Musas Eternas

Natalie Wood


Por Filipe Chamy

É difícil imaginar que com apenas quarenta e três anos de vida alguém pode ter conseguido incríveis trinta e sete de carreira. Também é de se espantar que uma existência tão repentinamente interrompida há trinta anos continua pulsando hoje em milhões de lugares mundo afora. O caso é que estamos falando da admirabilíssima Natalie Wood, morta em 1981 e no entanto mais viva do que nunca na televisão, nas mostras de cinema, nos produtos de home video. Sua celebridade continua tão firme quanto em sua época de maior notoriedade em vida.

O que poucos sabem é que a mocinha decididamente americana que encantou e encanta gerações décadas afora era, na realidade, de ascendência russa! Nem mesmo o macarthismo conseguiu se opor ao sucesso que era o destino e direito de Natalia Nikolaevna Zakharenko.

Começando ainda bem criança no cinema, a pequena Natalie conseguiu seu primeiro papel de destaque como a filha questionadora de Maureen O’Hara no clássico natalino De ilusão também se vive (ou, como hoje vem sendo mais fielmente traduzido, Milagre na rua 34). Sendo a verdadeira catalisadora da ação do longa, não é pouco para uma menininha salvar o Natal e um filme meio tendencioso na afirmação do American way of life.

Assim como Brigitte Bardot, Natalie Wood não foi nunca uma atriz imposta pela publicidade ou comcontatos facilitadores: durante anos e anos a jovem gastou seu talento em participações pequenas em seriados televisivos consideravelmente obscuros, filmes pouquíssimo ambiciosos e produções de luxo nas quais apenas era uma coadjuvante pouco importante — ou a leading lady quando moça. Dessa época, são os clássicos O fantasma apaixonado, Seu único desejo e O manto sagrado.

No meio da década de 1950 há a grande virada: seu decisivo encontro com Nicholas Ray, diretor-fetiche dos influentes críticos franceses que movimentariam o mundo do cinema pouco tempo depois, com a nouvelle vague. A obstinação de Natalie enfim é recompensada com um papel-chave em um filme que definiria certos rumos daquela geração: Juventude transviada. Na pele da rebelde Judy, demonstra que sua pouca idade (dezesseis anos) não era empecilho para seu desempenho dramático: o filme causa sensação, a crítica debruça-se sobre esse novo cinema que quebrava com os moldes clássicos do conservador star system hollywoodiano e Natalie consegue um impulso e tanto na carreira: é indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel.

Em 1956 dá-se o encontro com outro mestre das telas: John Ford. No seminal Rastros de ódio é Natalie quem faz a ligação entre o “civilizado homem branco” (John Wayne) e os “selvagens assassinos e amorais” (os índios). A jovem Debbie Edwards demonstra como essas convenções são estúpidas na real convivência dos povos, e como raças são totalmente inúteis para se definir caráter ou justiça. Ao final, é ela quem unirá de maneira um pouco esperançosa o conquistador e o conquistado.

Após mais um punhado de filmes, em que contracenava com figuras como Gene Kelly (Até o último alento), James Garner (Cash McCall), Tab Hunter (The girl he left behind), seu então marido Robert Wagner (All the fine young canibals), Tony Curtis e Frank Sinatra (Só ficou a saudade, drama romântico de guerra dirigido por Delmer Daves), Natalie Wood parte para a mais desafiadora, completa e autoral fase de sua filmografia, praticamente toda condensada nos anos sessenta.

Começando com o filme em que aparece mais linda, intensa e impressionante: Clamor do sexo,felicíssima parceria com Elia Kazan. Obra sobre decepções juvenis, ritos de iniciação na vida adulta, descompasso entre gerações, desabrochar sexual, chagas perenes e traumas profundos. No papel de Wilma Dean Loomis, Natalie provou definitivamente que era mais do que uma bela estrelinha de grandes olhos castanhos: era uma força incontrolável. Sua arrebatadora performance levou naturalmente à sua segunda indicação ao Oscar.

No mesmo 1961, outro grande sucesso: Amor, sublime amor. O musical dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, no entanto, hoje não é tão bom exemplo do “toque” mágico dessa garota baixinha de estatura (cerca de um metro e meio): como Maria, a porto-riquenha irmã do líder de uma gangue rival daquela em que está seu apaixonado, Natalie faz o que pode num musical meio engessado, arrastado, coreografado mecanicamente e com músicas pouco consistentes; seu sotaque algo deslocado é o maior charme do filme, e a maquiagem que a torna artificialmente morena não impede que sua figura destile graça e leveza a cada passo ou movimento. Sua Maria é, portanto, doce e verdadeira, num filme que a desperdiça de todas as formas, inclusive com Marni Nixon dublando sua voz em todos os números.

Em seu próximo filme, Em busca de um sonho, Natalie divide a cena com Rosalind Russell, fazendo a icônica Gypsy Rose Lee. Infelizmente o filme de Mervin LeRoy sofre de um academicismo tremendo, que torna o já longo filme uma estafante experiência. De positivo destacam-se duas coisas: Natalie canta com sua própria voz e despe-se com desenvoltura e sensualidade encarnando o tipo fatal da famosa stripper.

Nesta época consolida-se outra faceta pouco difundida de Natalie Wood: seu talento cômico. Atriz versátil, convencia em papéis trágicos e reais como em Clamor do sexo ou em delirantes screwballs como Médica, bonita e solteira (de Richard Quine), em que faz par com Tony Curtis e diverte-se como uma maluquinha inconsequente. Tipo que repetiria com certas mudanças em A corrida do século, de Blake Edwards, onde personaliza o protótipo da Penélope Charmosa dos posteriores desenhos animados da Corrida Maluca. É uma agradável surpresa vê-la tão descontraída, numa trama divertida em que prega o feminismo e ataca a dominação chauvinista da sociedade enquanto não traja nada mais que uma provocante lingerie — ilustrando um paradoxo que é meio o arquétipo da comédia: o choque entre duas realidades.

Ainda nesse produtivo decênio, Natalie fez dois filmes com o subestimado Robert Mulligan, autor de obras-primas como O sol é para todos e No mundo da lua. Pelo primeiro filme, O preço do prazer (ridícula tradução moralizante para Love with the proper stranger), foi indicada ao Oscar pela terceira (e última) vez antes mesmo de completar vinte e cinco anos (foi a mais jovem atriz a concorrer em cada uma de suas três indicações, aliás). Trata-se a princípio de uma dolorosíssima jornada empreendida por uma jovem confusa com a inesperada perspectiva da maternidade; ocorre que depois de mostrar o mais duro e real relato sobre o aborto e suas dificuldades e condicionantes, Mulligan não conseguiu resistir à imposição de amenizar o tom de um filme estrelado por Natalie Wood e Steve McQueen — resultado: o terço final do filme transforma-se sem explicação numa comédia romântica! O segundo filme que Natalie e Mulligan fizeram juntos foi À procura do destino, obra bastante irregular sobre uma garota adolescente marginalizada por uma vida rude e que de repente desponta para a fama (e depois não aguenta o baque). Novamente miss Wood é dublada nas canções. Curiosidade: o filme foi roteirizado por Gavin Lambert, que se tornaria amigo de Natalie e seu biógrafo.

Após filmar Os prazeres de Penélope, de Arthur Hiller, Natalie co-estrela com o ainda estreante Robert Redford (com quem havia já aparecido em À procura do destino) Esta mulher é proibida, hoje considerado um dos melhores filmes de Sydney Pollack. Com produção de luxo, Francis Ford Coppola sendo um dos roteiristas e Natalie belíssima num technicolor deslumbrante, o filme ainda hoje é forte em seu retrato de uma mentalidade conservadora no trato sexual, a hipocrisia interiorana que está bem longe de parecer simplesmente uma alegoria ou metáfora: nossos costumes não mudaram tanto. Mas o filme padece de uma evidente parecença com Clamor do sexo, e nesse embate certamente sai perdendo: Pollack fez um bom trabalho, mas com Kazan estamos diante de uma obra-prima.

O filme seguinte é o ainda controverso Bob & Carol & Ted & Alice, de Paul Mazurksy. A doce Natalie Wood dos draminhas açucarados dos anoscinquenta agora é uma mulher completa, que faz e pensa sexo, que existe em carne, que está disposta a esquecer convenções e se deitar com outro homem que não seu marido. Neste filme uma Natalie selvagem tira literalmente as roupas sociais e, de calcinha e sutiã, anuncia o que não deveria nunca ser chocante: cada um vive da maneira como bem entender, da vida privada ninguém deve prestar contas a outrem. Para demonstrar que não estava brincando, casa-se pela segunda vez, e com o marido Richard Gregson tem sua primeira filha, Natasha, hoje dedicada ao ofício da mãe, a atuação.

Após essa década, memorável em variedade e expressão, Natalie para. Desmotivada aparentemente pela fraca recepção a seus últimos esforços, praticamente se aposenta do cinema, e dali aos próximos doze anos (seus últimos com vida) aparece mais, com irregular frequência, em alguns projetos de televisão, como um episódio do seriado Casal 20 — estrelado por Robert Wagner, com quem volta a se casar e tem uma segunda filha, Courtney —, a minissérie A um passo da eternidade (revivendo o papel criado no cinema por Deborah Kerr) e Gata em teto de zinco quente, com ela e Wagner recriando os personagens de Tenessee Williams eternizados por Elizabeth Taylor e Paul Newman duas décadas antes. Para o cinema, sua filmografia se encerra com quatro fitas pouco elogiadas: Pepper (com Michael Caine), Meteoro (ficção científica de Ronald Neame, com Sean Connery), The last married couple in America (comédia com George Segal) e Projeto Brainstorm. Natalie morreu no meio da filmagem desse filme co-estrelado pelo amigo Christopher Walken, e apenas em 1983 (dois anos após seu falecimento) seus realizadores conseguiram lançá-lo, com grandes modificações.

Christopher Walken, por sinal, é um dos protagonistas do insólito drama que culminou na prematura morte de Natalie em 1981, aos quarenta etrêsanos. Até hoje ninguém sabe o que aconteceu no tal iate em que se deu o passeio e a fatalidade, quais as circunstâncias e as ações dos envolvidos; à boca miúda, corre o boato de que Natalie teria sido morta por Robert Wagner, enciumado das atenções dadas por sua esposa a Christopher Walken. A única coisa certa é justamente a pior possível: Natalie Wood morreu afogada. O horror é ainda maior quando se tem a certeza, em mil entrevistas e depoimentos, de que essa terrível morte sempre foi o maior medo de Natalie. Então por mais cruel e irônico que soe, Natalia Nikolaevna Zakharenko seguiu à risca o ditado: “quem nasceu para morrer afogado, não morrerá enforcado”.

Natalie Wood, por causa de sua horrenda morte, é em parte vítima da mesma maldição das pessoas célebres que morrem jovens: a perseguição à sua vida particular. Comenta-se seu caráter, suas decisões pessoais, seus namoros (com gente como Elvis Presley, Warren Beatty, Dennis Hopper e Nicholas Ray), seus casamentos, disseca-se sua intimidade e procuram com isso estabelecer conclusões. Nem as inúmeras biografias impressas ou filmadas (até Peter Bogdanovich entrou no filão e filmou A misteriosa morte de Natalie Wood) dão conta do óbvio: Natalie era Natalia, que era uma mulher como qualquer outra, com suas contradições e seus conflitos. Ocorreu apenas que o cinema e a televisão registraram momentos de brilho dessa vida, e eternizaram a imagem de uma jovem talentosíssima, linda e de grande carisma e presença. Mas apesar de ser simplesmente humana, Natalie Wood conseguiu concretizar um feito sobrenatural: trinta anos depois de se apagar, sua estrela nunca mais deixará de brilhar.

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