Atração Satânica

Dossiê Ênio Gonçalves

 Atração Satânica
Direção: Fauzi Mansur
Brasil, 1989.

 Por Ronald Perrone

Em determinado momento de Atração Satânica, o policial interpretado por Claudio Curi solta uma daquelas, Now I don’t understand anything!, o que significa muito para esta fita dirigida por Fauzi Mansur. Primeiro, a frase está em inglês – poderíamos ter utilizado qualquer outro trecho para ilustrar este detalhe, o filme inteiro é falado nesta língua. Trata-se de uma produção nacional realizada para o mercado internacional direct to video, que ao final dos anos 80 encontrava-se em expansão. E segundo, demonstra o samba do crioulo doido que é este “horror movie” à brasileira. Não é apenas o personagem que não consegue entender direito o que se passa, mas também o espectador que se vê diante de um filme sem pé nem cabeça. 

No entanto, um filme desprendido de toda a coesão narrativa dá lugar a uma pérola do horror cheia de acertos em termos de liberdade criativa. Atração Satânica é caucado em clichês exaustivamente explorados no cinema de horror americano do período, mas não são poucas as sequências que remetem a um terror puro, atmosférico e que impressiona o olhar, seja no quesito estético, como no ritual de magia negra que abre o filme, ou até mesmo nos momentos onde Mansur resolve ser extremo graficamente, criando o choque visual com cenas de gore, sangue e tripas jorrando para todos os lados. 

Um casal de irmãos, ainda criança, no tal ritual que acontece logo no início, é imolado ao demônio pelos seus pais. Alguns anos mais tarde, em um pequeno balneário, a radialista Fernanda (a uruguaia Gabriela Toscano) apresenta um programa diário contando histórias de terror, mistério e morte. Curiosamente, uma série de assassinatos começa a acontecer exatamente da mesma maneira com a qual Fernanda narra o seu programa, chamando a atenção da polícia e trazendo à tona a velha história local das duas crianças oferecidas ao tinhoso em ritual satânico. 

Ênio Gonçalves surge em cena como o capitão Lionel, que ajuda a polícia a desvendar o crime e serve também de par romântico para a protagonista. É provável que seja o único desempenho digno do filme, seu personagem é bem construído e possui certo carisma. Os outros atores se esforçam, mas é difícil engolir o nível das atuações com a dublagem em inglês. 

Deixando de lado alguns problemas de roteiro e elenco, Atração Satânica faz uma boa mistura explorando o subgênero de terror com rituais de magia negra – sem deixar-se transparecer folclórico e regionalista – com o slasher americano e todos os seus elementos manjados. A sequência perto do fim, em que o serial killer faz uma carnificina com suas últimas vítimas, perfurando, desmembrando e decapitando visceralmente, é um belo exemplo da capacidade criativa de Mansur em criar este tipo de cena e que não fica muito a dever aos concorrentes americanos.     

O grande problema é que Atração Satânica ficou datado, envelheceu muito e perdeu o espaço para o público atual, acostumados com o horror enlatado e sem personalidade que invade as nossas salas de cinema. Em 2009, durante uma sessão do Cinefantasy, festival de cinema fantástico, Atração Satânica foi motivo de gargalhadas do público presente. Realmente o filme se leva a sério demais e concordemos que não é nenhuma obra prima definitiva do gênero no Brasil, mas por diversos aspectos possui potencial para ser um respeitado exemplar do horror feito por aqui. 

Ronald Perrone é pesquisador de cinema classe B, colabora com o blog O Dia de Fúria (http://diadafuria.wordpress.com/) e edita o blog Dementia 13 (http://demmentia13.blogspot.com/).

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