Cineasta de alma corsária

Dossiê Carlos Reichenbach

Por Marcelo Lyra, especialmente para a Zingu!*

O convite da Zingu!, para uma reflexão sobre o cinema marginal de Carlos Reichenbach, caiu como uma luva para rever a obra de um dos cineastas brasileiros que mais admiro. Desde que terminei nosso livro Cinema Como Razão de Viver, em 2004, eu não fazia isso.

Carlão é mesmo um dos autores mais coerentes. De certa forma, está sempre refazendo o mesmo filme, buscando outras formas, quase sempre interessado no homem (ou mulher) que não pode viver no seu meio, que tem que sair dele. Da mesma forma, o olhar para o perdedor, para o fracasso, está presente desde seu primeiro longa-metragem, Corrida em Busca do Amor (1971), aquele que é, sem dúvida, o menos autoral de todos. Isso porque foi um filme de encomenda, filme de produtor para um público juvenil. Mesmo assim, os garotos pobres, quase sem chances diante de um mundo rico e adverso, são uma perfeita síntese do que viria a ser a obra do diretor. Também é emblemático que o filme ficasse sem verba na metade das filmagens, e Carlão fosse obrigado a reescrever o roteiro, criando toques de humor anárquico e fazendo os heróis terminarem a corrida a pé. Qualquer semelhança com a frase d’O Bandido Luz Vermelha: “Quando não se pode fazer o melhor, a gente avacalha!”, não é mera coincidência.

A pessoa que não se adequa, que não se acomoda ou que não é aceita pelo mundo em que vive, é um aspecto ainda mais constante. Perpassa Lilian M. (1975), a mulher que não consegue a felicidade, por mais mundos que freqüente; está nos exilados políticos, arrancados à força de seu mundo, em A Ilha dos Prazeres Proibidos (um filme político produzido para o mercado erótico da Boca do Lixo em 1979); no hippie que vaga sem rumo em Império do Desejo (1980); no idealista cético que vai se isolar no litoral de Paraíso Proibido (1981); no professor desiludido que vai encontrar forças na tragédia de uma nova amiga em Amor, Palavra Prostituta (1981); no professor militante político desiludido com o desaparecimento (nas mãos da ditadura militar) da mulher que se isola numa casa de férias em Extremos do Prazer (1983), filme próximo a Amor Palavra Prostituta; no ativista político frustrado pelos rumos da esquerda e de seu país em Alma Corsária(1993), e que vaga entre vários universos (quase uma versão masculina de Lilian M.); nas professoras que sofrem a miséria da periferia enquanto sonham um mundo melhor para si e as crianças em Anjos do Arrabalde (1987); no industrial oprimido pela pressão da sociedade em Filme Demência (1986); na enfermeira que sofre por um amor frustrado e tenta uma vida melhor para o filho do ex-amante em Bens Confiscados(2004); no ativista político isolado num mundo bucólico de Dois Córregos (1999), herdeiro direto, quase somatória, de diversos personagens, seja de A Ilha…, Alma e Anjos; na garota do ABC que sonha com um mundo melhor mas é tragada pelo pai e pelo namorado problemáticos.

Nos anos 70, quando aproxima-se dos produtores da Boca do Lixo, aproveita-se do fato deles preocuparem-se apenas com que os filmes tenham cenas eróticas e faz filmes que queria fazer, ou seja, políticos permeados de reflexões filosóficas, sempre conseguindo seu objetivo, a despeito da pobreza de recursos.

Se unirmos as duas pontas, há muitos pontos em comum: o sonho da garota pobre, em Falsa Loura, seu filme mais recente, com a ascensão social ao aproximar-se de ricos e famosos, e os sonhos de sucesso dos garotos de Corrida em Busca do Amor. Mas, na maneira de filmar, a distância é proporcional aos mais de quarenta anos que separam os dois trabalhos. Este se alinha no mesmo grid de Lilian M., de A Ilha dos Prazeres Proibidos e outros filmes da fase inicial, em que a escassez de recursos orientava a encenação, da duração dos planos, do posicionamento da câmera etc., sempre no sentido de aproveitar ao máximo o pouco que se dispunha; dos anos 90 para cá, a partir do encontro com a produtora Sara Silveira, Carlão perde boa parte dos vínculos estéticos com esse que se convencionou chamar de Cinema Marginal, mas que veste melhor o rótulo de Cinema de Invenção. Passa a poder dar asas à sua criatividade, sem se preocupar tanto com orçamento. Se precisar de uma grua, pode colocar na escaleta que a Sara arruma. Assistente de produção em Filme Demência, ela impressionou por sua eficiência e rapidez, sendo contratada como produtora executiva em Anjos do Arrabalde. A partir daí, não se separaram mais.

Apesar da “fartura” atual, não há desperdício. Carlão só pede uma grua se ela for essencial à dramaturgia. Na cena inicial de Bens Confiscados, por exemplo, a esposa do senador, sufocada pela da pressão moral e psicológica imposta por ele, vai se suicidar. Mas, inicialmente, vemos apenas a amplidão de São Paulo, quase em tom de cartão postal, e a atriz. Há uma beleza latente que o movimento de câmera irá desmistificar. Assim que notamos que ela está à beira de um abismo (que representa o abismo psicológico da personagem), há uma guinada brusca no espectador e o filme ganha ares de pesadelo que norteará toda encenação à partir daí.

Em Dois Córregos, a câmera gira em torno do casal de amantes formado pelo exilado e pela governanta (Carlos Alberto Ricelli e Ingra Liberato). É um erotismo de uma beleza estética rara na fase de escassez, mas que também flerta com o brega, flerte que ele irá desenvolver melhor em Falsa Loura. Mas é uma movimentação cuidadosamente estudada e absolutamente necessária para criar a ambientação daquele amor impossível, encurralado, que surge em meio a uma situação política de repressão, em que não há liberdade para o amor. É um momento de sonho, de felicidade e de entrega, que irá desaparecer como uma bolha de sabão pouco depois.

Carlão abre Garotas do ABC com um inesquecível streaptease invertido. Em um momento de sonho, a garota Aurélia começa nua e vai se vestindo aos poucos, enquanto a câmera parece flutuar. Tudo milimetricamente estudado para criar uma falsa impressão de paz e alegria. O universo das tecelãs, como se verá a seguir, não tem nada de alegre.

Em resumo, é uma obra coesa, ainda que construída a maior parte dela na adversidade, sem recursos, tendo que improvisar cenas e reescrever roteiros diante de inesperadas faltas de recursos. Mesmo na segunda fase, com a disponibilidade de recursos, não perde o rumo. Na riqueza ou na pobreza, Reichenbach está sempre interessado no cinema da alma. É um autor seguindo seu rumo, uma alma corsária nesse paraíso proibido que é o cinema.

*Marcelo Lyra é jornalista e crítico de cinema, autor do livro Carlos Reichenbach – O Cinema como Razão de Viver