Orfeu Negro – Orfeu

Especial O Carnaval no Cinema Brasileiro

 

Orfeu Negro
Direção: Marcel Camus
Brasil/França, 1959

Orfeu
Direção: Carlos Diegues
Brasil, 1999

Por Nísio Teixeira

Duas fantasias para uma mesma cidade e personagem: Orfeu, de Camus e de Cacá.

(Aviso aos leitores: este texto conta algumas coisinhas do final dos filmes…)

40 anos separam duas produções cinematográficas inspiradas na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, trabalho que inaugura a parceria do Poetinha com Antônio Carlos Jobim. A primeira é Orfeu Negro (1959), de Marcel Camus. A outra é Orfeu (1999), de Cacá Diegues. O que as duas têm em comum é a fantasia cinematográfica com a qual revestem o período do carnaval no Rio de Janeiro, mas cada uma representa uma escola diferente.

Camus não quer nem saber: Carnaval no Rio é samba no pé geral. Todo mundo samba, as pessoas nas ruas, na balsa que chega à cidade, na feira, os funcionários da repartição pública (com direito inclusive a um rápido amasso de Cartola e Dona Zica). O filme atende rapidamente a todo um imaginário exótico já, àquela altura, consolidado cinematograficamente ao Rio de Janeiro. Alô Amigos, de Walt Disney, por exemplo, já abria alas para que passasse o carro alegórico do exótico Brazil for gringo. E ele enfim, passa mesmo, literalmente, com o bonde conduzido por Orfeu, que reforça uma cidade em que os rituais momescos pulam e pululam sem perdão. É um Rio mais fantasioso (afinal, é Carnaval). É um Rio feliz.

Diegues agrega outras preocupações mais contemporâneas: tem uma ala (ou uma aula?) pra incluir a discussão da violência do morro, outra pra falar da influência da televisão, da religiosidade, outra pra falar do tráfico e, enfim, tem até a história de Orfeu. Assistir ao Orfeu de 1999 nos dias de hoje, pós-Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007-2010), é sentir um rascunho, uma espécie de laboratório do que viria a ser a abordagem do cinema sobre o tema da favela e do morro cariocas dali pra frente – inclusive porque alguns dos profissionais envolvidos nos filmes posteriores estavam envolvidos na produção de Cacá. É uma fantasia sobre um Rio tenso, dividido.

Talvez por isso mesmo, o filme se resolva melhor na sequência do desfile (o que, ironicamente, o reaproxima da televisão que, aliás, apesar da crítica do filme é quem faz a redenção dos personagens) e no momento em que o Orfeu de Diegues (Toni Garrido) desce ao precipício infernal (de novo ironicamente, pois ele desce no mesmo ponto do alto do morro em que cai o Orfeu de Camus, Breno Mello). Esses dois momentos se destacam porque aí a miscelânea que se tornou a história (Cacá e mais quatro roteiristas assinam o longa) encontra pontos de convergência interessantes na música conjugada às belas plásticas visuais de Afonso Beato. São oásis em meio à imbricada rede de historietas que compõem a trama, fragmentadas ainda mais pelas escancaradas inserções de marketing habituais: a empresa aérea, Caetano Veloso, a empresa telefônica, a empresa petrolífera etc e tal.

Assim, entre a fantasia “realista” de Cacá para Orfeu e o exótico de Camus, este último é, sem dúvida, mais divertido. A fantasia lhe cabe melhor, exatamente, talvez, pelo estereótipo excessivo, mas que revela um Carnaval mais risonho e franco, e também porque deixa a música de Tom & Vinicius fluir e refluir com mais generosidade. Há contornos nitidamente não naturalistas nos diálogos de Camus, mas que se chocam com as cenas pululantes do samba e do Carnaval carioca, gerando um paradoxo estranho, mas que agrada com o passar do tempo. Vale dizer também que Camus não aposta na redenção de Orfeu e Eurídice e não a espera voltar do vale dos mortos para colocar os dois juntos sambando na avenida (como faz Cacá) apesar da vigilância dos amigos mirins, mas também da Morte fantasiada de misterioso homem-esqueleto. A morte sempre mirou Eurídice e quis fazê-lo bem de perto, ao contrário da morte na versão de Cacá, que fantasiada de Super-Homem não sabe (e não sabe mesmo) se pega Orfeu, se pega Eurídice… fica diluída como a própria versão de 1999.

Eu diria até que o filme de Camus ganha tons kafkanianos em pleno Carnaval depois que Orfeu passa por um inferno travestido no terminal dos bondes. Afinal, Orfeu carrega a culpa pela morte de Eurídice e, gradativamente, deixa o Carnaval pra trás, para galgar por escadas e edifícios soturnos em busca de sua musa. Uma das sequências, outro ingrediente típico que não poderia deixar de faltar no prato exótico de Camus, a macumba, é, de novo incorporada ao pacote, mas é, de longe, uma saída bem mais fiel para a última aparição de Eurídice que no confuso jogo de espelhos do filme de Cacá. Em Camus, Orfeu perde Eurídice no candomblé. Em Cacá, Eurídice encontra-se num culto evangélico antes de descer ao inferno por conta de uma bala que ricocheteia, mas tudo é testemunhado por He-Man que por isso tem a língua cortada pelo tráfico e aí a polícia sobe o morro pra vingar o traficante, afilhado do capitão, morto por Orfeu…

Ou seja, entre dois sambas do crioulo, ops, Orfeu, doido que são os filmes retratados pelos diretores, o nativo de Cacá, engolido pelos excessos, fica mais perdido no inferno carnavalesco carioca do que o estereótipo excessivo e exótico de Camus.

 

 Nísio Teixeira é jornalista, professor da UFMG e intregante do revista Filmes Polvo

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