Orgia Familiar

Dossiê Alfredo Sterheim

Orgia Familiar
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1986

Por Filipe Chamy

Orgia Familiar, apesar de sua realização irregular — tônica dos anos explícitos da Boca do Lixo —, apresenta alguns elementos interessantes em sua trama: por exemplo, o despertar da sexualidade adolescente, mostrado evidentemente de maneira nada sutil, mas que desenvolve paradoxalmente uma curiosa polarização entre o medo que sente uma menina ao ver seus pais fazendo sexo (destruição da idealização da infância) e o desejo que lhe sente despertar o instinto ao ver duas de suas amigas se despindo e se entregando a uma relação física bem a seu lado. Ela quer participar, e sua timidez só lhe permite se acariciar ela mesma, sozinha, observando as amigas se divertindo, incapaz de se convidar para o ato.

Por todo o filme, é essa adolescente que gerará os conflitos. O mote é a existência de um casal extremamente liberal; não exatamente nas idéias, mas, como é praxe nesse tipo de filme, no campo sexual. Os dois se animam com a chegada de um estranho a seu condomínio. Esse estranho se aproveitará da brecha que o casal liberal abre em sua cama, sua conta bancária e sua vida, para obter vantagens de todo o tipo, até se interessar pela adolescente da casa e burlar a confiança e a liberdade que lhe foram gratuita e animadamente oferecidas. Apesar de todo o mal que esse homem causa à já bizarra família — ocasionando sua conseqüente expulsão do seio desse “lar” —, a mulher do casal, que não é a mãe legítima da adolescente, sente falta dos afagos excitantes que tinha com o desconhecido e o chama novamente para sua casa, oferecendo a ele a menina, contra a vontade dela (depois a jovem se acostuma e passa a gostar da companhia e da experiência libidinosa do estranho). A coisa tomará outro aspecto quando o pai descobre os avanços do homem sobre sua querida e amada filha.

Essa história é velha — não é de hoje que se pervertem jovens assim com interesses escusos, destruindo sua cabeça e seus sonhos, e não é de hoje que se procura buscar prazer sexual nesses jogos proibidos pelas convenções sociais e morais. Não que o filme de Sternheim seja hipócrita a ponto de fingir se compadecer de algo que usa para criar o interesse no espectador; mas isso na verdade pouco importa, porque a realização é tão mambembe que não dá para concluir coisa alguma, e qualquer conseqüência lógica acaba sendo fruto do esforço que o espectador tem em tentar ligar elementos que lhe são expostos de maneira totalmente desconexa, livre de qualquer comprometimento. Quem parar para pensar nas motivações, desejos e caracteres das personagens certamente terá uma tarefa titânica pela frente, pois sempre faltará uma peça para concluir o quebra-cabeça: o que Sternheim propõe aqui é um rascunho de narrativa, que se perde em esboços de uma profundidade nunca realmente satisfeita, que se mostra como é, uma simples sucessão de esquetes pornográficos para tentar justificar ainda que minimamente a presença das felações, sodomias, cópulas. E para tentar de alguma maneira “aumentar” a promessa dos fatos descritos: assim, uma atriz jovem em uma cena de cama não é o suficiente; é preciso vendê-la como a adolescente assustada, que cobre os seios quando se vê nua em frente ao homem mais velho (mesmo já tendo se deitado com ele), que tem um pudor só igualado pelo seu charme de gazela acuada, a adolescente que grita para a madrasta acudi-la quando é tomada à força entre lençóis, mesmo sabendo que foi ela quem a botou naquela situação (mas para que sentido nessas horas se o importante não é comover, mas excitar?).

Os atores representam tristes maquetes dramáticas em que nem eles acreditam — ou acreditam e não conseguem demonstrar, o que é igualmente patético —, e lotar as cenas de sexo com trilha incidental erudita só reforça essa apatia voluntária, condição de quem abre a boca para dizer algo e, acreditando estar sem voz, nem ao menos tem língua.

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