As Sete Faces de um Cafajeste

Especial Jece Valadão Cineasta

As Sete Faces de um Cafajeste
Direção: Jece Valadão
Brasil, 1968. 

Por Daniel Salomão Roque  

Quando nos dispomos a assistir um filme intitulado As Sete Faces de um Cafajeste, certas premissas nos parecem quase certas. A primeira delas é o cinismo. Afinal de contas, cafajeste é uma palavra deveras forte, embora datada, e costuma polarizar todas as orações nas quais esteja inserida. A segunda, evidentemente, é a fragmentação, que, supomos, pontua de algum jeito qualquer a vida deste indivíduo desprovido de escrúpulos amorosos. 

O filme começa, o tempo passa, e as premissas se revelam verdadeiras da maneira mais curiosa possível. O cafajeste, claro, é Jece Valadão, que dá corpo ao personagem e tem seu nome creditado nas funções de roteirista, produtor e diretor. Nesta e noutras fitas, Jece se mostra um cineasta irregular, desajeitado, mas sem medo de riscos e com um olhar sempre atento para as possibilidades oferecidas pela linguagem – e é aqui mesmo, no âmbito da linguagem, que a fragmentação se opera de modo radical, a despeito das sete faces serem, na realidade, uma metáfora das últimas relações mantidas pelo personagem com o sexo oposto. 

O cafajeste leva uma vida de mordomias, e captura de modo inexplicável a atenção de algumas das mais belas atrizes do cinema nacional: Odete Lara, Betty Faria, Tânia Scher, Norma Blum, Marisa Urban, Georgia Quental, Diana Azambuja e Adriana Prieto são as mulheres que deitam em sua cama para, logo em seguida, serem descartadas sem muita cerimônia em função de uma outra parceira ou de algum capricho qualquer. 

O filme seria tremendamente machista, quase misógino, não fosse a patetice do protagonista: é difícil não simpatizar com ele; por outro lado, é impossível levá-lo a sério. Feio, pouco gentil, não muito inteligente e dono de hábitos patéticos, o cafajeste brinca com patinhos de borracha na banheira e se dá o trabalho de estacionar o carro na praia só para roubar a batina da qual um padre se despe para entrar no mar. 

No entanto, a imbecilidade desta criatura não é empecilho para o despertar de rancores nas suas diversas companheiras. O cafajeste passa a receber ameaças de morte anônimas, que conduzem o enredo, por vias cômicas e tortas, na direção do thriller. A obra, então, deixa de ser uma simples sátira das relações entre os sexos para se tornar uma grande piada sobre a década de 60. Jece Valadão conquista garotas discursando sobre a moral burguesa; seus desafetos o chamam de reacionário. Naquela que talvez seja a cena mais memorável do filme, uma de suas parceiras lhe confessa que tem como meta a obtenção de uma bolsa de estudos na Europa, onde pretende conhecer pessoalmente Alain Resnais e Jean-Luc Godard. O casal passeia por uma galeria de arte. Ele mira o poster de Made in USA e, entre dois bocejos, diz: “genial”. 

O cinismo do protagonista só não é maior que o da própria narrativa, espécie de elo perdido entre o nascente cinema marginal e a pornochanchada que se consolidaria alguns anos adiante: com o primeiro, As Sete Faces de um Cafajeste compartilha um evidente gosto pelo fazer cinematográfico, pelo deboche, pela quebra da quarta parede, pela subversão de alguns elementos da cultura popular; com o segundo, uma visão cômica da nudez, um certo chauvinismo que mira o sexo como mísera inspiração do humor pastelão. E é nesse caráter híbrido que reside a força da obra em questão. 

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