Nós, Os Canalhas

Especial Jece Valadão Cineasta

Nós, os Canalhas
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1975.

Por Vlademir Lazo

Não fosse por ter criado uma persona tão marcante como ator no cinema brasileiro, Jece Valadão precisaria ser lembrado também como cultivador de um dos gêneros mais maltratados do cinema brasileiro (ou pelo menos por quem se dedica a estudá-lo): o policial. Tanto nos que dirigiu ou apenas participou como intérprete o resultado pode nem sempre ter sido muito expressivo, mas embora também funcionasse em outros gêneros, sua presença em cena parecia encontrar um habitat perfeito quando se dedicava às fitas policiais em que gostava de trabalhar.

Uma delas, Nós, os Canalhas, fruto de sua produtora Magnus, pode-se dizer que foi criação inteiramente sua, desde a história e o roteiro, até à produção e direção. A trama parece saída diretamente de um daqueles exemplares das clássicas e infames coleções de livrinhos de bolso com histórias policiais que pululavam nas bancas de jornal da época, mas sua natureza pulp poderia estar também em algum noir norte-americano da década de 1940. Basta lembrar que até mesmo Humphrey Bogart apareceu como um personagem com o rosto enfaixado e depois a face reconstruída e mudada no brilhante Prisioneiro do Passado (1947), de Delmer Daves.

Jece Valadão acrescenta pelo menos um detalhe importante que não existia no filme de Bogart (que, de resto, não guarda maiores semelhanças com o de Jece): a existência de um irmão gêmeo, sendo que a princípio ambos são interpretados por Celso Faria (ex-ator de faroestes italianos), um deles marginal e contraventor (Cláudio José), há mais tempo no Rio de Janeiro, outro mais bom-moço (José Cláudio), recém-chegado a capital carioca vindo do Espírito Santo, e que confundido com o irmão, sobrevive a uma chacina que o deixa com a face desfigura, e vitima sua esposa, grávida de oito meses.

Num hospital, José Cláudio passa por uma cirurgia que salva o seu rosto, uma plástica milagrosa que faz com que Jece Valadão assuma o personagem. Refeito fisicamente, mas não com sua paz e serenidade, vai atrás dos rastros do irmão e dos gângsteres que o atacaram. Descobre uma dançarina, Shirley (Vera Gimenez), ex-amante do irmão e de um chefão do crime, Tatá (Rubens de Falco), a quem se apresenta com uma identidade diferente pedindo trabalho até se tornar praticamente o seu leão-de-chácara, ambos protegendo-se mutuamente como patrão e empregado.

Há rápidas e falsas referências ao Esquadrão da Morte (uma das polêmicas da época e equivalente ao que seria hoje o Bope), porém o núcleo de Nós, os Canalhas permanece sempre a investigação e vingança lentamente concebidas pelo personagem de Jece Valadão, em meio a marginalia, cafajestice, meretrizes e travestis. O filme por vezes sofre com problemas de montagem e direção desajeitada de Valadão, mas dentre os pontos altos contém ao menos uma sequência sublime: um dos flashbacks com um encontro regado a drogas ao som da bela versão de Roberto Carlos para “El Día Que Me Quieras” (presente num dos discos do cantor em sua fase do medalhão). Demais, Nós, os Canalhas é do começo ao fim cinema popular cafajeste e politicamente incorreto.

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