Romance

Especial A Aids no Cinema Brasileiro

 

Romance
Direção: Sérgio Bianchi
Brasil, 1988. 

Por Filipe Chamy 

           

Estamos em 1988 e o Brasil está finalmente saindo de uma longuíssima ditadura (de um quarto de século), só não considerada mais terrível porque a censura, a alienação e a violência da repressão fizeram sua tarefa de acobertar bem as vilanias cometidas pelas mãos oficializadas dos detentores do poder. 

Um filme como Romance seria impossível anos antes de sua feitura, ou no mínimo seria engavetado sem muita esperança de resgate. 

Ou teria, recurso muito apreciado por certos artistas (sobretudo na música), vindo à luz sob mil máscaras de disfarce, com metáforas contra a opressão e com toda sorte de símbolo escondendo as reclamações “reais”. 

O filme de Bianchi não é assim tão poetizado. É, antes, cru e incisivo. Não que diga algo exatamente novo; mas naqueles anos ainda traumáticos — ou traumatizados — era com um certo pudor com que as coisas legítimas eram pronunciadas, pois vai que se arrependiam de tanta liberdade e de novo o cassetete comia. 

Pois bem, aqui temos um caldeirão explosivo: denúncias de imoralidade administrativa, conchavos políticos, degradação moral de uma sociedade por demais fragilizada pela estrutura arcaica em que se inseria, doenças sexualmente transmissíveis etc. Tudo que os generais e poderosos da ditadura tentavam a todo custo negar, seja com censura, com informações manipuladas ou, simplesmente, com a truculência exercida pelos repressores das rotas da vida. 

Romance é atual ao mesmo tempo em que não é. É, porque todas essas coisas ainda existem e persistem, estão cada vez mais naturalizadas no inconsciente de todos; não é, porque critica de uma maneira meio infantilizada, teatral, com o convencionalismo cênico de uma peça em que os atores gritam um texto artificial, travado, mesmo ingênuo. Porque é tudo verdade, mas em cinema é capital lembrar que o importante não é o que é dito, mas como. Nesse ponto é bastante perceptível que Bianchi não tem tanta pretensão (ou talvez competência) de ir além de sua mensagem. E isso é mais um fator limitante: é um cinema engajado, mas esse tipo de expressão é datada, daquela maneira desagradável, como ler um manifesto parado no tempo. E se pensarmos que Romance tem pouco mais de vinte anos, essa distância criada pela própria obra parece bastante incômoda. 

Caio Fernando Abreu, o célebre escritor, é um dos roteiristas deste Romance — e a ironia é que ele morreu por complicações advindas da AIDS/SIDA, o mesmo mal que persegue (não se sabe se apenas em sua cabeça) um dos personagens do filme, acuado pela culpa e pela incerteza, reflexo de um novo olhar para os relacionamentos (não apenas homoafetivos, é evidente) e uma nova necessidade de se cuidar e refletir sobre os tempos atuais. Não se trata bem de uma “ética”; a AIDS é um grande mal contemporâneo e não exatamente de uma condição exótica. Está aí pelos cantos, nas crianças (não só da África, como gostam de pensar os acomodados), nas famílias, nos amantes, nos companheiros, nas mulheres grávidas, é onipresente e avassaladora. O silêncio dos nossos chumbados anos não extirpou a doença, apenas contribuiu para engrossar a camada de ignorância acerca das formas de contágio e prevenção. Portanto, era mister reforçar o combate educando as pessoas com informação e exemplos, e obviamente a arte não poderia fugir desse quadro, ignorando completamente essa (triste) experiência humana, o drama dos soropositivos e todo o quadro anexo, como a tortura da suspeita, a dor da confirmação do diagnóstico e a possibilidade de se viver dignamente mesmo portando o vírus maligno. 

Então Romance não chega nunca a ser um grande filme, mas dá sim a sua ajuda.

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