Shock: Diversão Diabólica

Dossiê Jair Correia

 

Shock: Diversão Diabólica
Direção: Jair Correa
Brasil, 1984.

Por Vlademir Lazo

O título pode não trazer uma associação imediata, mesmo para os que cultivam o gosto pelo cinema brasileiro mais popular, porém Shock: Diversão Diabólica carrega consigo a importância de ser pioneiro em um gênero: o primeiro slasher do cinema nacional.  No caso, os chamados slashers movies popularizados a partir do Halloween de 1978, de John Carpenter, e diluído à exaustão nos anos seguintes pelas continuações do mesmo, e imitações diretas como os primeiros exemplares de Sexta-Feira 13, A Noite das Brincadeiras Mortais, entre tantos outros. Tudo a partir de uma estratégia dos estúdios de continuarem achando uma forma de lucrar com um nicho que parecia interminável (e que ainda se mantém com derivados como a franquia Jogos Mortais e congêneres).

Coube ao diretor e montador Jair Correa a idéia de conceber o que seria uma versão tupiniquim do subgênero (ainda que o próprio cineasta, em entrevista pro site Boca do Inferno, recuse-se a admitir as semelhanças com os filmes norte-americanos, alegando tê-los visto só depois de ter realizado Shock), tornando-se parte de uma longa tradição de cinema de terror realizado no Brasil. Quem vê o cartaz pode achar que se trata de um autêntico slasher americano (o título em inglês com subtítulo genérico é perfeito nesse sentido), ou os que apenas se detiveram em algumas imagens dos bootlegs de qualidade lamentavelmente ruim que restaram do VHS lançado na época podem, num olhar apressado, acreditar que estamos diante de uma produção Z ou assumidamente trash, o que tampouco é verdade. Na mesma época, Jair dirigiria um policial bastante respeitado como Retrato Falado de uma Mulher Sem Pudor, e o elenco de Shock: Diversão Diabólica conta com atores conhecidos como Aldine Muller, Claudia Alencar, Mayara Magri e o então jovem Taumaturgo Ferreira.

Com isso tudo, é óbvio que sabemos que não há muito mais a se esperar em termos de estrutura do que mais uma reedição do suspense desses velhos e formulaicos exemplares do subgênero em questão. Mas também não seria exagero dizer que o filme por vezes captura aquele tom de suspense juvenil presente nos velhos contos de mistério da Coleção Vagalume que liamos na pré-adolescência, só que com mais sanguinolência e final negativo. Shock começa num clima de festa que vai se dissipando à medida que o filme avança: na abertura, vemos a apresentação de uma banda pop adolescente tocando em uma reunião com muitos jovens, danças e bebidas. Finda a apresentação, os músicos se dirigem a um sitio isolado e à beira de um lago onde são obrigados a passarem a noite para cuidarem dos instrumentos, levando juntos algumas garotas para fazer companhia. A noitada segue com sexo e namoros, consumo de drogas, brigas e algum bate-papo

Toda a curtição é interrompida com o surgimento de um indíviduo desconhecido e cuja identidade não é nos permitido ver, liquidando e destroçando um a um dos adolescentes. Só o que enxergamos com destaque no assassino são os seus pés, calçados em coturnos negros. As mortes são rápidas, mas filmadas com requintes de sanguinolência e boas doses de gore. Muito da presença do psicopata é por vezes sugerida pela decupagem e edição de som, além das sequências em que o grupo restante após as primeiras mortes, confinados em um cerco num dos quartinhos do sitio, detecta os sinais do vilão apenas pela bateria que ele toca sistematicamente num outro cômodo da casa.

Os slashers movies possuíam um elemento moralista que triunfou na era Reagan daquele período, e que coincide com muito do que vemos em Shock, por estar intrincado à própria estrutura do subgênero. Após o estouro e consolidação da revolução de costumes dos anos 60 e 70, os oitenta, de certa forma, representaram um fim de festa (marcados sobretudo pelo advento da AIDS). Nos slashes quase sempre fica sugerido que o vilão é um agente do mal vindo do inferno para dizimar os pecados de uma juventude ingênua mas perdida em meio a drogas, sexo e bebidas. Uma punição pelos atos levianos, os mau-cuidados, a diversão inconsequente e a luxúria. As regras são claras dentro do “Quem Será o Próximo” no velho jogo de Resta 1 proposto por sua estrutura. Mas em Shock: Diversão Diabólica, o mais cruel é o recado que fica do seu plano final: os verdadeiros monstros permanecem à solta. 

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