Carta ao Leitor

A Zingu! chega aos seus 5 anos de história.

Com profundo amor ao cinema brasileiro, sobretudo o popular, a equipe da Zingu! não mede esforços para trazer, a cada edição, um olhar crítico e respeitoso para filmografias, artistas e técnicos que fizeram a fazem a história do cinema nacional.

Nesses cinco anos, muitos desses personagens, que, injustamente, quase nunca tiveram muito espaço pela fortuna crítica, encontraram guarida na Zingu!, que sabe da importância de cada um deles para a construção da nossa identidade fílmica.

E mesmo os que sempre desfrutaram de respeito também por aqui passaram e passam, pois nós da Zingu!, ainda que façamos um recorte mais focalizado no cinema popular, sabemos que a história do cinema brasileiro não é estanque, são fluxos que ora se interagem, ora se repelem, mas sempre em movimento contínuo, por mais dificuldades que ela encontra em seu caminho.

A Zingu! é feita por puro amor, dedicação e respeito pelo cinema brasileiro, já que por aqui ninguém recebe um tostão sequer. E aí tanto vale para o editor como para os redatores fixos, colaboradores e convidados. É uma revista de equipe, como é o cinema.

Este ano de 2011 é muito especial, pois nem tínhamos acabado de sair da honrosa premiação com o Prêmio IBAC distinguido para a Zingu!, na categoria cinema, no final do ano passado, e já publicávamos a edição de aniversário de 4 anos em fevereiro com o grande cineasta Alfredo Sternheim – mudanças internas ocasionaram o adiamento daquela comemoração.

Daí que agora, em outubro – mês real de aniversário da revista – , publicamos a edição de 5 anos da Zingu! trazendo à cena dois artistas amados pela redação e da maior importância para a história do cinema brasileiro.

Com isso, apresentamos o dossiê duplo de aniversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz. Casamento perfeito entre cineasta e atriz e que rendeu momentos luminosos para a nossa cinematografia.

Esta edição 49 é comemorativa aos 5 anos da Zingu! e também aos 82 anos de nascimento de Walter Hugo Khouri (21/10/1929 – 27/06/2003) e aos 25 anos de morte de Lilian Lemmertz (15/06/1937 – 05/06/1986).

O dossiê duplo O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz apresenta farto material com críticas de todos os filmes de Khouri e quase a totalidade dos filmes de Lilian (20 de 22), mais entrevistas, depoimentos, textos especiais e filmografia.

Esta edição 49 abre espaço também para as colunas tradicionais: a dublagem dos filmes; Janela da Alma; “Dedos de Deus”, o luar de Carlos Reichenbach; As Águas de Mauro por Carlos Alberto Mattos; e as musas Renata Sayuri, Aldine Muller, e toda uma constelação Khouriana.

Agradecemos a todos os redatores, colaboradores, convidados e leitores que sempre nos ajudam a construir a trajetória da Zingu! A participação de todos vocês é fundamental.

Tenham todos uma ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

Fronteiras do Inferno

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

Fronteiras do Inferno (Lonesome Woman)
Direção: Walter Hugo Khouri
Brasil, 1959.

Por Ana Martinelli

A revisão da filmografia completa de Walter Hugo Khouri ainda nos reserva algumas surpresas. A primeira sensação ao assistir Fronteiras do Inferno é o estranhamento: primeiro porque não temos os cenários urbanos ou luxuosos, o filme se desenrola no interior do Brasil numa vila de exploração de diamantes, nada de glamour ou questões existenciais. Ali, a luta é pela sobrevivência da opressão das famílias e dos trabalhadores pobres subjugados à ganância dos que têm a posse do território.

Feito sob encomenda, o filme é uma produção norte-americana e o elenco brasileiro, portanto, dublado em inglês. A narrativa mostra domínio da linguagem clássica do drama e flerta com os filmes de aventura e, até, ação da época, com direito a alguma pancadaria e lados bem definidos entre mocinhos e bandidos.

No final, como é de se esperar, o amor vence e o casal, interpretado por Hélio Souto e Aurora Duarte, consegue escapar; a disputa pela fortuna, representada pelo domínio do grande diamante, culmina na morte do chefe da mineradora, um bandidão inescrupuloso vivido por Luigi Picchi.

O próprio autor dizia que Noite Vazia (1964) foi um estalo, no qual ele encontrou sua voz no cinema, e alguns teóricos consideram sua produção anterior como a fase do cinema independente. Logo, não é nenhum despropósito dizer que Fronteiras do Inferno é um pré-Khouri.

Alguns elementos que se tornariam marcas registradas do estilo do diretor estão também neste momento de sua carreira, em fase embrionária, e, pensando no conjunto da obra, é quase inevitável não procurá-los.

Khouri reserva uma das mais belas sequências à uma personagem secundário. Bárbara Fazio interpreta a mulher do bandido, uma personagem deslocada, vestida como uma diva, como uma beldade em meio ao nada e ao tédio. Ela não suporta mais e durante uma discussão surta: se olha no espelho da penteadeira, daquelas antigas compostas por três espelhos ligados a dobradiças. Num plano fechado, filmado por trás, vemos três reflexos de seu rosto mergulhado em angústia. Olha-se e, ao mesmo tempo, apenas o vazio de uma existência sem sentido, da promessa do amor que se esvai: “Eu estou ficando louca nesse lugar por sua culpa. Você disse que ficaríamos um ano e já faz oito. Eu estou definhando, dia após dia apodrecendo nesse lugar, coberta de poeira e tristezas. Cheia de ódio.”

Mas são pequenas pitadas de Khouri numa produção tradicional. Apesar da competência da realização e de alguns outros bons momentos, é um filme mediano. Pensando e pesquisando sobre o filme, encontrei um pequeno texto de Gustavo Dahl sobre Fronteiras do Inferno, escrito em 1958. Resolvi compartilha-lo para o entendimento do que significa mediano na filmografia do diretor e também pela clareza com que Dahl consegue traduzir o momento:

“Ele é cultura, sensibilidade, inquietação, inteligência e talento a serviço de um enorme amor ao cinema. E a escassez de tudo isso é tão grande no cinema brasileiro, que mesmo um filme como Fronteiras do Inferno, sabidamente realizado num esquema comercial e com grandes limitações materiais, adquire uma importância que em circunstâncias normais nunca poderia ter.”

 

Ana Martinelli é jornalista, crítica e pesquisadora de cinema. Escreveu e editou o canal de vídeos no site Cineclick, e colabora para a revista Tela Viva, site da TPM, entre outros.