Filmografia

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Como diretor:

2009/10 – América Americana
Direção e roteiro de Francisco Ramalho Jr., baseado em argumento original de Paulo Brito. Produção: Ramalho Filmes. Em desenvolvimento do projeto.

2006 – Canta Maria
Direção e roteiro de Francisco Ramalho Jr., baseado em romance Os Desvalidos de Francisco Dantas. Produção: Ramalho Filmes. Com Vanessa Giácomo, Marco Ricca, José Wilker, Edward Boggiss. Canções originais de Daniela Mercury. Festivais de Calcutá, Xangai, Chicago e Japão.

1986 – Besame Mucho
Direção de Francisco Ramalho Jr. Prêmio Colombo de Ouro de Melhor Filme no Festival Ibero-americano de Huelva, e Menção Honrosa da Radio España no Mesmo Festival (87). Prêmio de Melhor Roteiro (escrito por Francisco Ramalho Jr. e Mario Prata) em Cartagena, Colômbia (87) e no Festival de Gramado, Brasil (87). Prêmio em Havana. Baseado na peça teatral de Mario Prata, com José Wilker, Christane Torloni, Gloria Pires e Antonio Fagundes. Produção: HB Filmes Ltda e Ramalho Filmes como Produtor Majoritário.

1981 – Filhos e Amantes
Direção de Francisco Ramalho Jr. Roteiro de Francisco Ramalho, produção de A. P. Galante & Francisco Ramalho Jr. Roteiro e argumento de Francisco Ramalho Jr. Com Denise Dummont, Lúcia Veríssimo, Walmor Chagas e Renée de Vielmond.

1979 – Paula, a História de uma Subversiva
Direção, argumento e roteiro de Francisco Ramalho Jr. Produção da OCA Cinematográfica. Direitos atuais: Ramalho Filmes. Com Armando Bogus, Regina Braga e Marlene França.

1978 – O Cortiço
Direção de Francisco Ramalho Jr. Da obra de Aluísio de Azevedo roteirizada por Francisco Ramalho Jr. Produção da Argos Filmes. Direitos autorais: Ramalho Filmes. Com Betty Faria, Armando Bogus, Beatriz Segall.

1977 – Caramuru
Direção de Francisco Ramalho Jr. Produção Embrafilme e Oca Cinematográfica. Telefilme (60 minutos) com argumento de João Felício dos Santos e roteiro de Francisco Ramalho Jr. Com Walter Martins. Direitos autorais: Ramalho Filmes.

1976 – À Flor da Pele
Direção de Francisco Ramalho Jr. Premiado em Gramado (77) como Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Roteiro (Francisco Ramalho Jr). Prêmio Air France para Melhor Atriz. Baseado em peça de Consuelo de Castro roteirizada por Francisco Ramalho Jr. Produção da OCA Cinematográfica. Com Juca de Oliveira, Denise Bandeira e Beatriz Segall. Direitos autorais: Ramalho Filmes.

1975 – Joãozinho (Episódio do longa Sabendo Usar não Vai Faltar).
Direção, roteiro e argumento de Francisco Ramalho Jr. Produção A. P. Galante & Alfredo Palácios e OCA Cinematográfica. Direitos autorais: Ramalho Filmes. Com Ewerton de Castro.

1968 – Anuska – Manequim e Mulher
Direção de Francisco Ramalho Jr. Baseado em conto de Ignacio de Loyola roteirizado por Francisco Ramalho Jr. Produção da Tecla Cinematográfica. Prêmio APCA melhor trilha musical. Direitos autorais: Ramalho Filmes. Com Francisco Cuoco, Marília Branco e Armando Bogus.

Como produtor:

2010 – A Suprema Felicidade
Direção e roteiro de Arnaldo Jabor, produção de Francisco Ramalho Jr. para a Ramalho Filmes. Filmagens no primeiro semestre de 2009 no Rio, com distribuição da Paramount. Com Marco Nanini e Dan Stulbach.

2009 – O Contador de Histórias
Direção e roteiro de Luiz Villaça, produção de Francisco Ramalho Jr. para a Ramalho Filmes. Com a atriz internacional Maria de Medeiros, e lançado em 7 de agosto de 2009 pela Warner Bros.

2005 – O Casamento de Romeu e Julieta
Direção de Bruno Barreto, produção de Luis Carlos Barreto e Paula Barreto, com Luana Piovani, Luis Gustavo, Marco Ricca e Mel Lisboa. Produtor associado: Ramalho Filmes. Executivo: Francisco Ramalho Jr.

2005 – Jogo Subterrâneo
Direção de Roberto Gervitz, Produção Vagalume Produções Cinematográficas. Produtor Associado: Ramalho Filmes. Executivo: Francisco Ramalho Jr. Com Felipe Camargo, Maria Luisa Mendonça, Julia Lemmertz, Daniela Escobar e Maitê Proença.

2003 – Cristina Quer Casar
Direção: Luiz Villaça. Produção NIA Produções Artísticas e Ramalho Filmes. Com Denise Fraga, Marco Ricca e Fábio Assunção.

1998 – Coração Iluminado
Direção de Hector Babenco. Produção HB Filmes e Francisco Ramalho Jr. Representante oficial do Brasil no Festival de Cannes em 1998. Com Maria Luiza Mendonça, Xuxa Lopes, Walter Quiroga. Produtor com Hector Babenco e Produtor Executivo.

1991 – Brincando nos Campos do Senhor
Direção de Hector Babenco. Produção: The Saul Zaentz Company, USA. Produtor Executivo: Francisco Ramalho Jr. Com Tom Berenger, Daryl Hannah, Tom Waits, Katy Bates, José Dumont, Nelson Xavier.

1985 – O Beijo da Mulher Aranha
Direção de Hector Babenco. Produção HB Filmes. Vencedor do Oscar de Melhor Ator em 85 além de indicações para Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Prêmio de Melhor Ator no Festival Internacional do Filme de Cannes, no mesmo ano. Produtor com Hector Babenco, David Weissman e Produtor Executivo: Francisco Ramalho Jr. Com William Hurt, Raul Julia, Sônia Braga, José Lewgoy.

1981 – Das Tripas Coração
Direção de Ana Carolina. Produção Crystal Cinematográfica. Produtor Executivo: Francisco Ramalho Jr. Com Antonio Fagundes, Dina Sfat, Miriam Muniz.

1979 – Os Amantes da Chuva
Direção de Roberto Santos. Produção: Oca Cinematográfica. Produtor, produtor executivo e corroteirista: Francisco Ramalho Jr. Com Helber Rangel, Bete Mendes.

1974 – Nordeste: Repente, Cordel e Canção
Direção, produção e argumento de Tânia Quaresma. Direção de Produção: Francisco Ramalho Jr. Documentário de longa-metragem fotografado por Lucio Kodato.

Canta Maria

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Canta Maria
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 2006.

Por Vlademir Lazo Correa

Canta Maria foi saudado como a volta de Francisco Ramalho Jr. ao cinema após um intervalo de duas décadas. O que num primeiro momento salta aos olhos do espectador é a presença de cangaceiros na narrativa, recuperando uma vertente que já foi associada como tradicional a um cinema brasileiro mais antigo. Nos últimos quinze anos, houve alguns poucos esforços de outros diretores para retomar essa tradição, ao que veio se somar o trabalho de Ramalho nessa adaptação do livro Os Desvalidos, do sergipano Francisco J.C. Dantas.

Uma visão atenta, porém, nos traz a compreensão de que, mais do que o ciclo do cangaço, Canta Maria está ligado a uma tentativa de resgate do romance de literatura regionalista. O filme transcorre no conturbado nordeste brasileiro da década de 30, marcado pelos conflitos entre o banditismo dos cangaceiros que seguiam o rastro de Lampião contra as tropas do governo destacadas para manter a ordem e varrer aquele cenário de violência. Um palco de guerra e também de miséria, o que favorecia o fortalecimento das crenças religiosas e milagreiras, como também o apoio de grande parte da população ao cangaço, em decorrência do incentivo do Padre Cícero, muito influente naquele período.

Uma dessas famílias que acobertavam Lampião era a da jovem Maria, cujos pais são assassinados pelas tropas policiais por receberem e ajudarem o temido criminoso. Sozinha, a personagem encontra e se casa com Felipe (Marco Ricca), um domador de cavalos que mora junto com o seu sobrinho, Coriolano (Edward Boggiss). É uma relação formada mais pela necessidade do que pela atração, porque Felipe é uma figura rústica demais comparada com a jovialidade de Maria.

Mas nada é definitivo nessa terra de penúrias e precariedade do Nordeste dos anos 30. O marido decide se tornar caixeiro viajante, por acreditar ser a solução mais segura para o sustento do casal, deixando a jovem aos cuidados do sobrinho, também uma figura traumatizada por outros tipos de violência. Dois personagens marcados pela carência e precoces perdas familiares, mais vítimas do que propriamente responsáveis pelos modos como suas vidas vão se delineando.

A direção opta por uma narrativa simples e sem invenções, marcada pela larga utilização de travellings e planos gerais, numa tentativa de realizar um cinema popular, mas correndo o risco de ser confundido como uma variação de telenovela do horário das seis (até mesmo pela presença de Vanessa Giácomo, revelada um pouco antes numa novela também regionalista). O filme foi rodado primordialmente em Cabaceiras, interior da Paraíba. O lugar teve suas ruas asfaltadas cobertas com areia e seus postes de iluminação, fios e antenas de TV arrancados para recriar a cidade imaginada no romance. O título Canta Maria foi tirado de uma das canções de Daniela Mercury e Gabriel Povoas, responsáveis pela trilha sonora. No elenco, destaque ainda para José Wilker, em sua participação como Lampião, e Rodrigo Penna, num papel menor.

Besame Mucho

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

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Besame Mucho
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1986.

Por Gabriel Carneiro

Besame Mucho é possivelmente o melhor filme de Francisco Ramalho Jr. Nele, não há os personagens histéricos que tendem a permear boa parte da curta filmografia do diretor-produtor, mas as diferentes histórias da classe média continuam fazendo-se valer. Contado de trás para frente, Besame Mucho narra pouco mais de vinte anos da vida de dois casais amigos, Tuca e Dina, Xico e Olga. São personagens tentando se entender, tentando manter a paixão, sempre ciclicamente – são vidas que começam e terminam nos anos assuntados, inicialmente retornando de três em três anos, para passar de dois em dois.

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Há uma beleza tremenda na simplicidade com que a história é contada e mostrada. O recurso temporal utilizado é um acerto: ao invés de buscar o prisma da causa e conseqüência para melhor entender o destino de cada um, opta-se por destrinchar o passado, para melhor entender os personagens. Funciona também no espectro de balanço histórico a que o filme se propõe. Aliás, tal balanço faz dele um típico filme dos anos 80, que, com o término do regime militar, começou a olhar para trás, para tempos e estéticas muitas vezes anteriores a ele, com mais bom humor. Eram tempos de esperança, tentando compreender o que havia ocorrido.

Francisco Ramalho Jr. já havia feito um filme político (Paula, a história de uma subversiva), e em Besame Mucho retoma a linha, mas com muito mais leveza. Seu filme olha para trás, e caminha para trás, mostrando os muitos contextos. A memória que Besame Mucho imprime serve bem aos escritores – o roteiro de Ramalho é baseado na peça de Mário Prata -, contemporânea a eles. Os anos 80 fecham um ciclo e mostram um arrefecimento para os dois casais. Os anos 70 são os anos políticos, especialmente para Xico e Olga, que lutam por um país livre, buscando o fim da ditadura. Os anos 60 são os anos do amadurecimento. Não há nostalgia no olhar de Ramalho para com esses últimos, quando tudo parecia bem. O que vemos, muito mais do que isso, é a ilusão de que eram realmente anos nostálgicos, são anos sem preocupações, quase como se fosse um sonho sendo realizado a cada momento. É quando vem o regime militar que o período anterior ganha o ar de nostalgia: o sonho fora destruído por uma realidade muito mais crua, especialmente quando a vida interiorana dá lugar à megalópole.besame-mucho-300x200

Uma das razões de o filme ser tão bem sucedido é não se prender a um partidarismo panfletário. A crença dos personagens parece pouco importar, o encanto está nas idiossincrasias. Em determinado momento, Olga vai à casa de Xico. Eles estão separados, e ele já é um promissor dramaturgo esquerdista, contra o regime dito opressor. Olga não. Ela vai falar com Xico para lhe dizer que está mudando para a França. Conhecera um rapaz, por quem se apaixonara, que precisava se exilar. Xico pergunta se eles já haviam transado. A resposta dela, positiva, deixa-o perturbado. Diz ele que ainda não conseguiu se livrar de todas as crenças de quando vivia na pequena cidade do interior paulista. A aparente contradição é que dá tanto gosto ao filme – ganha, assim, maior liberdade. Pouco importa o que vai acontecer no futuro, a graça está nesses momentos, quando passamos a melhor entender o outro – e, quem sabe, o mundo ao redor.

Uma vida dedicada ao cinema

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Por Adilson Marcelino

Produtor, cineasta e roteirista, Francisco Ramalho Jr. é nome fundamental na história do cinema brasileiro.

Nascido em 1940, em Santa Cruz das Palmeiras, São Paulo, Francisco Ramalho Jr. passou a infância em Pirassununga, também interior paulista. Foi lá que nasceu a paixão pelo cinema, assistindo aos seriados no cinema e criando histórias e exibindo para os amigos em projetor doméstico improvisado. Mais tarde, fica ainda mais íntimo do cinema quando cursa a Politécnica e dirige o Centro Acadêmico, e depois vai trabalhar na Cinemateca Brasileira, em época do grande Paulo Emílio Salles Gomes.

Depois das brincadeiras de garoto, a primeira experiência como realizador é no formato Super-8. Em 1964, dirige o curta Teatro Popular, em 1967, Mal de Chagas, e em 1974, Tietê – além de assistência de montagem nos curtas Subterrâneos do Futebol (1965), de Maurice Capovilla, e Auto da Vitória (1966), de Geraldo Sarno.

Em 1968, Francisco Ramalho Jr. estreia em longas com o filme Anuska – Manequim e Mulher. Adaptado do conto Ascensão ao Mundo de Anuska, do livro Depois do Sol, e em dois contos não publicados de Ignácio de Loyola Brandão, que assina os diálogos, o filme fala de uma história de amor e de ciúme entre um jornalista, vivido por Francisco Cuoco, e uma modelo, vivida por Marília Branco. Situado no mundo da moda, Anuska – Manequim e Mulher é uma estreia com estilo e que possibilita rara oportunidade de ver Francisco Cuoco no cinema, já que o ator retomaria sua carreira nas telas só a partir da década de 1990.

Francisco Ramalho Jr. ficaria quase uma década sem dirigir longas, pois foi a época barra pesada da ditadura militar, época em que trabalhou em outras frentes, como professor de física e diretor do Museu Lasar Segall. O retorno se dá com À Flor da Pele (1976), filme de sucesso e vencedor de vários prêmios – Melhor Filme, Melhor Atriz (Denise Bandeira), e Melhor Roteiro (Ramalho) no Festival de Gramado 1977, e Prêmio Especial Air France de Cinema 1976 para Denise Bandeira. O filme, baseado em peça de Consuelo de Castro, conta a tumultuada história de amor entre um autor de telenovelas, Juca de Oliveira, e sua aluna na Escola de Artes Dramáticas, Denise Bandeira. Em 1976, dirige também o episódio Joãozinho, do longa Sabendo Usar Não Vai Faltar, uma produção de Alfredo Palácios e Antonio Polo Galante.

Em 1978, Ramalho dirige o maior sucesso de sua carreira e, curiosamente, o único longa que não tinha produzido até então, O Cortiço. Adaptado da obra-prima naturalista de Aluísio Azevedo, O Cortiço é uma super produção para a época e bancada pelo produtor Edgar de Castro. O filme reúne nas telas um dos casais mais explosivos daquele momento, Betty Faria e Mário Gomes, que vinha da novela de sucesso Duas Vidas (1976/77), de Janete Clair, e de separação bombástica entre Betty e o diretor Daniel Filho. O Cortiço não tem a força do romance, mas conta com bom elenco – ainda tem Armando Bógus, Marcus Vinícius, Ítala Nandi, Jacyra Silva, Beatriz Segall, Zaira Zambelli, Sílvia Salgado; e belíssima música de John Neschling – a canção Rita Baiana na voz de Zezé Motta foi sucesso nas rádios.

Com Paula – A História de uma Subversiva (1979), Francisco Ramalho Jr. faz seu filme mais pessoal. Pela primeira vez escreve uma história original, o reencontro entre um arquiteto e seu antigo torturador na época da ditadura e as lembranças de um antigo amor morto pelo regime, e que tem muita a ver com a vivência de Ramalho – durante a ditadura ele foi preso duas vezes. O filme marcou também a primeira co-produção com a Embrafilme, que ainda fez a distribuição. Paula – A História de Uma Subversiva é protagonizado por Walter Marins – o arquiteto Marco Antonio e ex-professor da Faculdade de Arquitetura da USP -, Armando Bógus – Oliveira, ex-torturador e atual chefe do setor de entorpecentes da polícia -, Carina Cooper – Paula, líder estudantil que integra a luta armada -, Regina Braga – fotógrafa e esposa de Marco Antônio -, e Marlene França – professora infantil e ex-esposa do arquiteto. Quando a filha de Marco Antônio desaparece, ele reencontra seu ex-torturador, agora designado pela polícia para encontrar o paradeiro da moça. Esse episodio faz Marco Antonio relembrar o passado e seu caso de amor com Paula, líder estudantil caçada ferozmente por Oliveira. Paula – A História de Uma Subversiva é um bom filme, mas fracassou totalmente nas bilheterias.

Nos anos 1980, dirigiu o cultuado Filhos e Amantes (1981), produzido por Antonio Polo Galante. O filme conta o encontro em uma casa nas montanhas de vários personagens e as conseqüências que vão originar daí. Sexo, homossexualidade, drogas e amor livre em elenco com Lúcia Veríssimo, Denise Dumont, André de Biase, Nicole Puzzi, Hugo Della Santa, Rosina Malbouisson, Walmor Chagas e Renee de Vielmond. O outro filme da década é o sucesso Besame Mucho (1986), adaptado da peça homônima de Mário Prata. O filme conta, de trás para frente, a história de dois casais – Antônio Fagundes e Christiane Torloni, José Wilker e Glória Pires – desde a adolescência até a tumultuada vida de casados. Sucesso popular, Besame Mucho foi premiado no Festival de Gramado 1987, como Melhor Roteiro (Prata e Ramalho), e no Festival de Cinema Íbero-Americano de Huelva, Espanha, 1987, como Melhor Filme.

Depois de Besame Mucho, Francisco Ramalho fica longe da carreira de cineasta por quase duas décadas, retornando em 2006 com Canta Maria. Adaptado do romance Os Desvalidos, de Francisco J. C. Dantas, o filme conta uma história de amor e ciúme no nordeste povoado por cangaceiros e volantes. No elenco, Vanessa Giácomo, Marco Ricca, José Wilker e Edward Boggiss.

Além da carreira de diretor, Francisco Ramalho Jr. tem também importante carreira de produtor, não só de seus filmes mais de inúmeros outros cineastas. A parceria mais bem sucedida foi com Hector Babenco, que começou com o sucesso internacional de Babenco, O Beijo da Mulher Aranha (1985) – Oscar de Melhor Ator e prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes para William Hurt, além de outros prêmios na Noruega, Japão, Espanha e Estados Unidos. Ainda com Babenco, Ramalho produziu Coração Iluminado (1998).

Francisco Ramalho Jr. participou de várias produções, como produtor ou produtor executivo, de filmes como Os Amantes da Chuva (1980), de Roberto Santos; Das Tripas Coração (1982), de Ana Carolina; Cristina Quer Casar (2003), de Luiz Vilaça; Jogo Subterrâneo (2004), de Roberto Gervitz; O Casamento de Romeu e Julieta (2005), de Bruno Barreto; O Contador de Histórias (2009), de Luiz Villaça; e acaba de chegar sua nova produção aos cinemas, a volta de Arnaldo Jabor, A Suprema Felicidade.

Fontes:
Livros: Dicionário de Cineastas Brasileiros (Luiz F. A. Miranda), Dicionário de Filmes Brasileiros – Longa Metragem (Antonio Leão da Silva Neto)
Documentário: Francisco Ramalho Jr. (André Barcinski)
Sites: Mulheres do Cinema Brasileiro, Insensatez e IMDb

Filhos e Amantes

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Filhos e Amantes
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1981.

Por Sergio Andrade

O diretor Francisco Ramalho Jr. sempre demonstrou, desde seu primeiro longa, Anuska, Manequim e Mulher, um interesse especial na abordagem do universo feminino. Foi assim em Paula – A História de uma Subversiva, Canta Maria, e mesmo em À Flor da Pele e Besame Mucho. Não é diferente neste Filhos e Amantes.

O ponto de vista é feminino, narrado por Silvia (Lúcia Veríssimo), que desde o começo sabemos estar grávida do namorado Roberto (André De Biase), mas que reluta em revelar a verdade a ele, pois está em dúvida entre abortar e ter o filho. Os dois vão passar um feriado prolongado na casa de uma amiga dela, Marta (Denise Dumont), que mora com Bebel (Nicole Puzzi) e esta demonstra, pela fisionomia, não ter gostado nada da visita. As coisas se complicam com a chegada inesperada de Dinho (Hugo Della Santa), usuário de drogas pesadas e antigo amor de Marta (se separaram por ela ter abortado um filho que ele queria), e sua nova amiga Carminha (Rosina Malbouisson), um poço de insegurança. O tema da maternidade e seus dilemas perpassam toda a narrativa.

Entre caminhadas pelas trilhas da montanha e banhos de cachoeira pelados (filmagens realizadas em belas paisagens do Parque Nacional de Itatiaia e Agulhas Negras), Silvia terá um caso com Dinho, Marta outro com Roberto, Bebel sofrerá crises de ciúme, Carminha tentará o suicídio e sofrerá uma overdose, e todos passarão por momentos de tédio mortal. O encontro com um casal mais velho, Ruth (Renée de Vielmond) e Cláudio (Walmor Chagas), ex-exilado político sofrendo de um câncer terminal, servirá como uma lição de vida para esses jovens sem ideologia. E isso é importante, pois o filme retrata essa geração que cresceu durante a ditadura militar alcançando a maioridade no período de abertura política, estando bastante desorientados. O problema é que foi feito numa época problemática da produção cinematográfica do país, entre a decadência da pornochanchada e a dominação dos pornôs, e pouco antes da proliferação da AIDS e os cuidados com camisinha e agulhas descartáveis.

Produção de A. P. Galante, tem uma equipe técnica exemplar: belíssima fotografia de Antonio Luiz Mendes; cenografia e figurinos funcionais de Miqui Stedile; os cortes precisos do grande montador Mauro Alice e a música psicodélica, hipnótica, de Rogério Duprat, uma das melhores já ouvidas num filme nacional.

Mas é com os atores que o filme consegue criar empatia com o espectador. O elenco masculino (com direito a uma ponta muda do iniciante Paulo Gorgulho) é competente, porém são as cinco atrizes principais (Lúcia, Denise, Nicole, Rosina e Renée) que transmitem com beleza e talento os medos, certezas, alegrias e tristezas pretendidas pelo roteirista/diretor. Filhos e Amantes traça um belo retrato de uma época que não volta mais.

Paula – A História de uma Subversiva

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Paula – A História de uma Subversiva
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1979.

Por Marcelo Carrard

Um dos primeiros filmes que iniciaram uma filmografia sobre o Regime Militar no Brasil foi dirigido em 1979, por Francisco Ramalho Jr, Paula – A História de uma Subversiva. Essa produção da Embrafilme foi lançada ainda no governo militar, na época em que se iniciava a abertura política e se criava a Lei da Anistia. Sem usar as metáforas que os cineastas do Cinema Novo criaram para poder driblar a Censura, o filme de Ramalho fala claramente de subversão, tortura, terrorismo de maneira simples e objetiva, sem maneirismos, com um clima de profundo desencanto e com muita sensibilidade. O filme tem tintas autobiográficas, remetendo a fatos reais da vida do diretor, com mudanças de personagens. O grande confronto da trama é entre um antigo militante comunista, que procura a filha desaparecida envolvida com drogas, e que precisa da ajuda de um policial, no passado um famoso torturador do DOPS, que prendeu sua grande paixão: Paula, uma estudante de arquitetura que partiu para a luta armada.

As possibilidades desse confronto dos dois homens é muito bem explorada. Armando Bógus no papel do policial está perfeito, sem caricaturas. A bela fotografia de Zetas Malzoni é muito criativa, principalmente na composição das diferentes épocas em que o filme se passa. Malzoni colaborou com Ramalho em O Cortiço e fotografou clássicos do cinema brasileiro como Os Amantes da Chuva e Eles Não Usam Black Tié. É interessante de se perceber uma espécie de auto citação dentro da construção do roteiro. Assim como em Á Flor da Pele, filme anterior de Ramalho, existe uma turbulenta relação amorosa entre um professor casado e sua aluna, com conseqüências trágicas. A mesma relação se encontra no belo filme de Valerio Zurlini, A Primeira Noite de Tranqüilidade.

A sensação de melancolia, niilismo e desencanto aparece em duas frentes. Na amargura do professor que percebe que seus ideais políticos de nada adiantaram e na “Geração do Desbunde” retratada na figura da jovem esposa do professor, que vive a angústia da sexualidade livre e das drogas – no caso do final dos anos 70 e início dos 80, a cocaína. Ramalho antecipa nesse filme a sensação de derrota que as gerações politizadas sofrem hoje em um mundo em que esquerda e direita são apenas palavras e o que realmente comanda o mundo é o mercado financeiro globalizado. Uma ousadia para a época era mostrar as prisões políticas, a tortura, a retórica de esquerda, coisas nunca imaginadas anos antes por causa da rígida censura. Pouco tempo depois, com o filme Pra Frente Brasil, é que o cinema brasileiro expôs na tela as mazelas do Regime Militar, e mesmo sofrendo interdições da censura, pode ser exibido no Brasil e no exterior.

Mesmo com a forte sensação de desencanto expresso em Paula – A História de uma Subversiva, Ramalho optou por um final embebido em poesia na singela imagem da irmã de Paula diante do carrinho onde o pássaro tira a sua sorte. Seria uma pequena gota de esperança em um filme amargo, sombrio, mas de grande força dramática até hoje. Um clássico genuíno do cinema brasileiro.

O Cortiço

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

O Cortiço
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1978.

Por Andrea Ormond

Escrito em 1890, auge do chamado naturalismo brasileiro, o romance O Cortiço, do escritor maranhense Aluísio de Azevedo, significa bem mais do que pensam entediados estudantes secundaristas, normalmente fadados a lê-lo por obrigação curricular. Antes de ser vitrine morta, exemplo de tempo e pensamento ultrapassados, O Cortiço diagnostica muitas delícias e vícios brasileiros, bem mais até do que certas provocações revisionistas do século XX.

O filme homônimo, dirigido por Francisco Ramalho Jr., infelizmente não alcança a plenitude do livro, e pode-se dizer que, a exemplo de tantas outras adaptações cinematográficas, somente arranha a superfície do tema, como se realizasse em apanhado de imagens uma idéia geral da obra literária.

Vindo de um dos melhores exemplares do cinema setentista – À Flor da Pele (1976) – Ramalho nunca mais encontraria, como diretor, a força do embate entre o intelectual quarentão interpretado por Juca de Oliveira e a borderline patricinha incorporada por Denise Bandeira. Verdade que Filhos e Amantes (1981) e Besame Mucho (1986) são ótimos, porém À Flor da Pele indicava um artista nobre, em outro patamar de realização. Sair dessa tour de force para O Cortiço é algo que só um acidente pode explicar.

João Romão, personagem principal do livro e do filme, português avarento, dono da estalagem – cortiço para os detratores – amasiado com a negra Bertoleza (Jacira Silva), ganha tom simpático vivido por Armando Bógus. Romão é daqueles portugueses que prosperam na antiga colônia, às custas de desprendimento moral e crueldade. Dono também de uma pedreira ao lado do cortiço, o gajo sente inveja do patrício Miranda (Maurício do Valle), que compra um título de Barão e tem filha (Zaira Zambelli) em idade de casar.

O resto é o desfile – em baixa freqüência – dos arquétipos do livro. Rita Baiana (Betty Faria) rouba o galego Jerônimo (Mário Gomes) da mulher, e o envolve em uma briga por ciúme. Pombinha (Silvia Salgado), jovem que tinha dificuldades em menstruar, só vira “moça” depois de um gostoso tête-à-tête lésbico com a madrinha. Os “causos” se sucedem, embora tudo pareça levado a toque de caixa.

Apesar da precariedade, O Cortiço foi bastante caro para os padrões nacionais, e a reconstituição de época nem é das piores. Se até hoje sotaques e prosódias são motivos de chacota nas novelas da Globo, aqui o problema maior reside justamente na preguiça dos atores em falarem com gosto oitocentista. Zaira Zambelli, por exemplo, saiu direto de um chopp no Baixo Leblon para o século XIX.

Mário Gomes é o mesmo de sempre, e nem seu entendimento com Betty Faria – importado da novela das oito, Duas Vidas – funciona a contento. Ramalho poderia ter trazido Francisco Cuoco – que na novela fazia triângulo amoroso com a dupla – ou mesmo uma indefectível cenoura – mentira sensacionalista espalhada em 1977 contra Gomes, dando conta de que o galã viril curtia experiências sexuais pouco ortodoxas.

O pano de fundo do movimento republicano, da covardia escravagista – Romão falsifica carta de alforria para Bertoleza – e a óbvia metáfora da formação sócio-cultural do país no microcosmo da estalagem, de uma forma ou de outra sobrevivem na revisão fílmica. A montagem do grande Silvio Renoldi, a dedicatória a Lulu de Barros – quem primeiro adaptou O Cortiço para o cinema, nos anos 40 – e a trilha cantada por Zezé Motta melhoram o resultado.

Logo, se o leitor não tiver paciência com o livro, que assista ao filme. Mergulhando em platitudes que fariam Aluísio de Azevedo considerar dar uma mão no roteiro, o cortiço de Francisco Ramalho é curioso, bem-feitinho, porém tão pálido que desapareceu no tempo. Já o de Azevedo – falecido em 1913, o escritor não deve ter conhecido sequer D. W. Griffith – mantém calor inefável, o que prova ser a transposição entre artes uma tarefa dura, hercúlea.