Nossa Canção

Hinos em “Moscou”: o canto do acaso

Por Ursula Rösele

Há dois anos Eduardo Coutinho dirigiu Moscou; obra que instigou público, crítica e academia pela sua inventividade, estranheza, rigor, complexidade, imensidão de possibilidades de teorização, reflexão e certamente muito incômodo. Após Jogo de cena, filme no qual o diretor transitou em um espaço teatral e trouxe atrizes para a cena documentária, muita expectativa tomou conta daqueles que aguardavam sua próxima criação.

Coutinho propôs um peculiar exercício aos integrantes de teatro do Grupo Galpão, de Belo Horizonte: em um período de três semanas o diretor registraria um ensaio para uma peça que não estrearia (ao menos até o lançamento do filme). Os atores poderiam escolher um diretor de teatro que os auxiliaria no processo, com o detalhe de que eles só saberiam o texto no primeiro dia de filmagem.

O resultado é um instigante híbrido entre cinema e teatro, documentário e ficção e uma gama enorme de apreensões possíveis para essa experiência. O profissional escolhido para trabalhar com o Grupo Galpão foi Enrique Diaz, ator e diretor de teatro que comandou por dezoito anos a Cia dos Atores. Em seu trabalho, de acordo com o professor e pesquisador José da Costa, Diaz frequentemente lida com “o questionamento da presença, a desmaterialização do real, a ironia em relação a qualquer noção de autenticidade e de verdade”.

Articulação curiosíssima essa de Coutinho: ele, um dos principais documentaristas brasileiros, se uniria a um diretor de teatro e a um grupo teatral cuja origem é o teatro popular e de rua para registrar um ensaio de duração bastante curta da peça As três irmãs do dramaturgo russo Anton Tchecov. De mais de cem horas de filmagem o diretor extraiu cerca de setenta e oito minutos de imagens. Jordana Berg, montadora dos filmes de Coutinho há doze anos, assumiu a árdua incumbência de articular, junto ao diretor, todo esse compêndio.

Moscou, terra natal dos personagens de As três irmãs, é o lugar inalcansável que Diaz, Coutinho e os atores do Galpão buscarão, cena a cena. De acordo com Coutinho, em entrevistas posteriores ao lançamento do filme, ele se ausentou ao máximo do processo de direção de Diaz, na tentativa de atingir sabe-se lá o quê. Após uma crise pós-filmagens, Coutinho buscou ajuda para descobrir se havia filme ali. Desse pequeno caos surge Moscou.

Apontar uma cena emblemática nesse filme é tarefa, se não impossível, provavelmente tola. Fugir dos emblemas, pois, e buscar uma sequência, impressionante, na qual todos os elementos pareceram se unir: teatro, cinema, palco, câmera, Tchecov, Galpão, Coutinho, Diaz e a vida do lado de fora dali. Primeiramente, um passo anterior, para que se possa refletir (na medida do possível) essa sequência.

A peça As três irmãs é dividida em quatro atos. As irmãs são Irina, Masha e Olga. Elas vivem com o irmão, Andrei, em uma cidade no interior da Rússia e passam seus dias ansiando retornar a Moscou. Este desejo não se concretiza e as personagens, como na maioria das criações de Tchecov, são abandonadas pelo autor, que encerra a narrativa e as deixa em um território do inacabado. Em sua única aparição em Moscou Coutinho comenta com os atores que deseja esse inacabamento próprio de Tchecov. Eles não teriam tempo de ensaiar todos os atos, portanto, trabalhariam com fragmentos da peça.

Após uma longa sequência em que é registrado o intervalo para o lanche, um dos atores diz: “Irina, olha o que eu trouxe para você”; e mostra um peão. Todos eles se dirigem de volta ao palco com vários peões e se dispõem em uma espécie de círculo ao redor dos objetos. Daí se inicia uma sucessão de situações em que o acaso encontrará o texto de Tchecov, o cinema abraçará o teatro e os atores se fundirão em dois: personagem e indivíduo.

Enquanto rodam os peões, a atriz Fernanda Viana, agachada, os observa atentamente. De repente ela começa a cantar uma antiga canção de ninar, ao passo que todos os atores a acompanham: “Minha mãe mandou-me à venda; comprar um vintém de pão, é de noite, está escuro; tenho medo do papão”. O operador de câmera, então, inicia lentamente uma aproximação da atriz através de um movimento de zoom in.

Na faixa comentada do DVD de Moscou, Enrique Diaz comenta seu trabalho com os atores no filme. Ele diz de sua releitura dos procedimentos de “memória emotiva” de Stanislavski. A partir de fotografias pessoais dos atores, do compartilhamentos de experiências entre eles, Diaz buscou trabalhar a memória da seguinte maneira: ao trazer a experiência individual dos atores para o terreno do ensaio, o diretor permite uma espécie de atualização da situação que o texto teatral propõe (de acordo com suas palavras). Dessa forma, pode-se articular uma instância pessoal à instância da fábula.

Nessa sequência podemos vislumbrar esse procedimento de maneira singular. No fragmento da peça que os atores trabalham na cena, Masha, a personagem que Fernanda Vianna interpreta, está inquieta na casa e chora.

No período em que essa sequência foi filmada, a mãe da atriz Fernanda Viana estava hospitalizada. Ela interpreta nessa cena uma personagem que está triste no texto de Tchecov e escolhe uma canção de ninar do folclore nacional para pontuar aquele momento. À medida que todos cantam, ela começa a chorar e a câmera se aproxima ainda mais de seu rosto. A atriz Teuda Bara se acerca de Fernanda e a aconchega. Quando a câmera se afasta notamos que todos os atores saíram do palco e restaram apenas as duas.

Elas se levantam e Fernanda se assenta em uma cadeira. As atrizes Simone Ordones e Inês Peixoto, de mãos dadas, se aproximam em silêncio e sentam a seu lado ao redor da mesa. Simone (interpretando Irina) pergunta a Fernanda: “Masha, você lembra de um hino que o papai cantava?”. Ali estão, portanto, três atrizes, mas também, três personagens – todas misturadas de maneira praticamente irreversível. Além disso, os atores do Grupo Galpão mantêm uma forte relação de amizade há muitos anos e isso também se reflete em “Moscou” como um todo e nessa sequência de forma intensa.

Quem traz uma canção agora é Simone (ou Irina, ou ambas). Ela canta a canção Feliz Aniversário, de Villa Lobos e Manuel Bandeira: “Saudamos o grande dia; em que hoje comemoras; seja a casa onde mora; a morada da alegria; o refúgio da ventura; feliz aniversário”. Nesse instante transparece, ao mesmo tempo, o texto de Tchecov, a relação pessoal entre elas, as atrizes, as personagens e uma canção brasileira.

As três riem, Masha (Fernanda) ri e chora, parabeniza Irina (Simone) e elas ficam uns instantes em silêncio. Um tempo depois Simone levanta seu olhar e diz: “eu conheço um hino que diz assim”; e canta a terceira canção da sequência – o hino de Divinópolis, sua cidade natal.

Há algo de muito poderoso nessa sequência. Como se sabe, Coutinho tem fascínio pela relação de seus entrevistados com a música. Desde seus primeiros documentários o diretor frequentemente pede que se cante uma canção, ou até mesmo a música surge durante a conversa sem que ele a solicite. Nessa sequência das três canções, de acordo com o diretor nos extras do DVD de Moscou, estava previsto que os personagens cantariam apenas a primeira música.

No entanto, Coutinho, Diaz, os atores e nós, espectadores, somos brindados com o acaso de maneira extraordinária. A música retorna à cena, nesses formatos tão distintos, e marca esse hibridismo que é a assinatura de Moscou: cinema, teatro e vida, quase que um só elemento, unidos pela música – uma das maiores formas de expressão de nossa memória.  

*Citação de José da Costa retirada do livro Teatro contemporâneo no Brasil – criações partilhadas e presença diferida. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.

Ursula Rösele é crítica de cinema pela Revista Filmes Polvo.

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