Estou com Aids

Especial A Aids no Cinema Brasileiro

 

Estou com Aids
Direção: David Cardoso
Brasil, 1986.

Por Adilson Marcelino

A década de 1980 revelou para o mundo uma das maiores tragédias do nosso tempo: A Aids. Ainda hoje sem cura, mesmo que com tratamentos avançados que prolongam a vida dos infectados com o vírus HIV, a Aids vem ceifando vidas no mundo inteiro, independente de idade, classe social, raça e identidade sexual.

Mas no princípio, a ciência e a sociedade apontavam, equivocadamente,  os tais grupos de risco: homossexuais masculinos, prostitutas, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos. E os homossexuais, principalmente, foram os que mais sofreram, na pele e no preconceito, já que a Aids era chamada, inclusive, de câncer gay.

O filme Estou com Aids, produzido pela Dacar Filmes, de David Cardoso, é pioneiro na abordagem sobre o tema nos nossos cinemas, aliando ficção e documentário. Cardoso dirige e também comanda a cena no filme, já que é o entrevistador que sai a campo para ouvir médicos, psicólogos, anônimos, artistas e celebridades sobre o assunto.

Há em Estou com Aids toda a imperfeição de algumas produções mais pobres da Boca, sobretudo a estética descuidada, sem o famoso recurso da criatividade para driblar as dificuldades – não se pode perder de vista que foi um filme realizado totalmente de forma independente por Cardoso, que, inclusive, apostou que seria um sucesso, mas resultou em tremendo fracasso de público.

 O roteiro de Luiz Castillini é implacável com os personagens, para os quais a única saída é a morte. E esse fator é, inclusive, potencializado pela direção no uso exagerado da maquiagem. Mas é necessário salientar que David Cardoso, como repórter, vai em busca de diferentes fontes na época e tenta se manter neutro diante dos entrevistados, ainda que sua expressão facial pareça querer traí-lo.

Daí, temos tanto o esperado discurso alarmado de Pedro de Lara quanto um inesperado da cantora Alcione que joga a culpa nas costas nos turistas estrangeiros de olhos azuis.

Na parte ficcional da trama, o destaque fica com a personagem de Débora Muniz, uma empregada doméstica que é infectada pelo patrão bissexual. Durante o filme, acompanhamos sua tragédia, desde a perda do emprego, a recusa de abrigo da família no interior e seu final anunciado.

Estou com Aids é filme conduzido com mão pesadíssima, mas jamais deixa de ser interessante – além da importãncia pelo seu pioneirismo no cinema brasileiro.

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