Pelé Eterno

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Pelé Eterno
Direção: Aníbal Massaini Neto
Brasil, 2004.

Por Vlademir Lazo Correa

Não é a primeira vez que Edson Arantes do Nascimento foi contemplado num documentário com um amplo material sobre sua carreira futebolística. Além de suas malfadadas investidas em filmes de ficção (Fuga Para a Vitória, Os Trombadinhas, etc.), o grande craque já havia sido tema de Isto é Pelé, que Eduardo Escorel dirigira nos anos setenta, com texto do cronista Paulo Mendes Campos e supervisão de Luis Carlos Barreto. Com material de arquivo do Canal 100 e da Globo, mostrando mais de cem gols, Isto é Pelé foi durante muitos anos uma das fitas mais procuradas no mercado nacional de vídeo e campeão de vendas no auge do videocassete.

O tempo passou e o antigo filme de Escorel foi sendo esquecido, como se o seu material estivesse defasado e urgisse a necessidade de um outro que ocupasse o lugar de filme oficialesco sobre o rei do futebol em nossa época que exige por demais excessos de informações e imagens icônicas. É a forma com que Pelé Eterno se apresenta por inteiro. Ainda que a maior parte carreira do jogador tenha se desenrolado num período em que o videotape ainda engatinhava, o trabalho do cineasta Aníbal Massaini Neto foi o de coletar todo e qualquer material imagético mais relevante em torno de Pelé dentro das quatro linhas.

O resultado é uma verdadeira orgia de gols e lances sensacionais do ex-atleta do Santos e da Seleção Brasileira, costurados numa narrativa didática disposta a cumprir a tarefa de ilustrar a trajetória completa de Pelé. Nada contra, desde que o documentário não se entregasse com vontade férrea à opção de reforçar o mito em torno da figura do homem e jogador, como se o desejo fosse o de agradar não tanto aos espectadores, mas sobretudo ao próprio Pelé. O homem é colocado num pedestal, quase que divinizado, o que resulta em uma simples exposição da sua vida e carreira, com a narração em off explicando o que na maioria das vezes está diretamente exposto nas fotos históricas e fragmentos fílmicos do homenageado, modificando muito do material de arquivo com o uso de computadores, para torná-lo mais palatável às platéias modernas.

O principal atrativo e cereja do bolo do filme de Massaini é a recriação daquele que o próprio Pele considera o mais belo entre os mais de mil e duzentos gols que marcou na carreira, num jogo entre Santos e Juventus, de 1959. Como não existem passagens filmadas desse gol, o documentário mostra depoimentos de atletas que participaram daquela partida, numa edição rápida com cada um deles descrevendo de memória um pedaço do lendário gol, que finalmente é recriado com o uso de computadores, com três balões de Pelé passando pelos zagueiros e o goleiro até fulminar as redes. Demais, ao mesmo tempo em que conta a biografia de Pelé, o documentário prossegue com a exibição de centenas de lances e gols (especialmente os das Copas do Mundo de 1958 e 1970), quase como se fosse uma edição esticada de um dos quadros de O Gol – O Grande Momento do Futebol, da TV Bandeirantes.

Trata-se de reiterar uma homenagem bem-intencionada a uma grande figura futebolística já devidamente explorada nos últimos cinqüenta anos. Ao público, resta deleitar-se (pelo menos os aficionados do esporte) com a revisão do futebol maravilhoso praticado pelo célebre jogador.

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Os Trombadinhas

Especial Futebol no Cinema Brasileiro

Os Trombadinhas
Direção: Anselmo Duarte
Brasil, 1979.

Por Filipe Chamy

No Brasil as coisas costumam ser ao contrário.

O que se espera de um cineasta que ganhou, ainda jovem, a Palma de Ouro no Festival de Cannes é que ele, a exemplo de um Truffaut — que, com o sucesso de Os incompreendidos, passou a um patamar de confiabilidade inaudito naqueles anos de conturbada renovação do cinema francês —, tenha a partir de então uma visibilidade tal que lhe permita oportunidades que dificilmente seriam colocadas à disposição de qualquer jovem iniciante. Mas, no caso de Anselmo Duarte, isso não só não ocorreu como aconteceu quase o total contrário.

Após o êxito inesperado de O pagador de promessas, a icônica encenação de Dias Gomes realizada pelo diretor, Anselmo Duarte viu-se cercado pela desconfiança, pela inveja e pelo preconceito. Os cinemanovistas da turma do Glauber o achincalhavam de todas as maneiras possíveis, afirmando que de alguma forma esse reconhecimento era um desserviço à autoralidade no cinema brasileiro, sendo um passo digno de um ex-galã qualquer de chanchadas alienantes; o público o abandonou após o difícil experimentalismo de Vereda da salvação, muito intelectualizado para conquistar as classes que acompanhavam sua carreira; os produtores cinematográficos viam seus projetos com descrença, não querendo investir em fracassos financeiros. Anselmo Duarte estava sozinho.

O que restava a Anselmo Duarte? Embrenhar-se pelos caminhos fáceis do cinema popular barato. A partir dos anos 1970, suas fitas cada vez mais flertavam com a pornochanchada sutil que era a ordem do dia para a maior parte dos cineastas brasileiros do período. Realizou episódios para longas-metragens, filmes de encomenda. Obras de sexualidade abundante e ingênua, rasas e sem muito valor estético, ao contrário do que parecia ser a preocupação do Anselmo diretor em seus anos de glória.

Após alguns anos nessas condições inglórias, Anselmo Duarte encerrou sua carreira de diretor com este Os trombadinhas. Trata-se de mais um filme irregular, certamente não tão ruim quanto poderia ser pela premissa, mas visivelmente um veículo para louvar o já mitológico Pelé e ainda passar uma mensagem social por meio de uma trama leve e movimentada, bem ao estilo das produções televisivas que o público brasileiro cada vez mais acompanhava na década setentista.

Trata-se da história de um homem (Paulo Goulart) que, sensibilizado com a situação dos menores abandonados e sua cooptação para o mundo da marginalidade e da baixa criminalidade, resolve empreender a nobre tarefa de organizar uma campanha para esclarecer as pessoas e evitar que mais abusos e injustiças sejam cometidos. Para que ninguém ignorasse a força da tal campanha, nada de mais eficaz que um garoto-propaganda de peso e renome: surge Pelé, que, bom moço, aceita sem hesitar a tarefa de conscientizar a população sobre o crescente problema dos trombadinhas.

Se a sinopse em si já é pueril, o filme ainda se supera: temos, por exemplo, Pelé fazendo as vezes de detetive, policial, investigador e até mesmo de lutador de artes marciais! Como uma espécie de super-herói tupiniquim, o lendário jogador de futebol persegue os exploradores dos menores, escapa de atentados, salva o dia. O final é irônico, mas soa bastante natural na realidade brasileira (da época e de hoje). Os trombadinhas é um filme dirigido de modo convencional, sem grandes trabalhos de câmera, montagem, direção de elenco etc.; passa por obra de um cineasta qualquer. Anselmo Duarte, sábio conformado à força, entendeu que, se prosseguisse no ofício, passaria de lenda a caricatura.