Inventário Grandes Musas da Boca

Meire Vieira

Por Adilson Marcelino

A Boca do Lixo em São Paulo “importou” muitas atrizes do Rio de Janeiro para suas produções. Uma delas é Meire Vieira, que se tornou uma de suas musas.

Meire Vieira nasceu no Rio de Janeiro no dia 2 de junho de 1939. Nos quase quarenta filmes em que atuou, seu nome aparece em diferentes grafias: Meire Vieira, Meyre Vieira, Meire Vieyra, Meiri Vieira.

Meire Vieira já tinha atuado em vários filmes no Rio de Janeiro antes de iniciar carreira também em São Paulo. Descoberta por Pedro Carlos Rovai, antes de estrear no cinema era modelo e manequim, e chegou a ter uma boutique. Estreia no clássico A Viúva Virgem, de Rovai, em 1972, comédia erótica com a deusa Adriana Prieto que levou multidão ao cinema. E é novamente com Rovai e também em comédia erótica protagonizada por Adriana Prieto que Meire Vieira brilha como uma mulher casada fogosa e autorepressora em Ainda Agarro Essa Vizinha.

Outro ótimo momento em solo carioca é em O Libertino, de Victor Lima, em que é uma cafetina que se disfarça de professora para fugir do cerco do Comendador, interpretado pelo saudoso Costinha, diretor de uma liga de moralidade contra a pornografia. No cinema carioca, a atriz atua em muitos outros filmes de cineastas como Ronaldo Lupo, Roberto Machado, Ismar Porto, Victor di Mello, Saul Lachtermacher e Carlo Mossy.

Os primeiros filmes de Meire Viera em São Paulo são as comédias Quando Elas Querem e Eles Não, de Ary Fernandes; Cada Um Dá o Que Tem, no episódio Uma Grande Vocação, de Sílvio de Abreu; e O Quarto da Viúva, de Sebastião Souza, em que tem destaque como Marta Alvarado.

Em Possuídas Pelo Pecado, Meire Vieira se encontra com três nomes fundamentais da Boca do Lixo: David Cardoso, Ody Fraga e Jean Garret. Cardoso é o produtor e protagonista; Ody o co-roteirista; e Garret o diretor e co-roteirista. No filme, David Cardoso é André, motorista do rico empresário Leme, um homem déspota que humilha suas secretárias, adora orgias regadas a muita bebedeira, e que se sente frustrado por não ter filhos. O que ele não imagina é que seu motorista e braço direito pretende matá-lo em plano arquitetado por sua esposa Raquel, de quem André é amante, para se apoderarem de sua fortuna. No filme, Meire Vieira é Raquel, a mentora intelectual do crime, como ela mesma gosta de se autodenominar. Ambiciosa, ela pretende matar o marido para ficar com seu dinheiro e se casar com o amante. Possuídas Pelo Pecado é mais um filme de talento da bem-sucedida parceria entre Jean Garret e David Cardoso, e que rendeu outros dois belos sucessos: A Ilha do Desejo e Amadas e Violentadas.

Meire Vieira atua em outros filmes cariocas na época, mas dá sequência à carreira no cinema paulista. Atua em Presídio de Mulheres Violentadas, de Luiz Castellini, Oswaldo Oliveira e Antonio P. Galante. O filme tem argumento de Galante, o mítico produtor da Boca do Lixo, em único filme em que ele se envereda pela direção e que é exemplar do gênero presídio feminino que originou vários filmes.

Em Pintando o Sexo, Meire Vieira está no episódio dirigido por Egidio Eccio e que dá nome ao filme – os outros dois são O Lobo Mau, a Vovó e a Netinha, de Jairo Carlos, e Concheta, também de Eccio. No filme, ela é a protagonista Márcia, uma mulher em fogo, mas sem poder liberar a libido, já que o marido só quer saber de trabalho. Márcia tenta de tudo, faz curso de striptease e posa de modelo para o vizinho pintor. Mas como o marido só quer mesmo saber de suas pastas de trabalho e a carne é fraca, ela acaba pulando da pose estática para a transa no chão com o vizinho.

Em 1977, chega às telas o ótimo Escola Penal de Meninas Violentadas, de Antonio Meliande. O filme proporciona à Meire Vieira uma personagem perfeita para seu tipo marcante de mulher sedutora, auto-repressora e perversamente sexual. Ela é a Madre Superiora que dirige, junto a algumas freiras, uma escola de correção para prostitutas encarceradas – e é lá que essas mulheres vão encontrar um verdadeiro inferno instaurado pela loucura sádica e assassina da Madre.

Escola Penal de Meninas Violentadas é um dos grandes momentos do cinema da Boca, uma produção de Galante, que co-assina o argumento com Rajá de Aragão, e roteiro de Roberto Mauro. Antonio Meliande, que dirige e assina a fotografia, reuniu um elenco de deusas: Meire Vieira, Arlete Moreira, Zilda Mayo, Zélia Martins, Suely Aoki, e Nicole Puzzi – que ainda assinava só Nicole, novinha novinha e linda, no papel de uma freira que enfrenta a vilania da Madre e paga alto preço por isso.

Escola Penal de Meninas Violentadas é um grande momento de Meire Vieira na Boca do Lixo, mas é com o mestre Carlos Reichenbach que ela viverá seus pontos mais altos no cinema paulista. A atriz atua em A Ilha dos Prazeres Proibidos e O Império do Desejo, dois “cults” do cineasta, ambos produzidos por Antonio Polo Galante.

Em A Ilha dos Prazeres Proibidos, Meire Vieira é Lúcia Solanas, mulher que vive refugiada em uma ilha junto ao marido, o escritor Willian Solanas. Os dois e outros moradores da ilha vivem em um paraíso até a chegada da matadora de aluguel, Ana Medeiros, feita pela deusa Neide Ribeiro. Grande sucesso de bilheteria, A Ilha dos Prazeres Proibidos é uma metáfora perfeita para os sombrios tempos políticos da época, com alta carga libertária, poética e existencial. Um clássico dos anos 70.

Depois, Carlos Reichenbach volta a escalar Meire Vieira, dessa vez como a protagonista de O Império do Desejo, uma obra-prima do cineasta. No filme, ela é Sandra, uma recente viúva que viaja até uma casa de praia que era mantida pelo marido e que estava ocupada por grileiros. Essa ambientação na Ilhabela é a geografia perfeita para o cineasta povoar com alguns dos mais fascinantes personagens do cinema brasileiro: um advogado, um casal de hippies, duas jovens em acampamento, uma jornalista chinesa, um poeta pirado, duas prostitutas.

Tudo em O Império do Desejo é perfeito: o argumento, o roteiro, a fotografia, a direção, o elenco. E que elenco! Além de Meire Vieira estão Benjamin Cattan, Roberto Miranda, Márcia Fraga, Aldine Muller, Nádia Destro, Misaki Tanaka, Orlando Parolini, Marta Anderson. Obra-prima absoluta!

Nos Tempos da Vaselina é uma produção de Galante dirigida por José Miziara e ambientada no Rio de Janeiro. O filme conta a história de Onofre, em sensacional interpretação de João Carlos Barroso, um matuto da roça que se muda para o Rio de Janeiro, onde mora em um apartamento em Ipanema com o primo. Divertido, Nos Tempos da Vaselina é uma típica comédia que investe no tom malicioso, aqui com direito à ambientação que mistura tardes na praia e noites nas discotecas, febre no país nos anos 70.  No filme, Meire Vieira é uma viúva ardente que assusta o pobre Onofre com o que ele imagina como possíveis acessórios sexuais.

No final dos anos 70, a atriz faz em A Noite dos Imorais, filme policial do grande cineasta e fotógrafo Reynaldo Paes de Barros com uma história intrigante: uma arma passa de mão em mão e assim são apresentados os personagens em situações diversas. Atua também no “cult” Histórias que Nossas Babás não Contavam, uma produção de Aníbal Massaini Neto, dirigida por Oswaldo de Oliveira.

Sucesso de bilheteria, Histórias que Nossas Babás Não Contavam é uma adaptação sacana da fábula infantil. No filme, Branca de Neve vira Clara das Neves na pele mulata da deusa Adele Fátima, cercada por sete anões nada ingênuos. É mais uma personagem perfeita para Meire Vieira, que vive a rainha má e madrasta de Clara das Neves. Hilário!

Na década de 80, Meire Vieira encontra e reencontra nomes notáveis da Boca do Lixo. Mais uma vez é dirigida por Jean Garret e Antonio Meliande. Com o primeiro em O Fotógrafo, filme amado por muitos fãs, em que é Leila, uma mulher rica que se deixa fotografar em um bordel. Com o segundo atua em Anarquia Sexual, em que um instituto de pesquisa reúne jovens em uma ilha deserta, vigiados por uma inspetora repressora. Marca também o encontro com Oswaldo de Oliveira, agora na direção, em A Prisão, mais um filme do gênero presídio de mulheres e que virou um “cult” internacional.

Por fim, a década de 80 marca também o encontro de Meire Vieira com o cinema de Alfredo Sternheim, com quem atua no “cult” Corpo Devasso; na aventura As Prostitutas do Dr. Alberto, sobre experiências nazistas em que a atriz é a esposa do carrasco Dr. Alberto, interpretado por Serafim Gonzalez; e no suspense Tensão e Desejo, protagonizado pela deusa Sandra Graffi.

Depois de atuar na minissérie Bandidos da Falange, de Aguinaldo Silva, na Rede Globo, e em Nunca Fomos Tão Felizes, belíssimo filme de Murilo Salles – mas já no Rio de Janeiro -, Meire Vieira abandonou o cinema sem deixar vestígios.

É claro que Meire Vieira faz muita falta, mas uma coisa é certa: a musa jamais será esquecida.

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Pitaco do diretor

Inicialmente, Meire Vieira era – e é – uma das profissionais mais respeitadas no meio. Ela tinha respeito à profissão, era pontual, e procurava no diretor o que tinha que fazer. Ela sempre se destacou. Foi uma grande alegria trabalhar com ela. Primeiro veio a surpresa, porque, em geral, as atrizes não tinham uma formação, e ela tinha aquela formação de atriz.  Por isso se destacou. E também pelo profissionalismo e pela beleza, além do talento.

José Miziara dirigiu Meire Vieira em Nos Tempos da Vaselina (1979).

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Filmografia (large)

A Viúva Virgem (1972), de Pedro Carlos Róvai;
O Supercareta (1972), de Ronaldo Lupo;
Um Virgem na Praça (1973), de Roberto Machado;
O Libertino (1973), de Victor Lima;
O Fraco do Sexo Forte (1973), de Osíris Parcifal de Figueroa;
Divórcio à Brasileira (1973), de Ismar Porto;
As Depravadas (1973), de Geraldo Affonso Miranda;
Como era Boa Nossa Empregada (1973), em episódio de Victor di Mello;
O Marido Virgem  (1973), de Saul Lachtermacher;
Ainda Agarro Essa Vizinha  (1974), de Pedro Carlos Rovai;
Uma Mulata Para Todos  (1975), de Roberto Machado;
Com as Calças na Mão  (1975), de Carlo Mossy;
Quando Elas Querem… e Eles Não (1975), de Ary Fernandes;
Cada um Dá o Que Tem (1975), em episódio de Sílvio de Abreu;
O Quarto da Viúva (1976), de Sebastião de Souza;
As Loucuras de um Sedutor  (1976), de Alcino Diniz;
As Mulheres que dão Certo  (1976), em episódio de Adnor Pitanga;
Possuídas pelo Pecado  (1976), de Jean Garret;
Presídio de Mulheres Violentadas  (1976), de Luiz Castellini, Oswaldo de Oliveira e Antonio P. Galante;
Pintando o Sexo  (1977), em episódio de Egídio Eccio;
Escola Penal de Meninas Violentadas  (1977), de Antonio Meliande;
Deu a Louca nas Mulheres  (1977), de Roberto Machado;
A Ilha dos Prazeres Proibidos  (1978), de Carlos Reichenbach;
Bonitas e Gostosas  (1978), de Carlo Mossy;
Nos Tempos da Vaselina  (1979), de José Miziara;
Histórias que Nossas Babás Não Contavam  (1979), de Oswaldo de Oliveira;
Quanto Mais Pelada… Melhor (1979), de Ismar Porto;
A Noite dos Imorais  (1979), de Reynaldo Paes de Barros;
Corpo Devasso  (1980), de Alfredo Sternheim;
O Império do Desejo  (1980), de Carlos Reichenbach;
A Prisão  (1981), de Oswaldo de Oliveira;
O Fotógrafo (1981), de Jean Garret;
As Prostitutas do Dr. Alberto  (1981), de Alfredo Sternheim;
Anarquia Sexual  (1982), de Antonio Meliande;
Tensão e Desejo  (1982), de Alfredo Sternheim;
Nunca Fomos Tão Felizes  (1984), de Murilo Salles.

Fontes:
Livros: Dicionário de Filmes Brasileiros (Antonio Leão da Silva Neto) e Cinema da Boca – Dicionário de Diretores (Alfredo Sternheim)
Sites: Mulheres do Cinema Brasileiro, Estranho Encontro e IMDb.