Reflexos em Película

Por Filipe Chamy


Um filme inteiro em (odiosos) minutos

O assunto de que tratarei nesta coluna pode parecer tremendamente fútil. Mas cinema ainda é, para a maior parte das pessoas, a arte fútil por excelência. Quantas pessoas enrubescem ao falar de suas poucas leituras e não se constrangem minimamente ao taxar filmes de “passatempo” e “entretenimento”, diversão para “quando não se tem nada de melhor ou mais útil para se fazer”?

Posta a ressalva, vou direto ao ponto: trailers. Sem dúvidas uma das coisas mais lembradas pelo público em geral, sendo exibidos nas redes sociais e de computadores, nas televisões e cinemas, até mesmo em ônibus e celulares. Mesmo quem não vê filmes com frequência esbarra fatalmente nesses pequenos “mostruários” de obras cinematográficas.

Mas aonde quero chegar? O caso é simples: trailers são um mal a se combater. Não que não existam bons produtos, mas eles são uma exceção tão mirrada que nem chega a contar. É como tiras de jornal que não são cômicas, ou filmes mudos — ainda há alguns poucos praticantes dessas atividades (como o recente sucesso do longa O artista demonstra), mas é algo tão absurdamente ínfimo em quantidade que a coisa chega a ser mesmo irrisória.

Quando eu vou ao cinema gosto de saber o mínimo possível do filme. Não leio sinopses ou críticas antes de assistir à obra e tampouco pesquiso informações muito aprofundadas sobre elenco ou o que seja. O último filme que vi no cinema em 2011, por exemplo, foi Românticos anônimos, e o vi simplesmente porque sabia que Isabelle Carré estava nele; não conhecia patavina da “história”, não havia visto outros filmes do diretor etc. Cinema é um pouco descobertas e surpresas: conhecer tudo de antemão pode ser um pouco maçante e até contraproducente, diminui o impacto e a intensidade de certas coisas.

E os trailers com isso? Bem, basta ir a um cinema e conferir: dificilmente um trailer não será um resumo “spoilerento” da trama do filme. Uma grotesca e capenga condensação de tudo que ocorrerá no tal filme. Um exemplo recente é O último dançarino de Mao. Quem não quiser ver o filme, pode muito bem ter uma ideia aparentemente bastante fiel do longa vendo os dois ou três minutos de seu trailer oficial. Tudo está lá: o mote, os conflitos, as resoluções.

Noto esse fenômeno desde aquele O golpista do ano. Percebi que seu trailer tinha uma duração absurda e resumia o filme de cabo a rabo. Qual o propósito de uma ação dessas? A mim, isso me desmotiva completamente, chega a tirar qualquer vontade ou pretensão de eventualmente ir conferir o tal longa. Não sei se atiça a curiosidade de alguém, mas sinto muito a falta de trailers criativos como os que Alfred Hitchcock fazia, em que explorava a linguagem dessa mídia e suas possibilidades. Quem conferir os trailers de filmes como Os pássaros, Frenesi, Psicose ou Festim diabólico há de se maravilhar com tanta engenhosidade, perpétuo maravilhamento que não morre nem depois de se ver realmente os filmes.

Eu faço o possível para burlar esse irritante descontentamento advindo da sensação de ser enganado: pulo o máximo de trailers possível. Não confiro na internet, não presto atenção quando os vejo no cinema, pulo sempre que posso nos DVDs. Não é preciso uma enorme força de vontade: eles não são necessários a ninguém e não farão falta senão aos viciados — que, como todos os viciados, necessitam evidentemente de tratamento.

Portanto, minha dica aos interessados é: procurem também boicotar essa prática nefasta, esse spoiler “oficializado”, essa mania de estragas prazeres. Trailers não podem se resumir a resumos dos filmes, como a crítica cinematográfica não se resume a sinopses.

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