A Dama do Cine Shanghai

Especial Liana Duval

 

 

A Dama do Cine Shanghai
Direção: Guilherme de Almeida Prado
Brasil, 1987.

 
Por Vlademir Lazo

Não é por acaso que A Dama do Cine Shanghai comece dentro de uma sala de cinema.

Guilherme de Almeida Prado abre e termina seu filme em torno do cinema, não somente o da tela em forma de retângulo branco (que vemos enquanto o corretor imobiliário interpretado por Antonio Fagundes entra numa sala para assistir o filme com o mesmo título do que estamos vendo), mas sobretudo o imaginário do cinema, sua matéria real e ilusão.  É principalmente uma obra de quem assistiu muitos e muitos filmes, não apenas os clássicos ou sucessos do momento, mas também os filmes B, noirs, policiais hollywoodianos, toda uma longa tradição do cinema americano do gênero, que transparece em cada fotograma de A Dama do Cine Shanghai (que é mencionado nos créditos finais como “um filme B” de Guilherme de Almeida Prado). 

Trata-se de um filme sobre imaginário e identidade. Pessoas que se fazem passar por outras, que se parecem bastante ou que simplesmente somem e depois reaparecem (ou não). Antonio Fagundes é Lucas, o citado corretor imobiliário e ex-lutador de boxe que ao entrar numa sala de um velho cinema do centro decadente de São Paulo passa a viver em uma espécie de transe hipnótico ao conhecer a personagem de Maitê Proença, bi-partida em duas: Lila Van, que irradia sua sensualidade na tela do filme dentro do filme; e Suzana, a mulher comum que senta ao lado de Fagundes na platéia. De comum, o filme se encarregará de mostrar que Suzana não tem nada (ou muito pouco), como o personagem masculino terá a oportunidade de descobrir ao longo das duas horas de A Dama do Cine Shanghai, ao se envolver com ela e seus problemas nos becos escuros e submundo paulistano. 

A Dama do Cine Shanghai combina uma trama policial metalingüístico com doses discretas de erotismo e sensualismo e é todo levado em tons de mistério, com suas pistas falsas e assassinatos misteriosos. Os principais elementos dos filmes noir estão presentes no filme de Guilherme, mas o grande trunfo é o seu trabalho de construção de atmosferas: urbana, noturna, policial, irônica e (à sua maneira) romântica. O cineasta incorpora os tais elementos para uma releitura sob a ótica de quem começou e viveu uns bons anos na Boca do Lixo paulistana (já no réquiem de sua história), entregando um exemplar mais sofisticado, porém fiel ao espírito cinematográfico das produções daquele período anterior. 

Como é habitual em sua filmografia, ocorrem diversas referências a outros filmes, a começar pelas mais óbvias em torno do clássico A Dama de Shanghai (de Orson Welles). Dos noirs, sobressaem-se a narração em off do personagem masculino (sempre dialogando com o público) e a presença da mulher fatal, ambos os focos dramáticos do filme, em torno dos quais pairam cerca de uma dezena de personagens extravagantes. Enredado numa teia de intrigas ao ser seduzido pela mulher, a obsessão do protagonista é sobretudo por uma imagem, a dessa mulher, tanto uma femme fatale como uma pretensa mulher comum. Tudo funciona muito bem no filme sob a bela orquestração de imagens de Guilherme de Almeida Prado (que brinca e joga com a estética, luz e sombras): os atores, a decoração, o roteiro, a música, a iluminação. E o filme ainda nos reserva uma participação mais que especial da atriz Imara Reis na pele de cinco personagens diferentes, além de Liana Duval (recentemente falecida) numa ponta como uma senhora.

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