Martin (1977), de George A. Romero

Martin é o melhor filme de vampiro desde o Nosferatu de Murnau. Lembra o cinema de outro mestre, o Bresson tardio; é como se o diretor francês àquela altura decidisse contar uma história de vampiro, com algum dos seus personagens deslocados e introspectivos de O Dinheiro ou O Diabo Provavelmente. Martin é filme de terror, mas também um pessimista, cru e direto filme sobre adolescente, ao mesmo tempo delicado e selvagem, onde se fala pouco, se age pouco, mas quando se fala ou se age, é pra valer mesmo. No plano da história, Martin incorpora as principais características dos filmes de horror, mas o tratamento que a narrativa impõe é outro. É próximo de um relato de doença, com Martin (o personagem) injetando drogas em suas vítimas antes de sorver-lhes o sangue, dedicando-se ao vampirismo (cujas cenas são diferentes do que estamos habituados a ver no gênero), enquanto vive conflitos existenciais e psicológicos de um ser humano comum. Martin é um jovem por fora, mas irremediavelmente velho e corroído por dentro. A evidência está em cada plano de Martin, e o sentimento geral que o filme traz é de mal-estar, de deslocamento. É um filme sobre corpos, e dedica a eles alguns dos seus momentos mais soberbos, seja num terreno mais erótico, ou ensanguentados e destruídos (em suas sequências de horror). As breves e recorrentes imagens em preto e branco antecipam The Addiction, do Abel Ferrara, outro filme de vampiro que seria realizado vinte anos depois. Martin também é um raro filme de Romero que não se dá num plano coletivo, mas individualista, e é tão direto, eficaz e vital quanto às suas narrativas de mortos-vivos (e o que é o próprio personagem-título de Martin senão um morto-vivo caminhando à luz do dia e ao mesmo tempo fugindo da multidão?), num misto de frontalidade clássica, depuração da forma, uma certa abstração e fuga dos clichês do gênero. Juntamente com O Exército do Extermínio (1973) e O Despertar dos Mortos (1978), Martin representa o auge da fase mais criativa de Romero, e possivelmente são os três melhores filmes de terror da década de setenta.

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