KHOURI por Renato Luiz Pucci Jr.

Dossiê de Aniversário: O Autor – Walter Hugo Khouri

 

KHOURI

Por Renato Luiz Pucci Jr.

Walter Hugo Khouri (1929-2003) foi o cineasta brasileiro com características autorais a dirigir o maior número de filmes: vinte e seis, contando As Cariocas (1966), de que assinou um dos três episódios. À vista das condições em que desde sempre se fez cinema neste país, ter criado uma filmografia desse porte constitui uma façanha, ainda mais que há nela algumas obras-primas a marcar a história do cinema brasileiro. 

Conheci Khouri pessoalmente em 1989, num restaurante em São Paulo, quando sua carreira como diretor já contava 38 anos, desde que começara o primeiro filme, O Gigante de Pedra, ainda bem jovem. À época de nossa primeira conversa, ele acabara de realizar Forever, enquanto eu era um admirador de seu trabalho. Desde há alguns anos, seus filmes me intrigavam por diversos motivos, a começar do caráter filosófico que eu pressentia em Estranho Encontro, Noite Vazia e outros títulos, mas que eu, assim como a crítica especializada, nunca conseguia definir com precisão. 

Dois anos depois, reapresentei-me a Khouri, dessa vez como pesquisador, pois planejava uma dissertação de mestrado sobre seus filmes. Mais uma vez recebeu-me com excepcional cordialidade (diga-se de passagem, comportamento bem diferente de outros diretores brasileiros que, segundo relatos de meus colegas, tratam pesquisadores com arrogância e absoluta falta de boa vontade). Khouri não apenas me presenteou com cópias em VHS de seus filmes mais raros, como também me entregou uma pilha de xerox de críticas aos seus filmes. Diante desse material crítico, julguei que minha pesquisa já estava com meio caminho andado; entretanto, já em casa, bastou-me uma leitura rápida daqueles textos para descobrir que eram todos críticas favoráveis aos filmes. 

Walter Hugo Khouri e Renato Luiz Pucci Jr.

Críticas elogiosas, por mais relevantes que sejam para a manutenção do nome do cineasta, pouco me diziam. Parecia que, em geral, por trás dos adjetivos quase nada se alcançava em termos de entendimento de narrativas que, na melhor das hipóteses e em apenas alguns casos, eram simples apenas na aparência. Bem mais me motivavam e faziam-me refletir os ataques injustificados aos filmes de Khouri, ou o seu esquecimento, como em Brazilian Cinema, publicado nos Estados Unidos em 1982 e reeditado em 1995: um livro de quase 500 páginas, escrito por brazilianistas, somados à fina flor da academia brasileira e a diretores cinemanovistas, que continha sobre Khouri tão somente cinco linhas depreciativas. 

Minha pesquisa, portanto, seguiu pelo caminho de tentar definir em que consistia o caráter filosófico de seus filmes, traço reconhecido tanto por críticos favoráveis quanto por alguns seus piores desafetos: “filosófico” era um atributo que servia tanto para elogiar quanto para denegrir, porém nunca se especificava em que consistia essa filosofia dos filmes. 

O meu ponto de partida era o mundo de aparências do segundo longa de Khouri, Estranho Encontro (1958), em que nenhum personagem ou situação era realmente aquilo que parecia à primeira vista. Parecia-me que a combinação desse aspecto com uma tonalidade algo expressionista dava ao filme um caráter metafísico. Outras realizações dessa primeira fase do cineasta, Na Garganta do Diabo (1960) e A Ilha (1963), embora com composição bem menos sugestiva, de fundo histórico o primeiro, em ambientes mundanos o segundo, afiguravam-se como um prolongamento daquele jogo de aparências que encontrara no filme anterior. 

Noite Vazia, de 1964, era a primeira obra excepcional e, ao mesmo tempo, a possibilidade de um encaminhamento na investigação. A história dos dois executivos na noite paulistana, à caça da mulher superior, que acabam com duas garotas de programa em um clima de angústia existencial, oferecia os mais interessantes elementos para a caracterização de uma certa concepção de mundo. Tais elementos não se encontravam nos diálogos, pois os personagens nada tinham de consciência filosófica, perdidos que estavam em interesses banais; era na constituição audiovisual que apareciam sinais de que a narrativa se organizava segundo uma visão específica. O súbito close na expressão de angústia existencial do mais fútil dos personagens, interpretado por Mario Benvenuti, fazia pensar que algo além da trivialidade fundava aquele universo. Outro tanto sugeria a saída, ainda que efêmera, encontrada pelos personagens de Gabriele Tinti e Norma Bengell, que numa relação sexual mesclada à transcendência pareciam se elevar além na banalidade cotidiana. 

Diante desse quadro complexo e ainda indefinido, formado pelos primeiros filmes do cineasta e por sua obra mais famosa, Noite Vazia, era preciso encontrar uma metodologia que condensasse as pistas que se apresentavam no restante da obra de Khouri. Apostei na investigação em torno do mais famoso personagem khouriano, Marcelo, que aparece em dez de seus longas-metragens, de As Amorosas (1968) a Paixão Perdida (1999). Eu suspeitava que acompanhar a existência de um personagem em vários filmes poderia resultar num esclarecimento decisivo acerca de como a existência tinha sido concebida na criação daquele mundo ficcional. Ainda assim, dez filmes eram demais, com suas dezenas de personagens relevantes, centenas de cenas, incontáveis situações, diálogos e demais componentes fílmicos. Optei então por dois filmes. Em primeiro lugar, Eros, o Deus do Amor (1981), cuja narrativa cobre quase toda a vida de Marcelo, dos primeiros anos de vida às portas da velhice. Na infância, foi representado por atores mirins de aparência adorável, ao passo que na idade adulta apresenta-se com características que outros personagens depreciativamente definem como “cara de nada”, “cínico” e expressões afins. Houve um momento em que o personagem mudou de cara, o que, em outras palavras, significa que ele incorporou o cinismo e a negatividade que depois lhe foram atribuídos. Esse período de transição, a juventude, estava em As Amorosas. As experiências que vive quando jovem levam-no às características da fase adulta, apresentada de forma ampla em Eros, o Deus do Amor. Por conseguinte, As Amorosas e Eros seriam os filmes em que a pesquisa se basearia, esperando que, a partir deles, fosse possível um esclarecimento sobre aspectos obscuros ou ambíguos do restante da filmografia. 

Desse percurso, foi possível inferir uma concepção de mundo radicalmente pessimista, em que cada uma das esperanças comumente acenadas tanto à humanidade quanto a cada indivíduo se mostram meras ilusões a esconder uma realidade mais terrível, sem sentido: o vazio completo da existência. Mesmo a sexualidade, que em tantos filmes de Khouri parece o caminho para uma felicidade superior, se revela apenas um meio destinado ao fracasso. É o que se vê nos dois filmes analisados, além de Noite Vazia e, com maior ou menor clareza, no restante da filmografia de Khouri. A tentativa da pesquisa era a de associar o pessimismo dos filmes ao pensamento de Schopenhauer. De fato, trechos substanciais das narrativas podem ser relacionados com textos daquele filósofo alemão do século XIX. Não que Khouri tenha sido um mero seguidor do filósofo, mas que, acredito, ele se tenha apropriado de elementos de sua filosofia para compor os filmes (assim como Freud, segundo seu próprio relato, se baseou no mesmo Schopenhauer para fundamentar a teoria psicanalítica, por sinal também presente na filmografia khouriana). 

Numa das muitas entrevistas que Khouri me concedeu, encontrei na sua biblioteca um exemplar de O Livre Arbítrio, de Schopenhauer. Indagado a respeito, ele me disse que o livro era um de seus favoritos, que o relia desde a juventude e que, a cada nova edição, presenteava os amigos com um exemplar. De fato, nos seus filmes sempre surgia a imagem tipicamente schopenhauriana do ser humano tomado por uma vontade infinita e insaciável, ao mesmo tempo em que se prendia às engrenagens que compõem o universo físico e social. 

Provavelmente, esse sombrio olhar para a existência constituiu um obstáculo para a devida apreciação da obra do cineasta. Entretanto, é lícito indagar se é preciso ser kafkiano para estudar Kafka ou gostar de suas obras. Outro tanto não poderia ser dito sobre apreciar qualquer outro escritor ou artista que não exale otimismo ou confiança no futuro? 

De qualquer modo, pesquisadores de várias partes do Brasil, do Piauí ao Rio Grande do Sul, têm-se voltado nos últimos anos para os filmes de Khouri. Com certeza ainda há nestes muito a ser conhecido. Análises e exames em torno de outros aspectos, além do filosófico ou ainda sobre ele, têm tudo para mostrar a sua densidade e importância artístico-cultural.
 

Renato Luiz Pucci Jr. é autor do livro O Equilíbrio das Estrelas: Filosofia e Imagens no Cinema de Walter Hugo Khouri e professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba.

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