Depoimento: Elisabeth Hartmann

Dossiê Alfredo Sternheim

Bom, o Alfredo Sternheim eu conheço também desde sempre. Eu cheguei em São Paulo em 1961, e, naquele mesmo ano, eu fui fazer um filme escrito e dirigido pelo Walter Hugo Khouri (A Ilha), e o Alfredo Sternheim, que era um menininho naquela época, fez a assistência de direção. E foi lá que a gente se conheceu, e nos conhecemos até hoje, continuamos nos descobrimos até hoje rsrs. Porque o ser humano é muito mutável, né?. Então foi assim, a gente filmava lá na Bertioga, e o Alfredinho sempre correndo pra lá e pra cá, porque o Khouri também, às vezes, ficava nervoso, e gritava daqui e gritava dali. E um dia chovia, outro dia fazia sol, e tudo isso vai criando, às vezes, um clima assim, eu diria, quase no limite da histeria. E ele, na sua juventude, eu acho que era o primeiro filme dele também, ele era muito atento e muito preocupado também. E a gente logo começou a ter simpatia um pelo outro, e fomos nos relacionando pela vida a fora.

Ali ele foi assistente, mas depois disso ele também se tornou um diretor, e um diretor muito competente, muito reconhecido, que fez belos filmes, foi premiado tantas vezes, né? E eu fiz alguns filmes com ele. Fiz uma coprodução Brasil/Argentina, acho que se chamava A Herança dos Devassos. Depois, o último filme que a gente fez, eu não estou seguindo uma ordem cronológica,era tão interessante, era um episódio que se chamava Gatas no Cio. Infelizmente, quando esse filme foi para as telas eu nem vi, ele foi com o nome de Sacanagem, nunca vi uma coisa assim, e não tinha nada de sacanagem. A direção era dele, o roteiro era dele, era uma história de uma mulher muita velha com quase cem anos de idade, uma ex-dona de um prostíbulo. E aí a história é toda contada em flash back. Então, quando ela era jovem, as moças que trabalhavam na casa dela eram as tais gatas. E quando as moças se sentiam agredidas, elas se transformavam em gatas mesmo. É uma história muito interessante. Principalmente a história do meu personagem, eu tinha quase cem anos de idade e depois voltava à mocidade. Então tinha também um trabalho muito bonito do maquiador. Esse filme eu nunca cheguei a ver no cinema. Eu nem soube que ele foi levado com esse título, e, inclusive, havia dois outros filmes juntos, que parecem que não eram muito recomendados. Eu fiz também um filme com a Kate Hansen e o Eduardo Tornaghi, A Mulher Desejada, em que eu fazia a mãe do Tornaghi, uma mãe possessiva. Curioso o filme também, muito interessante a história.

Agora, o Alfredo, como é que é o Alfredo? Talentoso, injustiçado… Porque quando o cinema entrou naquela área da pornochanchada, acho até que ele dirigiu alguma coisa. Não era nem a pornochanchada, era filme de sexo explícito. Depois o cinema entrou na defasagem total, porque houve aquele movimento todo anti-cultural, e o cinema sumiu. E nesse período em que o cinema sumiu, o Alfredo começou a se dedicar à critica e a escrever artigos, e quando o cinema voltou, e voltou muito bem, graças a Deus, eu acho que já não havia espaço para muitas pessoas. Inclusive comigo. Quando alguém me pergunta “por que você não faz cinema?”, eu respondo “ pois é, mas não estou na Globo”. Eu não falo isso no sentido pejorativo não, mas é porque hoje é tudo dominado por atores e diretores da Globo, então o espaço ficou bastante reduzido. E foi o que aconteceu com o Alfredo, o que é uma pena, porque é uma pessoa muito talentosa e muito criativa, os roteiros dele eram muito interessantes.

Eu sempre brinco com o Alfredo, porque assim como eu, que sou descendente de alemão, ele também tinha um pai alemão, daí o nome dele, Sternheim. E em alemão, Stern é estrela e heim é lar, então eu acho que ele deu guarida e transformou muitas pessoas em estrelas, pelo seu próprio nome. Eu acho que ele também é uma estrela que brilhou no cinema nacional e deveria estar aí fazendo cinema. Mas as coisas vão mudando, e, de repente, as pessoas são meio esquecidas, meio afastadas. Eu não sei bem por que, são as circunstâncias, porque tudo vai mudando. E é uma pena, porque talento não lhe falta, criatividade não lhe falta. É uma pessoa extremamente generosa, o trabalho com ele sempre foi prazeroso, porque pelo menos comigo ele nunca se exaltou, sempre me conduziu muito bem, com muita segurança, sempre me senti muito bem fazendo cinema com ele, e eu acho que a maioria das pessoas deve ter se sentido assim.

Nos filmes do quais eu participei nunca houve uma situação difícil. A coprodução argentina, que era com a Sandra Bréa e o Roberto Maya, foi um pouco mais complicada, porque o tal diretor argentino, não sei como esse homem era diretor. Tanto é que o Alfredo acabou dirigindo esse filme. Porque o homem lá não entendia nada, eu acho. Mas, mesmo assim, não se criou uma situação desagradável não, tudo correu na mais perfeita ordem, o filme era bem interessante.

Bom, é isso o que eu posso falar a respeito do Alfredo. O Alfredo é um dos meus queridos, é uma pessoa que sempre vai estar no meu coração. Porque a nossa amizade aconteceu através do trabalho, mas se manteve, se mantém, fora dessa área, pois nunca mais trabalhos juntos. Eu acho que a gente não fez mais nada juntos depois desses filmes, pelo menos eu não me lembro. E eu acho que ele merecia um lugar ainda no cinema, sabe? Mas como eu já falei, as circunstâncias não são tão favoráveis quanto as pessoas mereceriam.

Mas quem sabe de repente também, enquanto a gente está falando aqui, de repente pode aparecer uma nova oportunidade. Por que não? Ele é tão inteligente, ele é tão atento também à vida, aos acontecimentos, é uma pessoa que está sempre em dia com tudo que está acontecendo. Ele não se deixa abater, ele continua aí lutando, pela sua sobrevivência, pelo que ele acha que é verdadeiro, pelo que ele acredita. Então quem sabe amanhã ou depois ele pode ter uma nova chance. Por que não, né?

É isso que eu tenho para falar do meu amigo Alfredo.

Elisabeth Hartmann é atriz e uma das amigas de Alfredo Sternheim. Trabalhou com o cineasta em A Herança dos Devassos (1979 – co-direção de César Cabral) e no episódio Gatas no Cio, do longa Sacanagem (1981).

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