Em Família

Especial Rodolfo Arena

Em Família
Direção: Paulo Porto
Brasil, 1971.

Por Adilson Marcelino

Rodolfo Arena brilhou em quase cem filmes, passou pelas mais diferentes fases do cinema brasileiro, e foi dirigido por cineastas de todos os tipos e gêneros. Mas dentre toda a sua notável filmografia, há um lugar mais que especial para esse Em Família.

Dirigido pelo ator e cineasta Paulo Porto, aqui Arena tem papel de protagonista ao lado de Iracema de Alencar, em um elenco de sonho: Fernanda Montenegro, Procópio Ferreira, Anecy Rocha, Odete Lara, Antero de Oliveira, e o próprio Paulo Porto.

Na trama, Rodolfo Arena é Seu Souza, e Iracema de Alencar é dona Lu, casal de idosos que virou um fardo para seus filhos e noras. Eles viveram juntos 44 anos, criaram os filhos em meio a mesa de domingo forrada a frango assado, farofa, maionese com alcaparras e ovos nevados. Mas agora, com as dificuldades do dia a dia, e um tanto de ingratidão, os filhos adultos não têm mais tempo para os pais e daí protagonizam verdadeiro jogo de empurra empurra para ver quem herda o casal.

E é em mais desses almoços típicos em família que o destino de Seu Souza e dona Lu será selado e anunciado: eles terão que morar separados, um em São Paulo e o outro no Rio de Janeiro. Começa aí o périplo do casal, ela se intrometendo na ordem caseira da nora amorosa Fernanda; ele com as brigas ranhentas com a filha Anecy.

Há, no elenco, uma participação mais que especial do genial Procópio Ferreira, como o amigo que Arena faz em seu novo lar e com quem divide sua solidão nos bancos da praça – e que para incômodo crescente da filha leva a tiracolo para filar a bóia do almoço

Os encontros e despedidas entre Arena e Iracema são comoventes e nos faz chorar baldes. O que fazer com nossos velhos? É a pergunta dos personagens que reverbera do lado de cá na plateia..

Em Família é um notável melodrama com roteiro adaptado de Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar e Paulo Porto. Detentor de vários prêmios, como o Coruja de Ouro de Melhor Ator para Rodolfo Arena,  Prêmio Governador do Estado de São Paulo de Melhor Ator para Arena, e de Melhor Atriz para Iracema de Alencar.

Eterno Arena

Especial Rodolfo Arena

 
Por Adilson Marcelino

Alguns atores e atrizes fizeram do cinema brasileiro sua verdadeira casa e para ele ofereceram toda uma vida.

E um desses notáveis artistas é, sem dúvida, o paulista Rodolfo Arena, que ainda que tenha desenvolvido carreira extensa também no teatro, foi no cinema que se eternizou em personagens inesquecíveis.

Rodolfo Arena nasceu em Araraquara, São Paulo, no dia 15 de dezembro de 1910. Sua morte foi em 31 de agosto de 1980, portanto já são 31 anos que ficamos órfãos de seu extraordinário talento.

Arena estreou na carreira artística no cinema ainda criança, aos 9/10 anos, fazendo uma ponta em O Crime do Cravinhos (1920),  de Arturo Carrari. Porém, sua trajetória artística começa mesmo na adolescência, quando inicia os trabalhos no circo e no teatro – atua nas companhias de Procópio Ferreira, e, posteriormente, monta companhia com Iracema de Alencar, sua futura parceira como protagonistas no filme Em Família (1971), de Paulo Porto.

A carreira profissional no cinema se dá em Vidas Solitárias (1945), de Moacyr Fenelon,  mas o destaque já se dá no filme seguinte, O Ébrio (1946), o arrasa-quateirão dirigido por Gilda de Abreu e protagonizado por Vicente Celestino, em que ele faz o vilão José.

Bom, começa aí de fato nas telas uma das mais longínquas, e importantes,  trajetórias do cinema brasileiro, em que Arena passa por diferentes ciclos e escolas: Cinédia, chanchadas, Cinema Novo, Cinema Marginal, cinema popular, pornochanchada, era de ouro da Embrafilme nos anos 70 e 80.

Rodolfo Arena mostrou sua versatilidade atuando com cineastas de escolas tão  díspares como Eurídes Ramos, Carlos Coimbra, Carlos Diegues e Julio Bressane. Aliás, Diegues e Bressane reservaram personagens marcantes para o ator, como em Xica da Silva (1976) e Chuvas de Verão (1977), de Carlos Diegues,  no caso do primeiro; e Matou a Família e Foi ao Cinema (1969) e Barão Olavo, O Horrível (1970), no segundo.

Debruçar-se sobre a obra de Rodolfo Arena é descortinar uma galeria impressionante de filmes e de cineastas.

Alguns deles?

Watson Macedo, José Carlos Burle, Nelson Pereira dos Santos, Roberto Pires, Jece Valadão, J.B Tanko, Miguel Borges, Paulo Cesar Saraceni, Mozael Silveira, Daniel Filho, Walter Lima Jr, Paulo Thiago, Carlos Alberto Prates Correia, David Neves, Zelito Viana, Victor di Mello, Alberto Pieralisi, Leon Hirszman, Hugo Carvano, Alcino Diniz, Carlos Hugo Christensen, Flávio Migliaccio, Carlo Mossy, Claudio MaCdowell, Victor Lima, Ovaldo de Oliveira, Xavier de Oliveira, Reginaldo Faria, Marcos Farias, Fernando Campos, Renato Santos Pereira, Denoy de Oliveira, Claudio Cunha, Antonio Calmon, Jean Garrett, Neville D´Almeida.

São muitos personagens importantes, mas sem dúvida é impossível não destacar o aposentado Palhaço Guaraná, vizinho de Joffre Soares em Chuvas de Verão,  e o Seu Souza de Em Família, de Paulo Porto – Prêmio Coruja do Ouro e Premio Governador do Estado de São Paulo de Melhor Ator.

Como não se lembrar também de suas atuações em Menino de Engenho (1965), de Walter Lima Jr.,  Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, e Independência ou Morte (1972), de Carlos Coimbra?

Rodolfo Arena encarnou com tanta propriedade seus personagens, aliando uma certa fragilidade a um forte tempero de ranhetice, que eles se desprendem da tela para nos acompanhar na memória e no coração.

São etenos, como ele.

 

 

São Bernardo

Especial Rodolfo Arena

 

São Bernardo
Direção: Leon Hirszman
Brasil, 1973. 

Por Vlademir Lazo 

São Bernardo existe bem no meio dos vinte anos que separam as celebradas adaptações de Graciliano Ramos por Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas, 1963, e Memórias do Cárcere, 1984). O que impressiona é que o filme de Leon Hirszman não fica muito atrás dos títulos citados; na verdade, não está nada distante da qualidade dos trabalhos de Nelson Pereira, sendo que tampouco estranharíamos (conhecendo todos eles) se alguém confessar preferir o de Hirszman aos outros dois. 

Curiosa analogia: sempre assisti e revi São Bernardo nos últimos anos geralmente pensando quase o tempo todo em There Will Be Blood, de Paul Thomas Anderson. O Paulo Honório interpretado com intensidade por Othon Bastos pode remeter a uma espécie de versão cabocla do personagem de Daniel Day-Lewis em There Will Be Blood, desde a caracterização física (basta ver a imagem que acompanha esse texto) até a trajetória pontilhada pelo desejo de riqueza, pela obsessão e pelo egoísmo e indiferença, que os fazem não ter olhos para mais nada, nem mesmo para a própria mulher escolhida como esposa (no caso de São Bernardo). 

O filme de Hirszman é um estudo sobre a cobiça e os poderes simultaneamente construtivos e destrutivos que permeiam e desgastam a personalidade de um latifundiário possuído por uma ambição desmedida, descortinando a ascensão e ruína moral de um personagem aparentemente destituído de virtude e redenção, mas destinado somente ao vazio em que acaba todo homem que se julga o centro do mundo (do seu mundo, pelo menos). Todos os passos e decisões de Paulo Honório são unicamente pensados em seu benefício próprio, para alimentar suas ambições pessoais: construir uma escola vale menos pela inutilidade de fazer seus empregados aprenderem a ler do que pela oportunidade de lucro com um colegiozinho particular no meio da roça (bem como é na mesma medida com os alicerces da igreja por ali); encontrar uma esposa lhe interessa mais pelo desejo de um herdeiro para suas terras na propriedade de São Bernardo do que por sentimentos que lhe são indiferentes, como o amor ou a vontade de uma companhia. 

São justamente esses dois mistérios indecifráveis aos olhos do personagem que geram os confrontos entre Paulo Honório e as forças-motrizes que na segunda metade do filme se contrapõem a sua personalidade e andam em paralelo à sua trajetória (e terminam por levá-lo ao desespero e depois à solidão): o conhecimento e as relações conjugais. Padilha, o antigo herdeiro e proprietário de São Bernardo, como o mestre-de-escola a que se vê reduzido nunca teve a fibra e praticidade do seu patrão (que o fez perder as terras que eram suas), mas semeia uma certa desordem plantando idéias subversivas e espalhando juízos simpatizantes ao comunismo, além de cultivar e trocar conhecimento sobre arte e literatura com Madalena (que além de antiga professora também escreve artigos), assuntos cuja finalidade Paulo Honório jamais alcançará. E casar com Madalena (Isabel Ribeiro) é compartilhar de um espaço particular com uma pessoa que jamais deixará de lhe ser estranha; ao contrário, a proximidade advinda com os anos só serve para torná-los mais diferentes um do outro, sem jamais concretizarem um laço familiar ou um casal com afinidade em cena. 

Cada um à sua maneira, todos combatem a aridez do meio e a aspereza do mundo, em que a violência interior e física forja a convivência humana, mas com Paulo Honório se alimentando disso para oprimir os demais ao seu redor e domar aquele espaço à força. O filme é bem fiel ao romance de Graciliano, perfeito tradutor de uma alma rústica, o que é conservado o tempo todo na narração em off de Othon Bastos, cuja impressionante presença em cena reflete no rosto e corpo inteiro a essência do seu personagem (na melhor atuação de sua carreira, junto com a de Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol). Dentre o elenco secundário, a participação de Rodolfo Arena no papel do Dr. Magalhães. 

O ótimo dvd lançado com o filme recupera e restaura as cores magníficas da fotografia excepcional de Lauro Escorel, que enquadra rigorosamente o homem fundido com a paisagem incomensurável, pintando grandes imagens e tirando proveito das potencialidades do quadro. Certamente Graciliano Ramos é o escritor brasileiro cujas obras mais renderam grandes adaptações cinematográficas ─ e não custa lembrar que o seu melhor livro, Angústia, ainda não foi filmado.