As Aventuras da Turma da Mônica

Dossiê Jair Correia

 

As Aventuras da Turma da Mônica
Direção: Maurício de Sousa
Edição de Som: Jair Correia
Brasil, 1982. 

Por Filipe Chamy 

É bem comum vermos comentários sobre certos filmes comparando-os a histórias em quadrinhos. 

Mas um gibi não tem um ritmo estabelecido, porque eles variam em gêneros, temáticas e mil condicionantes.           

É fácil perceber a diferença entre uma aventura clássica do Tio Patinhas (trama elaborada, desenho detalhista) e uma tira dos Peanuts (cenários simples, diálogos filosóficos), por exemplo. Então não dá mesmo para generalizar a coisa.           

Alguns cineastas, como Federico Fellini, José Mojica Marins e Alain Resnais, nunca esconderam seu fascínio pela “nona arte”, e legaram obras excepcionais onde flertavam com uma estética vinda dessa paixão, uma inspiração evidente mas nem por isso óbvia e formulaica.           

Mas há por vezes casos como o deste As aventuras da turma da Mônica, em que quem assume a chefia do filme que tem por fonte um quadrinho é o próprio quadrinista. Na verdade, faz parte da ambição de Mauricio de Sousa virar uma versão “abrasileirada” de Walt Disney (que, como sabemos, era antes um empresário que um artista). Seus esforços são dignos de consideração, mas falta a ele todo o aparato de que Disney se servia para legar produtos com acabamento perfeito e assombroso: Mauricio não tinha em 1982 uma equipe de animadores tão experiente e talentosa quanto a que Disney possuía quando em 1937 deu à luz o magnífico Branca de Neve e os sete anões, nem tampouco dispunha de grande talento como storyteller, ou narrador — as histórias deste filme são, como de costume nas revistinhas da menina dentuça e seus amigos, histórias simples e repetitivas, nada que pudesse destacar em um filme maravilhas invisíveis nos gibis regulares das bancas. 

De todo modo, apesar da animação “bruta”, As aventuras da turma da Mônica é sem dúvidas um programa agradável. É pautado por esquetes cômicas estreladas pelo próprio Mauricio, tentando, a todo custo, chamar seus personagens para participar deste projeto; todos possuem afazeres mais urgentes, e deixam o velho Sousa na mão para viver suas aventuras — que serão quatro ao todo, indo do cotidiano infantil da turma a ficção científica, passando por um romance insólito e uma trama de decepção com a vida social. 

Todos os problemas apresentados nos segmentos acabam desembocando de maneira um tanto quanto esquisita no final, em que Mauricio se junta às crianças e diz que o filme estava feito, era aquilo; ora, ele passa o tempo todo se lamentando por seu abandono e no final sorri como se já esperasse aquilo de há muito? Nessa falta de naturalidade escorrega boa parte da encenação da farsa: sabemos que é tudo um teatrinho sem grandes pretensões, e revelar o truque do mágico faz a plateia perceber que aquilo nada tem de especial. É um erro de principiante, que Mauricio procurará consertar em suas futuras incursões no cinema e televisão. 

Editando o som dessa história, Jair Correia. Ao contrário de uma HQ, em que há poucos artistas, um filme não se faz com uma equipe tão reduzida. E ainda que o comando-mor seja do patrão Mauricio, é necessário atentar à edição e procurar não quebrar o ritmo com lentidão e aceleramento indevidos, falta de coerência ou qualquer tipo de falha estrutural. Portanto, é preciso uma atenção a esses aspectos estruturais. 

É preciso também encarar a fantasia das coisas com naturalidade. Ainda que as partes live action tentem nos provar o contrário, As aventuras da turma da Mônica é uma animação, e deve ser visto assim. Ou talvez como um gibi sendo folheado rapidamente.

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