Uma Senhora Atriz

Especial Liana Duval

 

Por Adilson Marcelino

Quando se pensa no cinema popular dos anos 1970, logo vem à mente musas estonteantes de beleza e gostosura como Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Aldine Muller e Adéle Fátima. Mas há também uma longa lista de mulheres que marcavam presença com seu talento nos filmes em que essas deusas reinavam, interpretando as personagens mais velhas, como a mãe, a tia, a sogra, a empregada. E em vários desses filmes está lá a presença majestosa de Liana Duval.

Mas não pensem que Liana Duval sempre foi essa senhora, como a empregada que fica boquiaberta com as cenas eróticas entre Zélia Diniz e um gafanhoto no episódio de John Doo em Pornô, ou a aflita mãe em Joelma 23º. Andar, de Clery Cunha. Liana parava quarteirões com seu corpo bem talhado quando começou a carreira ainda nos anos 40, a ponto de ser elencada como uma das desejadas vedetes da época, mas posto em que ela nega em entrevista para o site Mulheres do Cinema Brasileiro. Lá, diz que atuou apenas em duas revistas como convidada, uma como atriz e outra como vedete.

O que não nega é que foi sim uma das Dez Certinhas do Lalau, do saudoso Stanislaw Ponte Preta, posto cobiçado pelas mulheres da época e que fazia babar os marmanjos de plantão. Seu corpão-violão é ressaltado também por Ìtalo Rossi no filme O Pão que o Diabo Amassou, dirigido por um de nossas cineastas pioneiras, a italiana Maria Basaglia, em filme protagonizado por Jaime Costa e no qual ela estrela ao lado de Elizabeth Henreid, Carlos Zara, Egydio Eccio e o próprio Rossi.

Falecida no mês passado, Liana Duval nasceu em 06 de junho de 1927, em Paraguaçu Paulista, São Paulo. Com atuação importante no teatro e trabalhos na televisão, a atriz marcou a história do cinema brasileiro, atuando em várias fases do Cinema Nacional e com mais de 50 filmes no currículo.

Liana Duval começou sua carreira nos palcos. Depois de nascer em uma fazenda em Paraguaçu Paulista e viver alguns anos em Presidente Prudente, ela se muda de mala e cuia para São Paulo para estudar jornalismo. Só que assiste uma peça do TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, apaixona-se e acaba fazendo teste para uma escola de arte dramática, no qual passa em segundo lugar e carimba seu destino.

Durante essa trajetória, fez curso com o mítico Marcel Marcel e atuou em peças históricas como O Rei da Vela, com direção de José Celso Martinez Correa – só no Oficina ficou cerca de cinco anos, em espetáculos que foram marcos, como Galileu Galilei e Os Pequenos Burgueses. Gota D´Água, protagonizada por Bibi Ferreira, é outro momento histórico.

Na televisão estreou em novelas em Marcados pelo Amor, de Walter Negrão e Roberto Freire, baseada em radionovela de Oduvaldo Vianna, protagonizada por Francisco Cuoco e Miriam Melher, e exibida na Excelsior em 1864/65. Na TV, atua no marco Nino, O Italianinho, de Geraldo Vietri, em 1969, mas intensifica sua participação na telinha só a partir da década 70. Depois vieram muitas outras, sendo da última fase duas assinadas por Silvio de Abreu – A Próxima Vítima (1995) e Torre de Babel (1998).

Liana Duval estreou no cinema fazendo uma ponta em Sai da Frente, de Abílio Pereira de Almeida, em 1952. O filme, protagonizado por Mazaroppi, foi um grande sucesso e foi produzido pela Vera Cruz. A parceria com Abílio e Mazzaropi voltaria no filme seguinte, Nadando em Dinheiro (1952), agora sim com papel importante.

Da mesma época é João Gongorra (1952), de Alberto Pieralisi, em que estrela. Começava aí uma das mais extensas carreiras de atriz no cinema brasileiro, que vai da década de 50 até os anos 90. Em sua trajetória cinematográfica, a atriz passa por vários estúdios e modelos de filmagem, como a Paulistania Film, a Multifilmes, a Vera Cruz, as Chanchadas, o Cinema Marginal, a Pornochanchada e o cinema dos anos 80.

Liana Duval tem um currículo invejável, sendo dirigida por nomes de diferentes tendências como Abílio Pereira de Almeida, Luciano Salce, José Carlos Burle, Maria Basaglia, Carlos Hugo Christensen, Flávio Tambellini, Lenita Perroy, Rubem Biáfora, Jean Garret, Geraldo Santos Pereira, Carlos Reichenbach, John Doo, Roberto Santos, John Herbert, Eduardo Escorel, dentre outros.

O Cinema Marginal, o cinema popular e as pornochanchadas são um capítulo à parte, com atuações arrebatadoras. A atriz barbariza nos clássicos marginais O Pornógrafo (1970), de João Callegaro e Em Cada Coração Um Punhal (1970), episódio de Sebastião Souza, dois de seus melhores trabalhos. Já no cinema popular, marca presença em vários, como Mulher, Mulher (1979), de Jean Garret, e Ariella (1980), de John Herbert. Com Carlos Reichenbach, atua em dois grandes momentos do cineasta: Amor, Palavra Prostituta (1981) e Filme Demência (1986).

Durante sua trajetória, Liana Duval sempre buscou conforto espiritual, em caminho de busca percorrido desde os anos 70 e efetivado de vez na década de 90, quando abandona a carreira artística. Daí, muda-se para uma comunidade rural fundada por Trigueirinho Neto em Carmo da Cachoeira, no interior de Minas Gerais.

Liana Duval faleceu no dia 23 de março de 2011.

Fontes:

– Site Mulheres do Cinema Brasileiro
– Site Teledramaturgia

Filmografia

Dossiê Liana Duval

 

Filmografia

Sai da Frente, 1952, de Tom Payne e Abílio Pereira de Almeida
João Gangorra, 1952, de Alberto Pieralisi
Nadando em Dinheiro, 1953, de Abílio Pereira de Almeida
Uma Vida Para Dois, 1953, de Armando de Miranda
Floradas na Serra, 1954, de Luciano Salce
O Craque, 1954, de José Carlos Burle
A Pensão de Dona Estela, 1956, de Ferenc Fekete e Alfredo Palácios
O Pão Que o Diabo Amassou, 1957, de Maria Basaglia
Hoje o Galo Sou Eu, 1958, de Aloísio T. de Carvalho
Só Naquela Base, 1960, de Ronaldo Lupo
Crônica da Cidade Amada, (1964, de Carlos Hugo Christensen
O Beijo, 1965, de Flávio Tambellini
O Pornógrafo (1970), de João Callegaro
Em Cada Coração Um Punhal, 1970), episódio de Sebastião de Souza
Fora das Grades 1971, de Astolfo Araújo
A Infidelidade ao Alcance de Todos, 1972, de Aníbal Massaini Neto e Olivier Perroy
Mestiça, A Escrava Indomável, 1973, de Lenita Perroy
Anjo Loiro, 1973, de Alfredo Sternheim
Pensionato de Mulheres, 1974, de Clery Cunha
Macho e Fêmea, 1974, de Ody Fraga
As Delícias da Vida, 1974, de Maurício Rittner
A Casa das Tentações, 1975, de Rubem Biáfora
Amantes, Amanhã se houver Sol, 1975, de Ody Fraga
Excitação, 1976, de Jean Garret
O Seminarista, 1977, de Geraldo Santos Pereira
Mágoa de Boiadeiro, 1977, de Jeremias Moreira Filho
A Santa Donzela, 1978, de Flávio Porto
O Outro Lado do Crime, 1978, de Clery Cunha
Por Um Corpo de Mulher, 1979, de Hércules Breseghelo
Mulher, Mulher, 1979, de Jean Garret
Milagre – O Poder da Fé, 1979, de Hércules Breseghelo
Joelma, 23o Andar, 1979, de Clery Cunha
Dani, Um Cachorro Muito Vivo, 1979, de Frank Dawe
Os Amantes da Chuva, 1979, de Roberto Santos
Império das Taras, 1980, de José Adolfo Cardoso
Ariella, 1980, de John Herbert
Ato de Violência, 1980, de Eduardo Escorel
Pornô!,1981, de David Cardoso, Luiz Castellini e John Doo
Amor, Palavra Prostituta, 1981, de Carlos Reichenbach
O Vale dos Amantes, 1982, de Tony Rabatoni
Um Casal de 3, 1982, de Adriano Stuart
Tchau Amor, 1982, de Jean Garret
A Noite das Taras II, 1982, de Ody Fraga e Cláudio Portioli
Aluga-se Moças, 1982, de Deni Cavalcanti
O Encalhe – Sete Dias de Agonia, 1982, de Denoy de Oliveira
Tudo na Cama, 1983, de Antônio Melliande
Nasce Uma Mulher, 1983, de Roberto Santos
De Todas as Maneiras, 1983, de Mário Lúcio e Marcelo Motta
Filme Demência, 1986, de Carlos Reichenbach
A Dama do Cine Shanghai, 1987, de Guilherme de Almeida Prado
Vera, 1987, de Sérgio Toledo
Dudu Nasceu, 1992), curta de João Batista de Andrade
Coentro e Quiabo na Carne de Sol, 1995, curta de Eduardo Abad