Filhos e Amantes

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Filhos e Amantes
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1981.

Por Sergio Andrade

O diretor Francisco Ramalho Jr. sempre demonstrou, desde seu primeiro longa, Anuska, Manequim e Mulher, um interesse especial na abordagem do universo feminino. Foi assim em Paula – A História de uma Subversiva, Canta Maria, e mesmo em À Flor da Pele e Besame Mucho. Não é diferente neste Filhos e Amantes.

O ponto de vista é feminino, narrado por Silvia (Lúcia Veríssimo), que desde o começo sabemos estar grávida do namorado Roberto (André De Biase), mas que reluta em revelar a verdade a ele, pois está em dúvida entre abortar e ter o filho. Os dois vão passar um feriado prolongado na casa de uma amiga dela, Marta (Denise Dumont), que mora com Bebel (Nicole Puzzi) e esta demonstra, pela fisionomia, não ter gostado nada da visita. As coisas se complicam com a chegada inesperada de Dinho (Hugo Della Santa), usuário de drogas pesadas e antigo amor de Marta (se separaram por ela ter abortado um filho que ele queria), e sua nova amiga Carminha (Rosina Malbouisson), um poço de insegurança. O tema da maternidade e seus dilemas perpassam toda a narrativa.

Entre caminhadas pelas trilhas da montanha e banhos de cachoeira pelados (filmagens realizadas em belas paisagens do Parque Nacional de Itatiaia e Agulhas Negras), Silvia terá um caso com Dinho, Marta outro com Roberto, Bebel sofrerá crises de ciúme, Carminha tentará o suicídio e sofrerá uma overdose, e todos passarão por momentos de tédio mortal. O encontro com um casal mais velho, Ruth (Renée de Vielmond) e Cláudio (Walmor Chagas), ex-exilado político sofrendo de um câncer terminal, servirá como uma lição de vida para esses jovens sem ideologia. E isso é importante, pois o filme retrata essa geração que cresceu durante a ditadura militar alcançando a maioridade no período de abertura política, estando bastante desorientados. O problema é que foi feito numa época problemática da produção cinematográfica do país, entre a decadência da pornochanchada e a dominação dos pornôs, e pouco antes da proliferação da AIDS e os cuidados com camisinha e agulhas descartáveis.

Produção de A. P. Galante, tem uma equipe técnica exemplar: belíssima fotografia de Antonio Luiz Mendes; cenografia e figurinos funcionais de Miqui Stedile; os cortes precisos do grande montador Mauro Alice e a música psicodélica, hipnótica, de Rogério Duprat, uma das melhores já ouvidas num filme nacional.

Mas é com os atores que o filme consegue criar empatia com o espectador. O elenco masculino (com direito a uma ponta muda do iniciante Paulo Gorgulho) é competente, porém são as cinco atrizes principais (Lúcia, Denise, Nicole, Rosina e Renée) que transmitem com beleza e talento os medos, certezas, alegrias e tristezas pretendidas pelo roteirista/diretor. Filhos e Amantes traça um belo retrato de uma época que não volta mais.

Paula – A História de uma Subversiva

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

Paula – A História de uma Subversiva
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1979.

Por Marcelo Carrard

Um dos primeiros filmes que iniciaram uma filmografia sobre o Regime Militar no Brasil foi dirigido em 1979, por Francisco Ramalho Jr, Paula – A História de uma Subversiva. Essa produção da Embrafilme foi lançada ainda no governo militar, na época em que se iniciava a abertura política e se criava a Lei da Anistia. Sem usar as metáforas que os cineastas do Cinema Novo criaram para poder driblar a Censura, o filme de Ramalho fala claramente de subversão, tortura, terrorismo de maneira simples e objetiva, sem maneirismos, com um clima de profundo desencanto e com muita sensibilidade. O filme tem tintas autobiográficas, remetendo a fatos reais da vida do diretor, com mudanças de personagens. O grande confronto da trama é entre um antigo militante comunista, que procura a filha desaparecida envolvida com drogas, e que precisa da ajuda de um policial, no passado um famoso torturador do DOPS, que prendeu sua grande paixão: Paula, uma estudante de arquitetura que partiu para a luta armada.

As possibilidades desse confronto dos dois homens é muito bem explorada. Armando Bógus no papel do policial está perfeito, sem caricaturas. A bela fotografia de Zetas Malzoni é muito criativa, principalmente na composição das diferentes épocas em que o filme se passa. Malzoni colaborou com Ramalho em O Cortiço e fotografou clássicos do cinema brasileiro como Os Amantes da Chuva e Eles Não Usam Black Tié. É interessante de se perceber uma espécie de auto citação dentro da construção do roteiro. Assim como em Á Flor da Pele, filme anterior de Ramalho, existe uma turbulenta relação amorosa entre um professor casado e sua aluna, com conseqüências trágicas. A mesma relação se encontra no belo filme de Valerio Zurlini, A Primeira Noite de Tranqüilidade.

A sensação de melancolia, niilismo e desencanto aparece em duas frentes. Na amargura do professor que percebe que seus ideais políticos de nada adiantaram e na “Geração do Desbunde” retratada na figura da jovem esposa do professor, que vive a angústia da sexualidade livre e das drogas – no caso do final dos anos 70 e início dos 80, a cocaína. Ramalho antecipa nesse filme a sensação de derrota que as gerações politizadas sofrem hoje em um mundo em que esquerda e direita são apenas palavras e o que realmente comanda o mundo é o mercado financeiro globalizado. Uma ousadia para a época era mostrar as prisões políticas, a tortura, a retórica de esquerda, coisas nunca imaginadas anos antes por causa da rígida censura. Pouco tempo depois, com o filme Pra Frente Brasil, é que o cinema brasileiro expôs na tela as mazelas do Regime Militar, e mesmo sofrendo interdições da censura, pode ser exibido no Brasil e no exterior.

Mesmo com a forte sensação de desencanto expresso em Paula – A História de uma Subversiva, Ramalho optou por um final embebido em poesia na singela imagem da irmã de Paula diante do carrinho onde o pássaro tira a sua sorte. Seria uma pequena gota de esperança em um filme amargo, sombrio, mas de grande força dramática até hoje. Um clássico genuíno do cinema brasileiro.

O Cortiço

Dossiê Francisco Ramalho Jr.

O Cortiço
Direção: Francisco Ramalho Jr.
Brasil, 1978.

Por Andrea Ormond

Escrito em 1890, auge do chamado naturalismo brasileiro, o romance O Cortiço, do escritor maranhense Aluísio de Azevedo, significa bem mais do que pensam entediados estudantes secundaristas, normalmente fadados a lê-lo por obrigação curricular. Antes de ser vitrine morta, exemplo de tempo e pensamento ultrapassados, O Cortiço diagnostica muitas delícias e vícios brasileiros, bem mais até do que certas provocações revisionistas do século XX.

O filme homônimo, dirigido por Francisco Ramalho Jr., infelizmente não alcança a plenitude do livro, e pode-se dizer que, a exemplo de tantas outras adaptações cinematográficas, somente arranha a superfície do tema, como se realizasse em apanhado de imagens uma idéia geral da obra literária.

Vindo de um dos melhores exemplares do cinema setentista – À Flor da Pele (1976) – Ramalho nunca mais encontraria, como diretor, a força do embate entre o intelectual quarentão interpretado por Juca de Oliveira e a borderline patricinha incorporada por Denise Bandeira. Verdade que Filhos e Amantes (1981) e Besame Mucho (1986) são ótimos, porém À Flor da Pele indicava um artista nobre, em outro patamar de realização. Sair dessa tour de force para O Cortiço é algo que só um acidente pode explicar.

João Romão, personagem principal do livro e do filme, português avarento, dono da estalagem – cortiço para os detratores – amasiado com a negra Bertoleza (Jacira Silva), ganha tom simpático vivido por Armando Bógus. Romão é daqueles portugueses que prosperam na antiga colônia, às custas de desprendimento moral e crueldade. Dono também de uma pedreira ao lado do cortiço, o gajo sente inveja do patrício Miranda (Maurício do Valle), que compra um título de Barão e tem filha (Zaira Zambelli) em idade de casar.

O resto é o desfile – em baixa freqüência – dos arquétipos do livro. Rita Baiana (Betty Faria) rouba o galego Jerônimo (Mário Gomes) da mulher, e o envolve em uma briga por ciúme. Pombinha (Silvia Salgado), jovem que tinha dificuldades em menstruar, só vira “moça” depois de um gostoso tête-à-tête lésbico com a madrinha. Os “causos” se sucedem, embora tudo pareça levado a toque de caixa.

Apesar da precariedade, O Cortiço foi bastante caro para os padrões nacionais, e a reconstituição de época nem é das piores. Se até hoje sotaques e prosódias são motivos de chacota nas novelas da Globo, aqui o problema maior reside justamente na preguiça dos atores em falarem com gosto oitocentista. Zaira Zambelli, por exemplo, saiu direto de um chopp no Baixo Leblon para o século XIX.

Mário Gomes é o mesmo de sempre, e nem seu entendimento com Betty Faria – importado da novela das oito, Duas Vidas – funciona a contento. Ramalho poderia ter trazido Francisco Cuoco – que na novela fazia triângulo amoroso com a dupla – ou mesmo uma indefectível cenoura – mentira sensacionalista espalhada em 1977 contra Gomes, dando conta de que o galã viril curtia experiências sexuais pouco ortodoxas.

O pano de fundo do movimento republicano, da covardia escravagista – Romão falsifica carta de alforria para Bertoleza – e a óbvia metáfora da formação sócio-cultural do país no microcosmo da estalagem, de uma forma ou de outra sobrevivem na revisão fílmica. A montagem do grande Silvio Renoldi, a dedicatória a Lulu de Barros – quem primeiro adaptou O Cortiço para o cinema, nos anos 40 – e a trilha cantada por Zezé Motta melhoram o resultado.

Logo, se o leitor não tiver paciência com o livro, que assista ao filme. Mergulhando em platitudes que fariam Aluísio de Azevedo considerar dar uma mão no roteiro, o cortiço de Francisco Ramalho é curioso, bem-feitinho, porém tão pálido que desapareceu no tempo. Já o de Azevedo – falecido em 1913, o escritor não deve ter conhecido sequer D. W. Griffith – mantém calor inefável, o que prova ser a transposição entre artes uma tarefa dura, hercúlea.