Entrevista: Júlio Calasso – Parte 4

Dossiê Júlio Calasso

Entrevista com Júlio Calasso
Parte 4: Anos 80, 90 e dias de hoje

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Por Gabriel Carneiro
Fotos: Pedro Ribaneto

Zingu! – Nos anos 80, você atuou em vários filmes paulistas que se tornaram significativos na história, como O Baiano Fantasma, Sargento Getúlio, O Beijo 2348/72

Júlio Calasso – Fiz todos os filmes do Waltinho Rogério, como ator: O Beijo 2348/72, Olhos de Vampa, e um média, A Voz do Brasil, em que ele faz um cineasta esperando o dinheiro chegar, é despejado, etc. A coisa que mais fiz no cinema brasileiro é vagabundo, ladrão, juiz, delegado e tira (risos). Todos os meus personagens são nessa área. É divertido pra caramba.

Z – Você ainda fez Real Desejo, Filme Demência e A Dama do Cine Shanghai. Como era atuar nesses filmes? Te davam direcionamento?

JC – Mais ou menos. O cara que me chamava pra fazer o papel já sabia quem era o Julio. Já tem isso, você sabe o caminho. Outra coisa: gosto de improvisar. Então o cara me fala qual é a situação e faço. Me dei bem e os caras gostam. Sou econômico, não enrolo muito e acabo ajudando o cara. Fiz os dois filmes do Tony [de Souza], que foi presidente do sindicato de trabalhadores. Fiz agora o filme do Toni Venturi, Estamos Juntos.

calasso-10A-300x168Z – Você chegou a ter algum problema em set, como ator, com algum diretor?

JC – Vários! (risos) Sou nojento. Mas tudo deu certo. Fiz muito filme de muito cara novo, que chega pra você e nem sabe o que dizer. Fiz um cacetão de curtas-metragens, que nem lembro mais. Só de alguns. Tem um filme, de uns 30 anos atrás, que minha amiga viu e me disse que falo uma das frases mais geniais do cinema brasileiro. “Essas coisas que você inventa na hora e depois não lembra mais”. Ela disse que falo no filme: “Pô, rapaz, se comesse todas as mulheres que minha mulher acha que como, e se fosse inteligente como minha mãe acha que sou, eu era dez.” (risos) Fiz um filme sensacional, em que briguei pra caralho com o cara, o Bernardo Vorobow, uma ficção, fotografada pelo Candeias. E o Candeias desgraçado colocava a luz na minha cara. Aquele foi um pau permanente. Filmei muito primeiros filmes, como o da Eliane Caffé.

Z – Você filmou o Filme Demência, do Carlão Reichenbach, em 1986, e o A Dama do Cine Shanghai, do Guilherme de Almeida Prado, em 1987. A Casa de Imagens é dessa época?

JC – Não. È de 1988, já tinha feito os dois filmes.

Z – Você poderia comentar seu projeto na Casa de Imagens, o Morre, meu Amor?

JC – Como não ia filmar, bolei esse Morre, meu amor, que não era nada. Meu projeto mesmo era o Ambição, uma ficção que quero fazer há 30 anos. A única pena é que quando bolei era um delírio antecipatório e hoje vira matéria de memória. Desse ponto de vista, tenha uma puta frustração. São 11 roteiros que não filmei. E as ideais estão aí, voando.

Z – Você foi chamado pelo Carlão para o projeto?

JC – Não, desculpa, bicho, mas eu é que chamei esses babacas. Morar no Rio foi minha salvação, porque a Casa de Imagens foi uma aventura terrível que tive aqui em São Paulo. Eu fui destituído da Casa de Imagens. Na calada da noite, saiu uma grana pra gente fazer dois filmes. De repente, recebo uma declaração de um advogado para aparecer numa reunião, para tratar dos meus interesses. Chego lá, estavam todos os bananas ali. O fantástico Andrea Tonacci, quando percebeu o movimento, saiu. Tirou o projeto dele, foi para Nova York e me mandou um cartão lindo – falando para me dedicar aos meus filhos, minha família. Não estava entendendo. Fui destituído. Foi um perrengue na minha vida muito difícil. A proposta da Casa de Imagens, que era minha, era absolutamente revolucionária e deu certo. A Conspiração é em cima desse modelo, a Casa de Cinema de Porto Alegre também, a Casa do Som, dos Saldanha.

Z – Como era esse modelo?calasso-8A-300x168

JC – Era o de uma grande cooperativa entre os seis em que cada um faria tudo. Nos dois primeiros filmes, eu e o Carlão [Reichenbach] não entramos para dirigir. Eu e ele seríamos os produtores dos caras. Fomos a única produtora que ganhou dois projetos. Quando apareceu a grana, o pessoal saiu fora. Tinha projeto, mas não entrei no concurso. Sinceramente, levantei a grana para desenvolvimento de projeto na Embrafilme. Ninguém acreditava. Fui pro Rio, levei essa ideia, quebrei a espinha do cara, ele deu a grana pra gente, e nós ganhamos o equivalente de 10 a 15 mil de hoje, para escrever o roteiro e o projeto. Contratamos assessores, fizemos um puta dum projeto. Nós víamos que a Embrafilme ia pro vinagre e precisávamos desenvolver outro modelo. Essa era a tentativa. E eu fui traído. Ponto final, não falo mais nada, mudando de assunto. Anos depois, ganhei um prêmio da Secretaria Municipal de Cultura, numa inflação de 3000% ao ano, sem correção monetária, pra fazer o Ambição. O José Antonio Garcia, cineasta e então presidente da APACI, achou aquilo uma baita sacanagem, falou com o pai dele, advogado, que representou a gente. Concluímos que deveria colocar o dólar como moeda de operação, porque era a única moeda estável. Concorri então a US$ 366 mil. Meu filme custava US$ 500 mil. Tinha a indústria todinha comigo, sempre fui organizador da velha indústria – os de hoje não sabem nem quem eu sou e é recíproco. A crise era grande. Entre o dia que lançou o edital e 45 dias depois quando fechou, a diferença caiu para US$ 297 mil. Quando foi feita a conversão, era US$ 170 mil. Eu recebi 70% de US$ 51 mil. Comprei os direitos, paguei os roteiristas, paguei os projetos. Não consegui fazer o filme, entrava ano e saía ano. Isso durou de 1992 até 1997. Em 1997, o Secretário, diante de uma série de informações nossas, mandou arquivar o processo. O único que conseguiu entregar o filme foi Ricardo Dias. Ele escreveu uma carta pro Secretário, dizendo que só conseguiu fazer o filme [No Rio das Amazonas (1994)] porque era sócio da Superfilmes, que assumiu produção, estrutura, etc. E ganhou o prêmio do Governo do Estado. O filme se passava no Amazonas, com três caras em cima de um barco, com o Paulo Vanzolini falando em off. O Galante não conseguiu fazer até hoje o filme do Ícaro Martins. Ele pegou o dinheiro e comprou gado, porque quando precisasse, teria o dinheiro valorizado. Era uma forma de proteger o valor do dinheiro e ainda assim não conseguiu. Tinha um babaca que trabalhava na Secretaria de Cultura, que inclusive havia sido mandado embora pelo Secretário que assumiu. Três pessoas haviam sido mandadas embora: Jairo Ferreira, Plácido Campos, e esse cara. Depois fiquei sabendo que fui processado por esse cara, a mulher dele era secretária do Guilherme Lisboa na Embrafilme, minha amiga. O cara entrou numa história que eu estava comendo a mulher dele. O ser humano é um bicho filho-da-puta, por isso vamos desaparecer da Terra. Fui condenado à revelia, sem saber. Não existe recurso, só tenho que pagar. Sou condenado eterno, para pagar um dinheiro que não recebi. Pegaram meu carro, ficam vasculhando minhas contas bancárias. Querem R$ 700 mil, que é pra pagar os US$ 366 mil, que não me deram, corrigidos no valor de hoje (risos). Conclusão: nada no meu nome, saí da firma. Mas tem já dois concursos que perdi por causa disso. Sempre tem um filho-da-puta que fala: ele não entrega o filme. Quem me contou isso foi o Mário Prata, que estava num júri. Disse que estava na lista pra ser o 10º a receber o prêmio. Começaram a falar que não entrego, fui pra 11º e só 10 ganhavam. De vítima me transformei em culpado. Mas tenho a consciência tranquila, porque nada devo.

Z – Quando que foi pro Rio de Janeiro? Foi fazer o que lá?

JC – Fui pro Rio de Janeiro, no dia 19 de março de 1998, contratado para formatar um projeto para a Fox americana. Formatei um projeto de capoeira, que acabou virando esse Besouro. Revi Antônio Pedro, Ricardo Petraglia, que tinham um trabalho maravilhoso, num grupo de teatro que estava parado. Dei sorte. Fiz várias sugestões. Tenho quatro filhos, estava com 25 anos de casado – um ano depois não daria mais. Queria começar de novo, eram doze anos de sofrimento. Meus filhos sofreram muito por causa disso. Hoje, eles são meus parceiros. Eu diria que eles me perdoaram. No Rio, minha vida nasceu de novo. Produzi 17 espetáculos pelo CETE [Centro Experimental Teatro Escola]. Criei aquele troço com aquele bando de gente, fizemos umas coisas loucas. Fizemos uma Electra, do Sófocles, na Mangueira, que se transformou numa ópera popular brasileira, colorida, multirracial, doida, com músicas extraordinárias. Vocês já ouviram o Seu Jorge falar que há alguns anos estava destruído, o irmão dele havia sido morto, estava jogado debaixo de um teatro e foi um pessoal e lhe perguntou se não sabia fazer nada? Ele disse que sabia tocar violão, então lhe responderam: vem tocar violão com a gente. Esses caras fomos nós. Ele e mais um cacetão de gente. Minha vida ali floresceu. Comecei a recuperá-la. Lá, trabalhando feito um doido, em três trabalhos, fazendo uma coisa que não faço que é beber, queimando fumo, trepando como um louco, tive um AVC, caí duro no meio do salão. Aí, três meses depois, o Plínio morre. Éramos muito amigos dele e fizemos um espetáculo em homenagem a ele, no porão da Fundição Progresso, na Lapa. Achava que ele era um cara natural-realista. Esses caras me mostraram a tragédia dentro das peças do Plínio, coisa que nunca tinha visto. Era um troço doido pra caralho. Navalha da Carne tinha dois elencos ao mesmo tempo, por exemplo. Perdeu todo o realismo e virou uma puta de uma alegoria. Eu choro. Comecei a fazer esse Plínio, desde 1999. Tenho várias montagens. Outra coisa que me salvou foi a VX 1000, uma camereta, que me permitia colocar no automático – porque não sou fotógrafo, mas sou maluco -, e fui criando uma história. Gravei 150 horas ao longo de sete anos, sem tripé, sem fotômetro, sem nada, de espetáculos, produções, processos, e de como isso tudo se desenvolveu. Tenho três documentários prontos [O Incrível Encontro, Electra na Mangueira e Electra no Municipal], que passaram na TV Cultura, TV Brasil, SescTV, etc. E tenho dois em pré-edição. Quero fechar esse pacote, uma caixa com cinco, em que fiz tudo sozinho. De vez em quando, pedia prum cara ficar com uma câmera lá em cima. O processo de trabalho do grupo me ajudou a fazer esses trabalhos, porque todo mês é um troço doido, 80, 100 pessoas, jovens de setores mais marginalizados da sociedade, misturados com a classe média que vem de Ipanema.

Z – O filme sobre o Plínio Marcos que você está fazendo, Nas Quebradas do Mundaréu, é nessa pegada também?

JC – Comecei nessa pegada. Tenho muito material em mini-DV. Mas quando saquei que queria mesmo fazer o filme, comecei a gravar mais espetáculos. Embora não seja o fundamento do filme, não dá pra fazer um filme de um dramaturgo da importância do Plínio sem mostrar os espetáculos. Quando comecei a editar o filme, descobri que a Rain Network, que tem um sistema B de exibição digital, não exibe mais [a janela] 4X3. Foi aí que entrou meu filho Pedro, começamos a pesquisar qual era a linguagem. Já tenho um bom tempo de filme. Acho que já sei pra onde ir, depois de uns 7, 8 meses em que fiquei no maior vazio. Tenho 70 anos, não sou mais moleque, por isso foi mais dolorido. E o editor, um cara premiadíssimo, me largou, por conta dessa questão. Trouxe ele ao projeto justamente porque achei que ia quebrar meu galho no digital, eu, que sou um cara analógico, apesar de editar desde 1997. Fiz cinco documentários para uma produtora paulista. Mas é muito louco isso. Por exemplo, o cara me sugeriu: vamos colocar uma fusão? Eu respondi desesperado: não! Por quê? Pra fazer uma fusão, precisava levar o negativo numa empresa chamada Truca, marcar com barbante onde começava e onde terminava a fusão, e depois de quatro dias ia lá buscar. Aí ele fez a fusão em cinco comandos, super rápido. Comecei a ver o fascínio pelo negócio. Agora é terminar o filme.

Parte 3

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