Nossa Canção

 

Por Mariana Souto

Todos juntos somos fortes
Os Saltimbancos em Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte

 

Léo (Cauã Reymond) é um jornalista de quase 30 anos, sem emprego fixo, com situação financeira crítica. Vive em São Paulo, abrigando a amiga Ângela (Luiza Mariani), uma jovem mãe deprimida, bulímica e desempregada, com seu filho Lucas, praticamente criado pela empregada Leda (Adriana Lodi). Leo conhece Marcin (Caroline Abras), uma pessoa de gênero um tanto indefinido, que trabalha na zona, com tráfico de drogas, e Wilson (João Miguel), um taxista prestes a perder seu veículo. Os três começam a participar de ações ilícitas, como assaltos, ingressando numa vida de crime. 

Desses sujeitos fragmentados erige-se uma família não convencional. Três amigos da rua, uma amiga hóspede e seu filho e a empregada doméstica radicalizam a cada vez mais freqüente pluralidade da constituição familiar. As classes se misturam nesse agrupamento heterogêneo, que se ancora no personagem Leo. Diz a música dos Saltimbancos, que surge na trilha do filme em diversos momentos: 

Um bicho só é só um bicho
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer 

Pessoas que se esbarram na noite paulistana viram amigos, viram parceiros de crime, viram família. Forma-se, entre os sujeitos solitários e desgarrados, um sentido de grupo: “a perda de identidade e/ou estabilidade cria nos seus personagens uma necessidade de se apegar a algum grupo que remeta a estrutura familiar, que forneça afeto” (Gabriel Martins, em crítica na Filmes Polvo). Perde-se a identidade inclusive em sentidos mais concretos, com a subtração do documento que simboliza a identificação e integridade do sujeito – Ângela tem sua cédula roubada pela travesti Sybelle; Leo tem seu CPF cancelado. Esta é uma preocupação recorrente na filmografia de Belmonte, como em A Concepção (2006), filme em que jovens brasilienses se fantasiam num movimento que propõe a morte ao ego. O próprio cartaz do filme é uma foto em que a atriz Rosanne Mulholland, nua, segura um documento de RG se incinerando. 

Se nada mais der certo tem um forte sentido gregário que desafia a noção do individualismo da classe média. É certo que cada um ali tem interesses próprios e motivações individuais, mas por estarem juntos no mesmo barco, unem-se. Cada um contribui com aquilo que lhe é particular, mas juntos formam um todo maior, potente. Aderem-se para realizar trabalhos, mas agrupam-se também num sentido de fraternidade em que o afeto transborda. Quase inexistentes são as cenas filmadas com apenas um personagem. Estão sempre juntos, desfrutando a companhia uns dos outros em momentos de pura convivência, como na viagem à praia, os passeios de carro, as conversas de bar, o ócio no sofá, a dança na sala de casa. 

Unem-se também para a execução dos crimes; ali cria-se uma certa divisão do trabalho, bem à maneira do modo de produção capitalista. Uns planejam, outros executam; uns distraem, outros cuidam da segurança. “Eu vou com o carro, você vai com a sua cara”, diz Wilson a Leo. Construção bem semelhante à música dos Saltimbancos, mais uma vez: 

Uma gata o que é que tem? As unhas. E a galinha o que é que tem? O bico. E o jumento o que é que tem? As patas. E o cachorro o que é que tem? Os dentes.
Junte um bico com dez unhas, quatro patas, trinta dentes e o valente dos valentes ainda vai te respeitar. Todos juntos somos fortes, somos flechas e somos arco. Todos nós no mesmo barco, não há nada pra temer. 

Em Se nada mais der certo, o bordão todos juntos parece acompanhado de um implícito tudo junto. A televisão está sempre ligada, telefone e interfone tocam ao mesmo tempo, pessoas conversam, a trilha sonora invade a cena, inscrições se sobrepõem à tela… Se os jovens vivem mundo acelerado de superexposição a informações, reviravoltas, ruídos e gritos, assim é também o filme. Não há minimalismo. Desenvolve-se uma estética do excesso, uma estilização que recorre à imagem texturizada, granulada. A câmera é quase sempre na mão e a montagem, frenética. Tudo acontece ao mesmo tempo e o espectador precisa lidar com vários acontecimentos se desenrolando concomitantemente, algo semelhante ao modo de vivenciar a internet, com a abertura de várias janelas. 

A trilha sonora do filme parece funcionar, por vezes, de maneira independente de uma narrativa. Personagens se alternam ora expondo reflexões, ora declamando poesias. A trilha musical se imprime com insistência, às vezes com o volume muito elevado, como na cena do grande golpe. 

Como a música acima, intitulada Bicharada, comparações com o mundo animal se espraiam pelo diálogos do filme. Wilson caracteriza seu trabalho de taxista como um zoológico. Do camarão que dorme, a onda leva às rêmoras que comem os restos deixados pelos tubarões cegos passando pela família de porcos-espinhos habitantes de um país frio, abundam representações – algumas bastante elementares e elas próprias infantilizadas – que funcionam como pequenas fábulas para falar da situação humana na cidade selvagem, situada numa conjuntura capitalista voraz. 

Era uma vez
(e é ainda)
Certo país
(e é ainda)
Onde os animais eram tratados como bestas
(são ainda, são ainda) 

Ainda que contenha esse cunho crítico, a canção não deixa de ser uma referência à infância dos personagens, que foram crianças nos anos 1980, e ativa a memória de um tempo saudoso, de maior segurança, quando não precisavam se sustentar e lidar com condições sociais e econômicas tão adversas. Se nada mais der certo retrata um fenômeno típico da contemporaneidade: o mal-estar de uma certa juventude tardia, perdida, o que acontece com forte auxílio de sua trilha sonora, seja pelo conteúdo das letras ou pela atmosfera nostálgica que estabelece. 

* Texto inspirado em trechos da minha dissertação de mestrado “Figurações em crise – juventudes de classe média no cinema brasileiro contemporâneo”, concluída na UFMG em 2011. 

Mariana Souto é mestre em comunicação social, crítica de cinema e diretora de arte.

 

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