O Casamento de Romeu e Julieta

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

O Casamento de Romeu e Julieta
Direção: Fábio Barreto
Brasil, 2004.

Por Leandro Caraça, especialmente para a Zingu!*

Não basta vontade e um tema interessante para se criar uma boa comédia. O filme tem lá seus momentos, muito graças a Marco Ricca e a Luiz Gustavo, mas no geral tropeça nas próprias pernas e sai de campo com bola e tudo. Bruno Barreto, cineasta de quatro ou cinco filmes de qualidade em quase quarenta anos de carreira, se atira na comédia de costumes (como havia tentado no passado em Romance de Empregada e Bossa Nova) baseado do livro Palmeiras, um Caso de Amor, de Mário Prata.

No filme, o romance entre Romeu (Ricca) e Julieta (Luana Piovani) ganha ares de humor por causa da opção futebolística de cada um. Ele, um corintiano de coração, sofredor. Ela, uma palmeirense apaixonada, criada pelo pai fanático (Gustavo) para torcer pelo time desde criancinha. Para que o relacionamento possa ir em frente, Romeu precisa cometer o impensável. Fingir-se de palmeirense, cantar o hino do arqui-rival e se tornar sócio de carteirinha da agremiação. São essas poucas sequências que conseguem fazer rir, num filme que segue em passos previsíveis até o final.

Alguns clichês são bem trabalhados, como a broxada de Romeu devido ao símbolo do Palmeiras na cama de Julieta, só que o filme perde tempo com situações repetidas e choradeira mal colocada. Também seria interessante se Bruno Barreto abandonasse um pouco a sua visão carioca da zona sul quando fosse focalizar a cidade de São Paulo e os torcedores do Corinthians e do Palmeiras. Sair um pouco dos condomínios de luxo e clínicas especializadas e meter a cara nas ruas, nos bares, nas calçadas.

Outra cisma minha, é puramente machista. Perdoem-me as mulheres, mas não tenho como me conter. Luana Piovani, linda e loira, tem talento inversamente proporcional ao seu gênio forte. Mel Lisboa, a eterna Anita, no papel da namorada do filho de Romeu, é uma personagem que aterrissa de pára-quedas em todas as cenas em que aparece. As duas não sabem atuar e não tiram a roupa. Para que vieram, então? O Casamento de Romeu e Julieta é uma comédia popular de certa forma elitista – se a família de Julieta fosse corintiana, acredito que o pai seria Washington Olivetto – e que cria expectativas quase nunca cumpridas. É uma hora e meia de chutões pra frente, com poucas jogadas levando perigo à pequena área.

*Leandro Caraça é pesquisador de cinema de gênero. Colabora com o blog O Dia da Fúria e mantém o blog Viver e Morrer no Cinema.

Os Trapalhões e o Rei do Futebol

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Os Trapalhões e o Rei do Futebol
Direção: Carlos Manga
Brasil, 1986.

Por Leandro Caraça, especialmente para a Zingu!*

Ano da segunda Copa do Mundo realizada no México, 1986 também marcou o encontro entre duas das maiores instituições brasileiras: o quarteto dos Trapalhões e Edson Arantes do Nascimento. Na verdade, são três grandes instituições, uma vez que temos Carlos Manga no comando deste, que é seu último longa metragem até o momento. Em Os Trapalhões e o Rei do Futebol, Cardeal (Didi), Elvis (Dedé), Fumê (Mussum) e Tremoço (Zacarias) são roupeiros do Independência Futebol Clube, time que passa por uma transição de poder, disputada por Dr.Velhaccio (José Lewgoy) e Dr.Barros Barreto (Milton Moraes). A rusga entre os dois cartolas acaba resultando na promoção de Cardeal ao posto de técnico da equipe. Não passará de um joguete político. Se o Independência ganhar os seus jogos, Barreto será favorecido. Se for mal, Velhaccio é quem sairá ganhando. Além dos três companheiros, Didi também terá como aliados o repórter esportivo Nascimento (Pelé) e Aninha, a jovem responsável pela lanchonete da sede do clube, interpretada por Luíza Brunet.

Para um filme com futebol no título e Pelé no elenco, Os Trapalhões e o Rei do Futebol demora muito tempo para mostrar cenas desse esporte, o que de fato só acontece dez minutos antes do final. Para complicar um pouco mais, nem pode ser vista entre as melhores produções dos Trapalhões. As piadas são poucas e a trama dá mais atenção às cartolagens do que aos jogos em si. Dá para destacar o primeiro treino comandado por Cardeal, em que os jogadores precisam fugir de cachorros e capturar galinhas (no melhor estilo Rocky Balboa). A sequência musical, regada com samba e mulatas cheias de saúde, é outro ponto alto. Chega até a compensar a horrível trilha sonora de Sergio Saraceni, que parece ter sido composta para jantares em churrascaria e transas em motéis. O filme em si diz a que veio quando Dedé, Mussum, Zacarias e Pelé vão resgatar Aninha, sequestrada por Mauricio do Valle a mando de Velhaccio. Depois do divertido quebra-pau, segue a esperada partida de futebol, com Pelé atuando no gol (?!?) e Didi jogando na linha. Renato Aragão faz a festa, com direito a gol contra, mão na bola, gol de cabeça (depois de bater ele mesmo o escanteio) e até um lindo tento do meio do campo. Isso nem Pelé conseguiu. Ou será que conseguiu? Assistam para descobrir.

*Leandro Caraça é pesquisador de cinema de gênero. Colabora com o blog O Dia da Fúria e mantém o blog Viver e Morrer no Cinema.