A Noite dos Bacanais

Dossiê Ênio Gonçalves

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A Noite dos Bacanais
Direção: Fauzi Mansur
Brasil, 1981.

Por Gabriel Carneiro

A Noite dos Bacanais é mais do que apenas surubas, com sugere o título. Nele, Ênio Gonçalves faz um marido meio conservador que tenta segurar como pode o casamento, especialmente quando sua esposa (Zaíra Bueno) sugere que, para reavivá-lo, deveriam experimentar diferentes práticas sexuais, a fim de não cair na monotonia. Sua esposa tampouco quer engravidar. Muito a contragosto, Ênio topa participar das festas de swing, e convence a mulher a ter um bebê de proveta. Pois bem, se o filme, assim como muitos dos filmes da Boca, é libertário em retratar para as classes populares – e não apenas – a questão sexual, não cai, felizmente, em clichês moralistas ao seu término – como o recente De Pernas pro Ar, por exemplo.

Em A Noite das Bacanais, Fauzi Mansur consegue desbancar alguns preconceitos pela simples condução da narrativa, como, por exemplo, contrapor o marido meio conservador com a esposa libertária – invertendo valores tradicionais que apontam o homem como o sedento pelo aumento do número de parceiras sexuais. Nisso, o filme já ganha imensamente, por buscar fugir da mesmice. Em outro momento, um preconceito escancarado pelo personagem de Ênio justifica-se na trama: ao descobrir que a barriga de aluguel é negra, indigna-se. Mas há um motivo muito particular para tal, como construção de um personagem.

Tal história vem embebida de um tom sério, dramático, com toques policiais, que só acentuam a importância da trama, sem degringolar para uma possível estereotipação e paródia dos temas relatados. Logo na primeira cena nota-se que o tema será tratado até dentro de um quê existencial, de desmistificação de preconceitos muito internos: no zoológico, um casal de onças está deitado, descansando, sem nada fazerem. Observando, Zaíra logo aponta que as onças são muito parecidas com os homens, especialmente, quando constata a monotonia sexual dos felinos. Se parece risível a olhos contemporâneos a história, não se pode deixar de considerar que o gancho é apenas uma forma de adentrar, com graça, a uma questão maior: a vida sexual dos casais.

Claro que, como não podia deixar de ser num mercado que exige a exploração do sexo como forma de lucro, há cenas diversas de nudez e erotismo, bem ousadas até para filmes não explícitos, como é o caso desse A Noite dos Bacanais. Muita nudez frontal, tanto masculina quanto feminina, dá o tom para as diversas cenas – algumas excessivas e deslocadas da narrativa – entre homens e mulheres, mulheres e mulheres, e contando até com um transexual. Se o explícito não faz parte da trama, seu modelo porvir contribuiria com alguns momentos do longa: os intervalos comerciais para as cenas de transa. Não chegam a prejudicar o filme, mas tampouco o favorecem.

Mas, reitero: a principal qualidade de ótimo filme como A Noite dos Bacanais é não ser careta como muito o é o cinema – e as pessoas – de hoje.

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