7 Dias de Agonia (O Encalhe)

Dossiê Ênio Gonçalves

7 Dias de Agonia (O Encalhe)
Direção: Denoy de Oliveira
Brasil, 1982.

Por Adilson Marcelino

Em seus 65 anos, Denoy de Oliveira (30/10/63 – 4/11/98) dirigiu apenas meia dúzia de filmes. Uma injustiça, pois deveria ter tido oportunidade de dirigir muito mais filmes. Foi grande cineasta, tem uma obra importante, ainda que pouco lembrado e reverenciado.

Amante Muito Louca (1973) e O Baiano Fantasma (1984) são seus ótimos filmes mais conhecidos. Mas um lugar especial está reservado para esse surpreendente 7 Dias de Agonia (O Encalhe), que mesmo que tenha abiscoitado vários prêmios – Air France, Festival de Gramado, Governador do Estado de São Paulo, Festival de Havana – ainda está por ser descoberto pelo público.

O filme é uma adaptação do conto Encalhe dos 300, de Domingos Pellegrini Jr, em roteiro assinado pelo próprio Denoy.  Na trama, caminhões ficam atolados em uma estrada de terra que se transforma em puro lamaçal por causa de uma chuva torrencial e sem tréguas. A partir daí, outros veículos também ficam encalhados, entre eles uma kombi que transporta religiosos, um ônibus com vários passageiros, um furgão com uma trupe de circo e um criador e seu cavalo.

Essa geografia torna-se perfeita para comerciantes paupérrimos que levam suas mercadorias para vender  e explorar os desafortunados; para putas velhas de guerra que sangram até o último trocado; e até para uma improvável apresentação circense.

O roteiro de 7 Dias de Agonia é notável, pois  desenvolve diferentes matizes de personagens, que têm que se confrontar com seus dramas em meio a uma natureza hostil e a fome que os assolam. Daí, nada do romantismo da vida de caminhoneiro na canção do Rei Roberto, ou mesmo nos dilemas vencidos em nome de uma fidelidade de amigo de Jorge, Um Brasileiro. Aqui o buraco é muito mais embaixo.

Temos o nordestino que faz da estrada nova expressão da condição de retirante; o estudante que encontra o revide do desbunde; o casal que se desmorona a olhos vistos; a freira que encara sua vocação; os pais de família que mal convivem com suas proles; o velho rico que baba e oferece presentes para a mocinha; os veteranos da estrada que riem e choram das desgraças suas e alheias.

Para compor sua fauna de personagens, Denoy se valeu de um elenco numeroso e afinado. São muitos os destaques, mas como não ressaltar a dupla de putas vivida por Ruthinéia de Moraes – Melhor Atriz Coadjuvante em Gramado – e Liana Duval; e Ênio Gonçalves como o caminhoneiro que tem a perna esmagada logo no início do filme, e que durante a trama arde em desejo e amor pela freira, enquanto sua perna apodrece. Grande filme.

 

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