Cazuza, o tempo não para

Especial A Aids no Cinema  Brasileiro

 

Cazuza, o tempo não pára
Direção: Sandra Werneck e Walter Carvalho
Brasil, 2004.

Por Edu Jancz

“Sou ariano. E ariano não pede licença, entra, arromba a porta. Nunca tive medo de me mostrar. Você pode ficar escondido em casa, protegido pelas paredes. Mas você tá vivo, e essa vida é pra se mostrar. Esse é o meu espetáculo. Só quem se mostra se encontra. Por mais que se perca no caminho.”

Esta frase dita por Cazuza, pseudônimo de Agenor de Miranda Araújo Neto, define bem seu autor. E o roteiro de como foi estruturado o filme Cazuza, o Tempo não Pára. Esculpido  por Fernando Bonassi e Victor Navas ( baseado no livro Cazuza, Só As Mães São Felizes, escrito pela mãe do cantor, Lucinha Araújo, e pela jornalista Regina Echeverria) o roteiro é de extrema habilidade ao “desenhar” personagem e seu DNA musical em extrema consonância.

O filme, mescla primorosa de ficção que parece documentário – principalmente pela atuação espetacular de Daniel de Oliveira como Cazuza –, segue um caminho de linhas retas ao apresentar o jovem Cazuza, sua atribulada relação com os pais, com a vida. Sua bissexualidade, as drogas e, principalmente, sua extrema vontade em existir, se mostrar, marcar presença.

Nasce a parceria entre Cazuza e Frejat. Parceria quase perfeita – apesar das visíveis diferenças de personalidade. Os primeiros sucessos, as idas e vindas com os amores da vida – todos, sem exceção –  e a marca registrada de Cazuza: ser exagerado, ser intenso, ser amado e odiado. Afinal: só quem se mostra se encontra.

Cazuza, o Tempo não Pára é o retrato de uma geração em busca de seus objetivos, como ele expressa na música Ideologia:

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro… 

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Pra viver… 

Ou a geração que expressa, aos gritos, suas reivindicações, em um país “em construção”,  onde “O Tempo não Pára”: 

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A notícia de Cazuza portador do vírus HIV é impactante. Não inesperada. No início dessa doença fatal, começo dos anos 80, mesmo com todo o esforço dos seus pais – de ótimo poder aquisitivo – o destino estava selado e era breve.

Cazuza nunca se entregou à doença, como nunca se entregou em vida. Mesmo debilitado, não tendo forças para se locomover, faz a última aparição numa cadeira de rodas.  Sua imagem dessa apresentação é o retrato emblemático da AIDS, antes dos  remédios de ponta, dos coquetéis.

Cazuza, o Tempo não Pára é o retrato digno de um artista exagerado, controvertido, genial e sua época. Ver o filme para “julgar” o cantor e compositor é pura perda de tempo. Um exercício inútil.  Cazuza faz parte da nossa história. É um ser humano como, praticamente, todos nós, que “de perto” somos muito estranhos. A obra de Cazuza “fala” profundamente para os seus fãs e detratores.

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