O Matador Profissional

Especial Jece Valadão Cineasta

O Matador Profissional
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1969. 

Por Daniel Salomão Roque 

Coincidência ou não, uma série de elementos apontam para O Matador Profissional como uma releitura de O Samurai (1967), obra-prima de Jean-Pierre Melville que trazia Alain Delon no papel de um mercenário lacônico às turras com as testemunhas de seu último crime. Na “versão nacional”, o protagonista também é um assassino de aluguel, também fala pouco e também é perseguido, mas algumas diferenças são evidentes, a começar por um certo senso de fatalismo, que atravessa o filme original mas não aparece de forma tão marcante no brasileiro. 

De todo modo, Jece Valadão tenta trazer para sua obra, sem muito sucesso, aquilo que faz da fita francesa algo tão fascinante: a aproximação brutal entre a plateia e um personagem completamente avesso ao mundo que habita. Tanto O Samurai quanto O Matador Profissional são crônicas sobre a intimidade de lobos solitários, narrações sobre o cotidiano de verdadeiras incógnitas humanas. O maior problema, no caso do segundo filme, encontra-se no seu ritmo falho: cineasta aventureiro, porém engessado, Jece não consegue reproduzir satisfatoriamente a estrutura minimalista sobre a qual se baseia o estilo de Melville – um dos mais brilhantes e seminais autores que o cinema policial já teve, diga-se de passagem. 

O icônico plano inicial de O Samurai, onde contemplamos Alain Delon deitado em sua cama, imerso no silêncio de uma espelunca qualquer, acompanhado apenas por seu pássaro de estimação e por si mesmo, aparece replicado nos primeiros minutos de O Matador Profissional, com gaiola e tudo. No filme brasileiro, o mercenário não é devidamente pago pelo trabalho que executa, se envolve com uma prostituta e entra num jogo de gato e rato com seus contratadores, situações que, no final, acabam por se entrelaçar. Ao contrário de Jean-Pierre Melville, Jece Valadão não estende o silêncio do assassino aos coadjuvantes; pelo contrário, eles falam por si mesmos e pelo protagonista, proclamando diálogos caricatos que diluem, definitivamente, a secura da narrativa. 

Mas a despeito de suas debilidades, O Matador Profissional não deixa de ser uma obra interessante: ela constitui, simultaneamente, uma rara incursão do cinema nativo no film noir, uma curiosa homenagem a um dos maiores clássicos de seu tempo e, acima de tudo, um precioso testemunho da face menos conhecida de Jece Valadão – a de cineasta. 

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