção de biografias desistiu na última hora e o projeto foi arquivado. Marcelo, apesar da adversidade, resolveu seguir com sua pesquisa mesmo sem perspectiva de uma publicação. Isso até que Rubens Ewald Filho, no Festival de Gramado de 2003, ofereceu a Marcelo uma preciosidade: estava coordenando uma coleção de livros sobre atores e diretores paulistas e ficou sabendo da pesquisa que Marcelo empreendera. Pronto: ganhava o jornalista e ganhavam os cinéfilos com aquele livro-depoimento sobre o diretor paulistano. Dividido em três partes, o livro sobre Carlão é generoso em informações: num primeiro momento Marcelo expõe sua pesquisa e admiração pelo cineasta, depois vem o próprio e expõe suas entranhas cinematográficas e, ao final, toda a filmografia é exposta com comentários dos autores. Uma introdução ao universo de Reichenbach.

O único problema é que Carlos Reichenbach e sua obra não cabem dentro de um livro-depoimento. Como se já disse aqui, Carlão vale por todo um curso de cinema. E é por essa razão que ele, como bem aponta Marcelo no livro, ‘é um personagem extremamente complexo’. Imenso devorador de livros, o cineasta herdou do pai a gigante biblioteca e, aos 15 anos, já havia lido quase todos os clássicos. Poesia, filosofia, música erudita, cinema, nada deixou passar e por isso adquiriu uma sólida formação cultural. Estando no lugar certo com as pessoas certas, aos 21 anos, Carlão resolveu estudar cinema na (hoje extinta) Escola Superior de Cinema de São Luís, onde, por dois anos, desenvolveu laços com futuros parceiros, como João Callegaro. Lá teve oportunidade de estar com os grandes do cinema nacional, como Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Roberto Santos e Luís Sérgio Person, este decisivo em sua carreira como diretor. O caso é que Carlão, entusiasmado com a narrativa de um roteiro para cinema, queria ser roteirista cinematográfico profissional. Prontamente foi aconselhado por Person: ‘se você quiser ter seus filmes rodados, vire diretor de seus próprios roteiros’. Dado o recado, Carlão aprendeu bem a prenda e hoje tem clássicos em sua cinematografia como Lilian M, relatório confidencial (1975), Filme Demência (1986), Dois Córregos (1999), entre outros. Mas a São Luís, responsável pelo primeiro curso de cinema em nível universitário, também possuía ao seu redor nomes importantíssimos como Rogério Sganzerla, José Mojica Marins, Ozualdo Candeias, etc. Toda a patota do cinema e seus respectivos gênios. Junte isso às primeiras leituras e realizações críticas, à produção cinematográfica japonesa exibida no bairro da Liberdade na época, a falta de recursos para produzir, tudo que levou Reichenbach e outros realizadores às distribuidoras da Boca do Lixo, únicas capazes de porem em película as ideias de realizadores tão transgressivos.

Por que Carlos Reichenbach, repetidamente, é uma escola cinematográfica ambulante? Porque cada filme é uma aula, tal a quantidade de citações literárias, filosóficas e existenciais, bem como a diversidade musical nas trilhas. Desde Corrida em Busca do Amor (1971) até a fase pornochanchada com A Ilha dos Prazeres Proibidos (1979) e O Império do Desejo (1980), Carlão sempre foi uma espécie de muambeiro da cultura erudita à cultura popular. Reichenbach começou dirigindo Alice, episódio do longa As Libertinas, realizado em parceria com Callegaro e com o crítico mineiro Antonio Lima. Aboliram o conceito de cinema revolucionário de suas cabeças e passaram a fazer um cinema mais cafajeste, mais debochado e antiestético seguindo as lições do ‘quanto pior, melhor’. Chegou a dirigir mais outro episódio com Antonio Lima, aproximou-se de um núcleo de produção que começava surgir na Rua do Triumpho, produziu até Lilian M, relatório confidencial, que o considera seu primeiro filme na linha do Cinema da Alma. Anarquia em todos os sentidos, misto de vários gêneros cinematográficos, linguagem subvertida a cada plano: estava delineado o jeito Reichenbach de fazer cinema.

Um dos achados importantes de Marcelo em seu livro-depoimento é perceber o quanto os personagens dos filmes de Carlão são interligados. Ou seja, sempre nomes diferentes mas ‘reconhecíveis pela alma corsária’. Por exemplo, em A Ilha dos Prazeres Proibidos, existe o profeta maluco que mata citando Fernando Pessoa. Em Filme Demência surge algo idêntico, quando um aluno mata o professor declamando citações. Similaridades surgem também em Dois Córregos e Alma Corsária: respectivamente, o personagem de Riccelli tem algo em comum com Bertrand Duarte: ativistas políticos, sentem-se perdidos na busca do amor, na busca da esperança. Outro achado é revelar o universo íntimo-cinematográfico de Carlão: pessoas como a amiga e produtora Sara Silveira, fundamentais na carreira do cineasta.

A Coleção Aplauso conseguiu suprir a falta que fazia um roteiro detalhado sobre a vida de Reichenbach, ainda que insuficiente. Sobrevivente de três infartos, a obra de Carlão sobrevive ao tempo e com certeza será os clássicos de uma nova geração de amantes do cinema.