O Pão que o Diabo Amassou

Especial Liana Duval

O Pão que o Diabo Amassou
Direção: Maria Basaglia
Brasil, 1958.

Por Adilson Marcelino

Hoje, no cinema pós-Retomada, temos mais de 150 mulheres dirigindo filmes de longa-metragem. O número é mesmo impressionante, sobretudo se pensarmos que até a década de 1960 tivemos apenas seis pioneiras nesse formato: Cléo de Verberena, Carmen Santos, Gilda de Abreu, Maria Masaglia, Carla Civelli e Zélia Costa – dentre elas, Basaglia e Civelli são italianas.

O Pão que o Diabo Amassou foi a estreia no cinema brasileiro de Maria Basaglia, que já havia dirigido filmes na Itália, mas depois aportou por aqui na década de 50 – época da Segunda Guerra Mundial – com o marido, o produtor Marcelo Albani. Ainda por aqui, ela dirigiria a comédia de costumes Macumba na Alta (1959), e o casal fundaria a Paulistânia Films e o estúdio de dublagem Odil Fono-Brasil.

O Pão que o Diabo Amassou é um melodrama, com argumento e roteiro também assinados por Basaglia, que reúne alguns nomes da nata teatral da época: Jayme Costa, Ítalo Rossi, Elizabeth Henreid, Wanda Kosmo, Liana Duval. A trama gira em torno do agiota Álvaro, interpretado com brilho por Jayme Costa, afogado em avareza e crueldade não só com seus clientes, mas também com toda a sua família.

À sua volta estão os filhos Ana e Mário – Elizabeth Henreid e Egydio Eccio -, o genro Jorge – Carlos Zara, e o empregado fiel Borboleta – Ítalo Rossi. A todos Álvaro trata com palavras e gestos rudes, sempre negando ajudar a quem quer que seja, a não ser , claro, que possa lucrar com isso. Certo dia, aparece como cliente a prostituta de luxo Aída – Liana Duval, que fica atraída pelo soturno velhaco e acaba por se envolver tanto na sua vida particular quanto na de seus negócios. Essa relação, que poderia ser fortuita, vai desencandear uma reviravolta na vida de Álvaro e de toda a sua família.

O Pão que o Diabo Amassou é filme de interesse, sobretudo histórico. Afinal, estamos frente a um dos primeiros longas dirigidos por mulheres e a um elenco de feras do palco. Alguns ressaltam um tom carregado de teatralidade na interpretação e na condução dos atores, mas o interesse com o qual acompanhamos a trama desfaz esse possível desconforto. Obviamente, alguns realmente carregam nas tintas, como Elizabeth Henreid e Carlos Zara. Já outros, como Jayme Costa e Ítalo Rossi, conduzem muito bem seus personagens.

Liana Duval, com seu corpão-violão, é presença arrebatadora de ponta a ponta como a prostituta de luxo que apresenta nuances de personalidade muito bem interpretadas. Ela é tanto a mulher . experiente que cai de amores e tenta seduzir o agiota, quanto a puta de bom coração que ajuda uma das clientes de Álvaro. E é também o anjo exterminador que põe em ebulição e de perna para cima toda uma aparente e falsa estrutura familiar.

Ótimo momento dessa atriz que marcou a história do cinema brasileiro em dezenas de filmes.

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