Anjos do Arrabalde

Dossiê Ênio Gonçalves

Anjos do Arrabalde
Direção: Carlos Reichenbach
Brasil, 1987.

 Por Matheus Trunk 

O crítico de cinema Inácio Araújo considera Anjos do Arrabalde o melhor longa-metragem realizado por seu amigo Carlos Reichenbach. Também pudera. São poucos filmes nacionais que exploram o universo feminino com tanta profundidade. Nesta película, o realizador gaúcho radicado em São Paulo aborda a trajetória de vida e os problemas cotidianos de professoras da rede pública da capital paulista.

Ator fetiche do cineasta, Ênio Gonçalves é Henrique, um advogado especializado em defender tipos marginais. Com trânsito livre em diversas delegacias, ele é casado com a ex-professora Carmo, personagem interpretada com perfeição pela atriz Irene Stefânia. Diferente dos tipos que faria em outros trabalhos com Reichenbach, dessa vez  Ênio não é um homem com sólida formação intelectual. O industrial falido de Filme Demência e o jornalista de esquerda de Garotas do ABC são pessoas sofisticadas. O advogado de Anjos é um boçal de pouca instrução, que o possui o desejo de ascender socialmente. Desaprova qualquer tentativa da esposa ter uma vida própria. Acaba levando isso às últimas conseqüências.

O espectador que assistir ao filme irá perceber que existe um claro conflito entre os homens e as mulheres. As personagens femininas são quase sempre reprimidas pelos masculinos. Isso fica latente na relação estabelecida entre a professora Rosa (Clarisse Abujamra) e o inspetor de ensino Soares (José de Abreu). Ou na difícil vida diária de outra professora, Dália (Betty Faria) e o irmão problemático Afonso (Ricardo Blat). No caso da personagem Aninha (Vanessa Alves) isso vai mais longe. A moça vive com um homem mais velho que não ama, é rejeitada pelo pai e ainda é estuprada.

A periferia de São Paulo é belíssima. É pena que os nossos cineastas, principalmente os de esquerda quase nunca a mostrem. Durante muito tempo, cultivei um estranho hobby, de pegar ônibus para conhecer bairros mais afastados. Um dos méritos de Anjos do Arrabalde é mostrar essa área da cidade sem um olhar sociológico ou político, mostrando as pessoas como elas são. Tarefa que Reichenbach fez com brilhantismo.

São diversos os aspectos que me levam a afirmar que este é um dos melhores longas-metragens do diretor. Mas o principal é que ainda existem sujeitos que tratam as mulheres da mesma maneira que os personagens masculinos do filme. Quando vemos isso no dia-a-dia, nos deparamos com a grande marca autoral que Carlão cultuou nesse filme e no cinema brasileiro.

    

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