Até o Último Mercenário

Dossiê Toni Cardi

Até o Último Mercenário
Direção: Penna Filho.
Brasil, 1971. 

Por Gabriel Carneiro
 

Buscando capitalizar ainda mais em cima do sucesso que O Vigilante Rodoviário foi, tanto na TV quanto no cinema, o produtor Ary Fernandes resolveu reunir mais uma vez o combo ‘Carlos Miranda + polícia’, dessa vez entregando a direção às mãos do então novato Penna Filho. Até o Último Mercenário narra a história de Capitão Carlos, que sai investigando um grande acidente ocorrido entre contrabandistas, e se vê metido nas agruras do mundo militar/policial. Capitão Carlos é, claro, interpretado por Carlos Miranda, o nosso típico policial nobre. No elenco, ainda estão Marlene França, Bentinho e Toni Cardi, como membros do grupo de mercenários sem escrúpulos. 

É muito curioso ver um filme como Até o Último Mercenário que, apesar das muitas explosões, tiros, e afins, mais parece um longa infanto-juvenil, pela maneira romântica com que o ofício militar é abordado, num viés claramente maniqueísta, em que o exército está lá apenas para fazer o bem e os bandidos são apenas malvados. Não há interesse, no roteiro ou na direção, em dar mais substância ao personagem, além dos tradicionais clichês, com um herói bem definido, que passa por poucas e boas, tentando salvar a pseudo-namorada (é evidente que gostam um do outro, mas sequer se beijam), o irmão dela e o mundo inteiro das garras daqueles bandidos odientos. Isso tudo é reforçado pelo uso de marchas militares como trilha sonora que não condizem em nada com as cenas de ação, quase numa auto-chacota – o que deixa certamente o trabalho mais interessante. 

Esse aspecto é quase uma afronta com o que acontecia na época. Realizado durante a ditadura militar, no governo Médici, Até o Último Mercenário reforça apenas estereótipos pró-governo, quase numa propaganda escancarada sobre o exército. É de se entender que, sem tantas imagens institucionais, o filme dificilmente sairia o papel e a força comercial do longa justificava esse apadrinhamento, porém é difícil engolir o que parece ser uma história tão boba – o herói Carlos Miranda repete apenas o que fez dele famoso, em O Vigilante Rodoviário, mas sem o mesmo carisma, culpa de seu próprio personagem -, e sem qualquer maior preocupação estética. 

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