Canta Maria

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Canta Maria
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 2006.

Por Vlademir Lazo Correa

Canta Maria foi saudado como a volta de Francisco Ramalho Jr. ao cinema após um intervalo de duas décadas. O que num primeiro momento salta aos olhos do espectador é a presença de cangaceiros na narrativa, recuperando uma vertente que já foi associada como tradicional a um cinema brasileiro mais antigo. Nos últimos quinze anos, houve alguns poucos esforços de outros diretores para retomar essa tradição, ao que veio se somar o trabalho de Ramalho nessa adaptação do livro Os Desvalidos, do sergipano Francisco J.C. Dantas.

Uma visão atenta, porém, nos traz a compreensão de que, mais do que o ciclo do cangaço, Canta Maria está ligado a uma tentativa de resgate do romance de literatura regionalista. O filme transcorre no conturbado nordeste brasileiro da década de 30, marcado pelos conflitos entre o banditismo dos cangaceiros que seguiam o rastro de Lampião contra as tropas do governo destacadas para manter a ordem e varrer aquele cenário de violência. Um palco de guerra e também de miséria, o que favorecia o fortalecimento das crenças religiosas e milagreiras, como também o apoio de grande parte da população ao cangaço, em decorrência do incentivo do Padre Cícero, muito influente naquele período.

Uma dessas famílias que acobertavam Lampião era a da jovem Maria, cujos pais são assassinados pelas tropas policiais por receberem e ajudarem o temido criminoso. Sozinha, a personagem encontra e se casa com Felipe (Marco Ricca), um domador de cavalos que mora junto com o seu sobrinho, Coriolano (Edward Boggiss). É uma relação formada mais pela necessidade do que pela atração, porque Felipe é uma figura rústica demais comparada com a jovialidade de Maria.

Mas nada é definitivo nessa terra de penúrias e precariedade do Nordeste dos anos 30. O marido decide se tornar caixeiro viajante, por acreditar ser a solução mais segura para o sustento do casal, deixando a jovem aos cuidados do sobrinho, também uma figura traumatizada por outros tipos de violência. Dois personagens marcados pela carência e precoces perdas familiares, mais vítimas do que propriamente responsáveis pelos modos como suas vidas vão se delineando.

A direção opta por uma narrativa simples e sem invenções, marcada pela larga utilização de travellings e planos gerais, numa tentativa de realizar um cinema popular, mas correndo o risco de ser confundido como uma variação de telenovela do horário das seis (até mesmo pela presença de Vanessa Giácomo, revelada um pouco antes numa novela também regionalista). O filme foi rodado primordialmente em Cabaceiras, interior da Paraíba. O lugar teve suas ruas asfaltadas cobertas com areia e seus postes de iluminação, fios e antenas de TV arrancados para recriar a cidade imaginada no romance. O título Canta Maria foi tirado de uma das canções de Daniela Mercury e Gabriel Povoas, responsáveis pela trilha sonora. No elenco, destaque ainda para José Wilker, em sua participação como Lampião, e Rodrigo Penna, num papel menor.

Besame Mucho

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

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Besame Mucho
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1986.

Por Gabriel Carneiro

Besame Mucho é possivelmente o melhor filme de Francisco Ramalho Jr. Nele, não há os personagens histéricos que tendem a permear boa parte da curta filmografia do diretor-produtor, mas as diferentes histórias da classe média continuam fazendo-se valer. Contado de trás para frente, Besame Mucho narra pouco mais de vinte anos da vida de dois casais amigos, Tuca e Dina, Xico e Olga. São personagens tentando se entender, tentando manter a paixão, sempre ciclicamente – são vidas que começam e terminam nos anos assuntados, inicialmente retornando de três em três anos, para passar de dois em dois.

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Há uma beleza tremenda na simplicidade com que a história é contada e mostrada. O recurso temporal utilizado é um acerto: ao invés de buscar o prisma da causa e conseqüência para melhor entender o destino de cada um, opta-se por destrinchar o passado, para melhor entender os personagens. Funciona também no espectro de balanço histórico a que o filme se propõe. Aliás, tal balanço faz dele um típico filme dos anos 80, que, com o término do regime militar, começou a olhar para trás, para tempos e estéticas muitas vezes anteriores a ele, com mais bom humor. Eram tempos de esperança, tentando compreender o que havia ocorrido.

Francisco Ramalho Jr. já havia feito um filme político (Paula, a história de uma subversiva), e em Besame Mucho retoma a linha, mas com muito mais leveza. Seu filme olha para trás, e caminha para trás, mostrando os muitos contextos. A memória que Besame Mucho imprime serve bem aos escritores – o roteiro de Ramalho é baseado na peça de Mário Prata -, contemporânea a eles. Os anos 80 fecham um ciclo e mostram um arrefecimento para os dois casais. Os anos 70 são os anos políticos, especialmente para Xico e Olga, que lutam por um país livre, buscando o fim da ditadura. Os anos 60 são os anos do amadurecimento. Não há nostalgia no olhar de Ramalho para com esses últimos, quando tudo parecia bem. O que vemos, muito mais do que isso, é a ilusão de que eram realmente anos nostálgicos, são anos sem preocupações, quase como se fosse um sonho sendo realizado a cada momento. É quando vem o regime militar que o período anterior ganha o ar de nostalgia: o sonho fora destruído por uma realidade muito mais crua, especialmente quando a vida interiorana dá lugar à megalópole.besame-mucho-300x200

Uma das razões de o filme ser tão bem sucedido é não se prender a um partidarismo panfletário. A crença dos personagens parece pouco importar, o encanto está nas idiossincrasias. Em determinado momento, Olga vai à casa de Xico. Eles estão separados, e ele já é um promissor dramaturgo esquerdista, contra o regime dito opressor. Olga não. Ela vai falar com Xico para lhe dizer que está mudando para a França. Conhecera um rapaz, por quem se apaixonara, que precisava se exilar. Xico pergunta se eles já haviam transado. A resposta dela, positiva, deixa-o perturbado. Diz ele que ainda não conseguiu se livrar de todas as crenças de quando vivia na pequena cidade do interior paulista. A aparente contradição é que dá tanto gosto ao filme – ganha, assim, maior liberdade. Pouco importa o que vai acontecer no futuro, a graça está nesses momentos, quando passamos a melhor entender o outro – e, quem sabe, o mundo ao redor.

Filhos e Amantes

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Filhos e Amantes
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1981.

Por Sergio Andrade

O diretor Francisco Ramalho Jr. sempre demonstrou, desde seu primeiro longa, Anuska, Manequim e Mulher, um interesse especial na abordagem do universo feminino. Foi assim em Paula – A História de uma Subversiva, Canta Maria, e mesmo em À Flor da Pele e Besame Mucho. Não é diferente neste Filhos e Amantes.

O ponto de vista é feminino, narrado por Silvia (Lúcia Veríssimo), que desde o começo sabemos estar grávida do namorado Roberto (André De Biase), mas que reluta em revelar a verdade a ele, pois está em dúvida entre abortar e ter o filho. Os dois vão passar um feriado prolongado na casa de uma amiga dela, Marta (Denise Dumont), que mora com Bebel (Nicole Puzzi) e esta demonstra, pela fisionomia, não ter gostado nada da visita. As coisas se complicam com a chegada inesperada de Dinho (Hugo Della Santa), usuário de drogas pesadas e antigo amor de Marta (se separaram por ela ter abortado um filho que ele queria), e sua nova amiga Carminha (Rosina Malbouisson), um poço de insegurança. O tema da maternidade e seus dilemas perpassam toda a narrativa.

Entre caminhadas pelas trilhas da montanha e banhos de cachoeira pelados (filmagens realizadas em belas paisagens do Parque Nacional de Itatiaia e Agulhas Negras), Silvia terá um caso com Dinho, Marta outro com Roberto, Bebel sofrerá crises de ciúme, Carminha tentará o suicídio e sofrerá uma overdose, e todos passarão por momentos de tédio mortal. O encontro com um casal mais velho, Ruth (Renée de Vielmond) e Cláudio (Walmor Chagas), ex-exilado político sofrendo de um câncer terminal, servirá como uma lição de vida para esses jovens sem ideologia. E isso é importante, pois o filme retrata essa geração que cresceu durante a ditadura militar alcançando a maioridade no período de abertura política, estando bastante desorientados. O problema é que foi feito numa época problemática da produção cinematográfica do país, entre a decadência da pornochanchada e a dominação dos pornôs, e pouco antes da proliferação da AIDS e os cuidados com camisinha e agulhas descartáveis.

Produção de A. P. Galante, tem uma equipe técnica exemplar: belíssima fotografia de Antonio Luiz Mendes; cenografia e figurinos funcionais de Miqui Stedile; os cortes precisos do grande montador Mauro Alice e a música psicodélica, hipnótica, de Rogério Duprat, uma das melhores já ouvidas num filme nacional.

Mas é com os atores que o filme consegue criar empatia com o espectador. O elenco masculino (com direito a uma ponta muda do iniciante Paulo Gorgulho) é competente, porém são as cinco atrizes principais (Lúcia, Denise, Nicole, Rosina e Renée) que transmitem com beleza e talento os medos, certezas, alegrias e tristezas pretendidas pelo roteirista/diretor. Filhos e Amantes traça um belo retrato de uma época que não volta mais.

Paula – A História de uma Subversiva

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Paula – A História de uma Subversiva
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1979.

Por Marcelo Carrard

Um dos primeiros filmes que iniciaram uma filmografia sobre o Regime Militar no Brasil foi dirigido em 1979, por Francisco Ramalho Jr, Paula – A História de uma Subversiva. Essa produção da Embrafilme foi lançada ainda no governo militar, na época em que se iniciava a abertura política e se criava a Lei da Anistia. Sem usar as metáforas que os cineastas do Cinema Novo criaram para poder driblar a Censura, o filme de Ramalho fala claramente de subversão, tortura, terrorismo de maneira simples e objetiva, sem maneirismos, com um clima de profundo desencanto e com muita sensibilidade. O filme tem tintas autobiográficas, remetendo a fatos reais da vida do diretor, com mudanças de personagens. O grande confronto da trama é entre um antigo militante comunista, que procura a filha desaparecida envolvida com drogas, e que precisa da ajuda de um policial, no passado um famoso torturador do DOPS, que prendeu sua grande paixão: Paula, uma estudante de arquitetura que partiu para a luta armada.

As possibilidades desse confronto dos dois homens é muito bem explorada. Armando Bógus no papel do policial está perfeito, sem caricaturas. A bela fotografia de Zetas Malzoni é muito criativa, principalmente na composição das diferentes épocas em que o filme se passa. Malzoni colaborou com Ramalho em O Cortiço e fotografou clássicos do cinema brasileiro como Os Amantes da Chuva e Eles Não Usam Black Tié. É interessante de se perceber uma espécie de auto citação dentro da construção do roteiro. Assim como em Á Flor da Pele, filme anterior de Ramalho, existe uma turbulenta relação amorosa entre um professor casado e sua aluna, com conseqüências trágicas. A mesma relação se encontra no belo filme de Valerio Zurlini, A Primeira Noite de Tranqüilidade.

A sensação de melancolia, niilismo e desencanto aparece em duas frentes. Na amargura do professor que percebe que seus ideais políticos de nada adiantaram e na “Geração do Desbunde” retratada na figura da jovem esposa do professor, que vive a angústia da sexualidade livre e das drogas – no caso do final dos anos 70 e início dos 80, a cocaína. Ramalho antecipa nesse filme a sensação de derrota que as gerações politizadas sofrem hoje em um mundo em que esquerda e direita são apenas palavras e o que realmente comanda o mundo é o mercado financeiro globalizado. Uma ousadia para a época era mostrar as prisões políticas, a tortura, a retórica de esquerda, coisas nunca imaginadas anos antes por causa da rígida censura. Pouco tempo depois, com o filme Pra Frente Brasil, é que o cinema brasileiro expôs na tela as mazelas do Regime Militar, e mesmo sofrendo interdições da censura, pode ser exibido no Brasil e no exterior.

Mesmo com a forte sensação de desencanto expresso em Paula – A História de uma Subversiva, Ramalho optou por um final embebido em poesia na singela imagem da irmã de Paula diante do carrinho onde o pássaro tira a sua sorte. Seria uma pequena gota de esperança em um filme amargo, sombrio, mas de grande força dramática até hoje. Um clássico genuíno do cinema brasileiro.

O Cortiço

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

O Cortiço
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1978.

Por Andrea Ormond

Escrito em 1890, auge do chamado naturalismo brasileiro, o romance O Cortiço, do escritor maranhense Aluísio de Azevedo, significa bem mais do que pensam entediados estudantes secundaristas, normalmente fadados a lê-lo por obrigação curricular. Antes de ser vitrine morta, exemplo de tempo e pensamento ultrapassados, O Cortiço diagnostica muitas delícias e vícios brasileiros, bem mais até do que certas provocações revisionistas do século XX.

O filme homônimo, dirigido por Francisco Ramalho Jr., infelizmente não alcança a plenitude do livro, e pode-se dizer que, a exemplo de tantas outras adaptações cinematográficas, somente arranha a superfície do tema, como se realizasse em apanhado de imagens uma idéia geral da obra literária.

Vindo de um dos melhores exemplares do cinema setentista – À Flor da Pele (1976) – Ramalho nunca mais encontraria, como diretor, a força do embate entre o intelectual quarentão interpretado por Juca de Oliveira e a borderline patricinha incorporada por Denise Bandeira. Verdade que Filhos e Amantes (1981) e Besame Mucho (1986) são ótimos, porém À Flor da Pele indicava um artista nobre, em outro patamar de realização. Sair dessa tour de force para O Cortiço é algo que só um acidente pode explicar.

João Romão, personagem principal do livro e do filme, português avarento, dono da estalagem – cortiço para os detratores – amasiado com a negra Bertoleza (Jacira Silva), ganha tom simpático vivido por Armando Bógus. Romão é daqueles portugueses que prosperam na antiga colônia, às custas de desprendimento moral e crueldade. Dono também de uma pedreira ao lado do cortiço, o gajo sente inveja do patrício Miranda (Maurício do Valle), que compra um título de Barão e tem filha (Zaira Zambelli) em idade de casar.

O resto é o desfile – em baixa freqüência – dos arquétipos do livro. Rita Baiana (Betty Faria) rouba o galego Jerônimo (Mário Gomes) da mulher, e o envolve em uma briga por ciúme. Pombinha (Silvia Salgado), jovem que tinha dificuldades em menstruar, só vira “moça” depois de um gostoso tête-à-tête lésbico com a madrinha. Os “causos” se sucedem, embora tudo pareça levado a toque de caixa.

Apesar da precariedade, O Cortiço foi bastante caro para os padrões nacionais, e a reconstituição de época nem é das piores. Se até hoje sotaques e prosódias são motivos de chacota nas novelas da Globo, aqui o problema maior reside justamente na preguiça dos atores em falarem com gosto oitocentista. Zaira Zambelli, por exemplo, saiu direto de um chopp no Baixo Leblon para o século XIX.

Mário Gomes é o mesmo de sempre, e nem seu entendimento com Betty Faria – importado da novela das oito, Duas Vidas – funciona a contento. Ramalho poderia ter trazido Francisco Cuoco – que na novela fazia triângulo amoroso com a dupla – ou mesmo uma indefectível cenoura – mentira sensacionalista espalhada em 1977 contra Gomes, dando conta de que o galã viril curtia experiências sexuais pouco ortodoxas.

O pano de fundo do movimento republicano, da covardia escravagista – Romão falsifica carta de alforria para Bertoleza – e a óbvia metáfora da formação sócio-cultural do país no microcosmo da estalagem, de uma forma ou de outra sobrevivem na revisão fílmica. A montagem do grande Silvio Renoldi, a dedicatória a Lulu de Barros – quem primeiro adaptou O Cortiço para o cinema, nos anos 40 – e a trilha cantada por Zezé Motta melhoram o resultado.

Logo, se o leitor não tiver paciência com o livro, que assista ao filme. Mergulhando em platitudes que fariam Aluísio de Azevedo considerar dar uma mão no roteiro, o cortiço de Francisco Ramalho é curioso, bem-feitinho, porém tão pálido que desapareceu no tempo. Já o de Azevedo – falecido em 1913, o escritor não deve ter conhecido sequer D. W. Griffith – mantém calor inefável, o que prova ser a transposição entre artes uma tarefa dura, hercúlea.